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Archive for novembro \26\UTC 2010


Mauricio Tagliari
De São Paulo

O mundo do vinho português é paradoxal. Tão fincado em tradições, dono da denominação de origem mais antiga do mundo, o Porto, castas autóctones com nomes estranhos, poéticos e prosaicos, famílias há séculos na atividade e, ao mesmo tempo, tão novo mundo, aberto aos cortes exóticos com uvas francesas e legislação razoavelmente flexível. É um país em busca. Busca de visibilidade, reconhecimento, estratégias, sucesso, enfim.

Peguemos o caso do Ribatejo. Seu nome já é uma espécie de manifesto. Seria o oposto de Alentejo. Esta outra região, mais ao sul, tem sido a locomotiva da moderna enologia lusa. Sem descartar os classudos vinhos do Douro ou os emblemáticos da Bairrada ou do Dão, o Alentejo, com sua fama de região atrasada e de gente preguiçosa, vem, nos últimos anos, passando a perna, em termos mercadológicos, nos conterrâneos.

Já o Ribatejo, um DOC relativamente novo, na busca de sua identidade, acaba de mudar para DOC do Tejo, apenas. Faz sentido. O chamado Ribatejo vinícola era, de fato, tributário do terroir do famoso rio. Daí a mudança parecer um acerto.

Ao contrário de outras regiões, este DOC não tem uma casta dominante e tradicional, como a baga na Bairrada, o alvarinho no Minho ou a touriga nacional no Douro. Salvo a exceção da fernão pires, casta branca muito importante, mas existente também em outras partes.

Numa prova recente com vinhos de nove produtores da região, pode-se ver um pouco da evolução do DOC. Entre um punhado de vinhos tintos desinteressantes, com muita concentração mas sem sutileza, encotramos algunss mais leves, de cor menos profunda, mais frutados e elegantes. Algo mais encorpado do que um beaujolais e menos do que um chianti. Entre os brancos, o nível médio é mais alto. Mas não destaco nenhum grande com a uva fernão pires. Tratemos então, um pouco, dos vinhos.

Destaque para o Vale D’Algares “D” Branco 2008, a R$ 44, um alvarinho de adega moderna com nariz complexo, ótima acidez, toques cítricos, mineral, muito fresco e longo. É fermentado em barrica de carvalho francês e faz estágio de 14 meses em madeira. Detalhe: a battonage, isto é, a remexida no vinho guardado, é feita apenas em dias de lua cheia.

O Casal Branco Espumante Monge 2007 100% castelão, a R$ 80 (Dolivino), é muito interessante, com ótima acidez e perlage. Aroma de levedura e final longo.

Uma agradável surpresa foi Casa Cadaval Trincadeira Vinhas Velhas 2008, por R$ 80 (Mercovino). Este único varietal da casa é justamente feito com uma casta difícil e de vinhas mais antigas. Passa um ano por barricas. O resultado é excelente. Elegante, com tostados agradáveis e ótimo equilíbrio, acidez e taninos. Um orgulho para seu enólogo.

Da casa Fiuza, selecionamos dois. Os extremos de preço. Mas procure saber da gama intermediária, também muito boa. O Fiuza Oceanus 2008 , a R$ 29 (Vinea), um corte de touriga nacional e cabernet sauvignon, na faixa de preço é quase imbatível. Cor rubi, aromas de cassis, menta e tabaco. Corpo médio, acidez e taninos muito bem resolvidos, elegante e frutado. Boa persistência.

O top da casa é o Fiuza Ikon 2007, por R$ 184 (Vinea). 100% touriga nacional. Cor rubi profundo, aromas complexos de frutas vermelhas, ameixas e cerejas em compota. Encorpado, de boa estrutura e equilibrado. Notas de chocolate e caramelo. Muito longo.

Alguns dos melhores vinhos vieram do Pinhal da Torre: o Quinta do Alqueve Touriga Nacional Syrah 2003 (Worldwine), a R$ 182, destaca-se pelo que é: um blend muito redondo, de linda cor rubi intensa, quente e encorpado, que passa 12 meses em barrica mas mantém toda o caráter da fruta. E o Pinhal da Torre Quinta do Alqueve Tradicional (Worldwine), a R$ 56, porque, além de ser um corte com as castas tintas mais tradicionais de Portugal (touriga nacional, tinta roriz, touriga franca e trincadeira), com uma linda cor translúcida, corpo médio, acidez muito boa e taninos muito agradáveis, tem um preço muito honesto. Seu nome, Tradicional, faz jus ao resultado com todo o caráter típico dos grandes vinhos de uvas portuguesas.

Todos estes vinhos já estão no mercado brasileiro. Confira.
Alguns deles, e aí vai uma dica, devem estar à venda na Abravinis, uma feira que ocorrerá nos dias 23 a 25 de novembro, das 14 às 22h, no Clube Pinheiros, em São Paulo. Mais de 100 rótulos com preços especiais. O valor do convite é de R$ 60,00, com 50% revertidos em créditos a serem utilizados em compras no evento. Uma boa para as compras de fim de ano.

* publicado originalmente no terra magazine

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Tive a honra, junto com alguns colegas jornalistas e blogueiros, de estar no evento da Primum Familiae Vini, um grupo muito seleto de produtores europeus. Agraceço assessorias e importadores que indicaram meu nome `a orgqanização.

postarei aos poucos , minhas impressões. mas comecemos por sebastiano rosa, atual presidente a PFV, que em nada lembra um vetusto produtor de um dos vinhos mais impressionantes do mundo. pessoalmente é bem humorado e carismático. pego carona nos videos de colegas videoblogueiros (didu russo, como sempre, em destaque) aqui, para postar fragmentos do discurso deste grande produtor.

aqui ele abre o evento.

aqui, durante o evento de apresentação do grupo.

aqui ele explica melhor o PFV.

video oficial de apresentação da PFV

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Jan Miense Molenaer/Reprodução

Que música e álcool formam uma dupla do barulho não é novidade pra ninguém. Só outro dia, porém, me dei conta das variantes etílico-estilísticas do cancioneiro mundial. Há toda uma escola de Irish songs voltadas para a nobre prática etílica. As canções de cervejaria também tem sua história entre os povos germânicos. Estas, como aquelas, são práticas culturais dos povos. Provavelmente com raízes muito antigas, bárbaras e greco-romanas. Imagino que deva ter havido algo parecido nas orgias de cauim perpetradas pelos ameríndios e descritas pelos primeiros viajantes europeus ao Novo Mundo. Manifestações espontâneas de alegria e celebração.

Mas, na chamada indústria cultural, a bebida também tem presença importante. Noto, empiricamente, uma transformação sincrônica aos costumes. Uma tendência à glorificação do porre. Mas nem sempre foi assim.

Basicamente, podemos dividir as canções populares em três ou quatro tipos. As mais tradicionais são canções tristes, da perda de um amor, de dor de cotovelo, etc. Depois, há canções festivas, que convocam à bebedeira, penso que herdeiras das mais tradicionais citadas acima. E finalmente as de elegia a uma bebida específica. Quase uma propaganda.

Dentre as últimas, podemos elencar clássicos como a instrumental Tequila, sucesso da banda The Champs, nos anos 50. Curiosamente, era o lado B de um 78 rpm, gravada apenas para preencher o espaço. Mas alcançou o topo das paradas com um riff de sax e uma voz rouca que dizia apenas “tequila” três vezes, nos breques, durante a faixa toda. Da música do lado A, Train to Nowhere, ninguém lembra mais.

Outra antiga, mais classuda, como convém à bebida, é Champagne, de Pepino de Capri, um sucesso dos anos 70. Este tema canta um amor proibido e beira o outro estilo, da dor de cotovelo, mas tem um final mais otimista, graças à espumante francesa: ma io, io devo festeggiare/la fine di un amore/cameriere champagne…. Ele bebe solitário, mas não completamente infeliz. Assim como não parece nada infeliz o blues de George Thorogood I Drink Alone, uma canção que não se encaixa bem nas classificações justamente por nem convidar ao consumo nem elogiar uma bebida em especial. Se contenta em afirmar I drink alone, yeah /With nobody else /You know when I drink alone /I prefer to be by myself. Menciona seu good buddy Wiser, seu pal Jack Daniel’s e até seu partner Jimmy Beam.

Entre as que elegem uma certa bebida, infelizmente, não me ocorre uma boa canção sobre Dry Martini. Conheci, porém, recentemente, uma banda de folk metal da Finlândia chamada Korpiklaani, que toca uma obra-prima chamada Vodka. Este rock já entrou para o meu repertório. A letra, enorme, diz coisas como Vodka, you’re feeling stronger/Vodka, no more feeling bad/Vodka, you are the real MAN/Vodka, wipes away your tears/Vodka, removes your fears/Vodka, everyone is gorgeous. E completa, prometendo pureza, that the vodka/We serve, is as pure as it was/Thousands of years ago. Pena não ter existido vodka milhares de anos atrás…

Dentre as canções tristes, existem aquelas do “beber para esquecer”. O famoso reagge Red Red Wine diz literalmente Red, red wine /Go to my head /Make me forget that I /Still need her so. E o grande John Lee Hooker, quando sua garota parte, ordena urgente e peremptoriamente: One bourbon, one scotch, and one beer/Hey mister bartender come here/I want another drink and I want it now. São letras que não devem nada ao nosso Reginaldo Rossi e seu sucesso Garçom.

E com isso chegamos finalmente ao nosso terreiro. A assim chamada orgia foi o berço do samba e de grande parte do cancioneiro popular da Era de Ouro do Rádio. Noel, Ismael, Nelson, todos foram muito bons de copo. Nossa cachaça entrou na música pela porta da marchinha de carnaval.

As águas vão rolar, garrafa cheia eu não quero ver sobrar.

Um dos maiores sucessos de todos os tempos nos carnavais de salão é justamente Cachaça, de Mirabeau Pinheiro, um alfaiate de Niterói que criou também um outro clássico etílico: A Turma do Funil. Cachaça é a marchinha que adverte: Se você pensa que cachaça é água, cachaça não é água, não, mas se entrega ao final dizendo que pode me faltar tudo na vida…mas só não quero é que me falte, a danada da cachaça. O lado moralista e até altruísta também aparece no seu outro clássico quando ele diz Nós é que bebemos e eles que ficam tontos, morou /Eu bebo sem compromisso /É o meu dinheiro /Ninguém tem nada com isso.

A outra porta da cachaça foi a música caipira. Inezita Barroso e a impagável Moda da Pinga, de Ochelsis Laureano e Raul Torres, fizeram época. E a época eram os 50s. É uma afirmação do direito de beber e se divertir. São estrofes enfocando várias aspectos do consumo dos muitos tipos de aguardente. Coisas como: Pego o garrafão é já balanceio/Que é pra mode vê se tá mesmo cheio/Num bebo de vez por que acho feio/No primeiro gorpe chego inté no meio/No segundo trago é que eu desvazeio, oi lá!.

A Moda da Pinga inaugura, até onde sei, este orgulho etílico do excesso na música brasileira. O que antes era uma demonstração de independência, no caso de Mirabeau ou de fuga da triste realidade, nas canções tristes e boêmias, transforma-se numa declaração do direito de beber e ficar bêbado, pura e simplesmente.

A afirmação mais clara disso veio nos anos 70, em plena ditadura, com a superelegante, e apelidada “divina”, Elizeth Cardoso, que cantou orgulhosamente, e foi duramente criticada, Eu bebo sim/Eu tô vivendo/Tem gente que não bebe/E tá morrendo. Este samba, pode-se dizer que foi um marco fundador que gerou filhotes muitos anos depois.

Hoje há toda uma nova onda de canções sobre bebida no Brasil. E todas com este caráter dionisíaco, mirando o excesso e não o consolo ou o prazer mais sofisticado. Talvez sejam reflexo de uma civilização mais individualista, centrada no aqui e agora. Mas isso fica para uma próxima coluna. Não necessariamente a próxima. Mas prometo desenvolver o assunto.

* originalmente publicado no terra magazine

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Dizia Vinícius de Morais que “a vida vem em ondas, como o mar”. Sim, acreditem, Lulu Santos (ou Nelson Motta) apenas citava o poetinha. E esta sabedoria zen se manifesta das mais diferentes formas. Pense, querido leitor, que nem sempre se tem assunto interessante para uma coluna de bebidas semanal. Há períodos de seca, real e metafórica. Nada de lançamentos, nada de efemérides, nada de nada. Mas eis que chegamos em uma determinada semana e os assuntos são tantos e tão maravilhosos que ficamos paralisados. Como que atônitos frente ao rugido de uma tsunami. Esta foi uma destas semanas. Como explicar e por onde começar? Ao menos cinco grande degustações vieram ao meu encontro e foi uma dura e prazerosa tarefa sobreviver à onda.

Logo na segunda-feira houve uma extremamente bem-vinda mostra de vinhos orgânicos e biodinâmicos. Que dizer deles?

Dos inúmeros produtores presentes, alguns já com representantes no Brasil e outros ainda não, podemos afirmar que produzem vinhos excelentes e de grande personalidade. Alguns muito diferentes. Nenhum mau vinho, porém.

Destaco três produtores e seus vinhos.

Os de Mas Estela, bodega do litoral norte da Catalunha, quase na França, apresentados pelo entusiástico herdeiro/proprietário, Dídac Soto Dalmau. Os legendários e simplesmente inesquecíveis austríacos de Nikolaihof Wachau, baseados na cepa local grüner veltiliner, mas também em riesling e até chardonnay. E finalmente os da Foradori, uma cantina nova, que explora muito bem o potencial da algo menos prestigiada cepa italiana teroldego, criando vinhos pungentes.

Mas o que são e o que almejam estes vinhos orgânicos, biodinâmicos ou seus congêneres? Acredito que o objetivo final seja um compromisso com a terra e com o homem. Em palavras mais prosaicas, com sustentabilidade e saúde. E isto se consegue com o respeito total ao tão falado e pouco entendido “terroir”.

Como um assunto leva ao outro, pulo outras degustacões excelentes, de vinhos portugueses e chilenos, para viajar diretamente ao, pode-se dizer, elitista mundo da PFV – Primum Familiae Vini, ou seja, o fechado e aristocrático grupo europeu de onze empresas familiares donas de vinhedos e vinícolas. Seus proprietários se envolvem pessoalmente com a produção e são líderes em suas respectivas regiões. A respeitável lista de membros inclui desde o Château Mouton Rothschild até Antinori e Vega Sicilia, passando pela champagne Pol Roger e o porto de Graham’s.

A PFV tem uma lista de princípios que incluem desde um cultivo tradicional, responsável e respeitoso ao terroir, atingindo patamares muito caros aos biodinâmicos (Vega Sicilia, por exemplo, não usa um herbicida há 30 anos, já), até ações de filantropia, sem descuidar do intercâmbio de conhecimentos e experiências em viticultura, enologia e todos os aspectos do negócio.

Chamou a atenção a frase de Miguel Torres sobre um de seus objetivos: “I’ll never go to stock market. If you go to stock market, you go to hell”. Defende, assim, que a qualidade de alta gama só seja possível, no mercado do vinho, através do negócio familiar. Sem preocupações de rentabilidade a curto prazo. E, para exemplificar, aponta seu colega de Vega Sicilia, que está plantando sobreiros, árvores de onde vem a cortiça da rolha. Elas só começam a produzir num prazo de 40 anos. Muito longo para investidores. Mas no horizonte dos netos dele.

É difícil descrever cada um desses produtos e seria injustiça deixar algum de fora. As palavras se mostram mudas diante de certos vinhos. A literatura se torna inútil. A poesia está imersa inteira no líquido. E explicar a poesia é matá-la um pouco. Cor, aroma, sabor e história se concentram em alguns vinhos excepcionais e mesmo bebedores experientes ficam impressionados.

Cada produtor apresentou duas safras de um mesmo vinho. A saber:

Pol Roger 2000 e 1990.
Beaune Clos de Mouches Blanc 2007 e 2002 (Joseph Drouhin).
Riesling Jubille 2007 e 1998 (Hugels & Fils).
Château de Beaucastel Châteauneuf Du Pape 2007 2004 (Perrin & Fils ).
Solaia 2007 e 2001(Antinori).
Sassicaia 2007 e 2000 (Tenuta de San Guido)
Torres Mas de Plana 2007 e 2001(Torres)
Vega Sicilia Unico 2000 e 1982.
Château Mouton Rothschild 2001 e 1986.
Scharzhofberger Auslese Golkapsel 2007 e 1990 (Egon Muller Scharzhof).
Graham’s Vintage Port 2007 e 1980.
Cada um destes vinhos merece uma resenha para si. E pretendo fazê-las aos poucos. Nas semanas de seca! Mas, para deixar um gostinho bom na boca, comentarei o Scharzhofberger Auslese Golkapsel 1990, de quem detém a menor propriedade e produção, nem por isso menos tradicional. A família mora no local e pratica vitivinicultura desde 1797.

Produzido com uvas em “pouriture noble”, isto é, botitrizadas, num terroir que remonta o tempo dos romanos, este vinho doce, de um dourado exuberante, tem aromas potentes, riquíssimos e complexos. Daria uma lista de ervas, cítricos, minerais, marmelo, flor de laranja, etc. Na boca é muito denso, elegante e persistente. Mas, acima de tudo, diferente. Muito diferente e surpreendente. Não deve nada ao melhor dos Sauternes. Ouvi de um renomado degustador sentado próximo que morreria afogado neste vinho com prazer. Foi sem dúvida o mais festejado do evento. Infelizmente, está esgotado. Daí o prazer potencializado pela saudade já presente.

Veja aqui ( by didu) Valeska Muller da Egon Scharzhof apresentando seus vinhos:

Uma degustação deste quilate não acontece todo dia. Foram muitos os elogios e agradecimentos nos pronunciamentos dos convidados eleitos. Mas poderíamos sintetizá-los com a frase de Ciro Lila, proprietário da Mistral e um dos nomes mais importantes do vinho no Brasil: “Obrigado, não por fazerem vinhos excelentes. Mas por fazerem vinhos excelentes tão diferentes”.
* originalmente publucado no terra magazine.

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publicado no terra magazine.

monte sainte victoire, inspiração de cézanne e grande terroir.

Procuramos muitas coisas no vinho. E felizmente é raro nos decepcionarmos. Há quem busque se inebriar, pura e simplesmente. Há quem deseje aroma e sabor. Outros estão em busca de história. E há aquele, pobrecito, atrás de status. Interessam-me, sem desprezar aroma, sabor e história, três outras coisas: originalidade, ousadia e autenticidade. A fuga da monotonia, enfim.

A autenticidade me veio esta semana através dos deliciosos rosés da Provence. O Conselho Interprofissional de Vinhos de Provence (CIVP) lança um website (www.vinhosdeprovence.com.br) direcionado ao mercado brasileiro e traz um sistema de busca e localização de mais de 70 vinícolas presentes ou interessadas no Brasil. Há descrição de vinhedos e fichas de vinhos, e também uma relação de mais 20 importadoras que já comercializam vinhos provençais por aqui. Uma ferramenta excelente e um exemplo para outras regiões produtoras no mundo.

O Brasil é um mercado óbvio para o rosé da Provence. Tipicamente um vinho seco e leve, de cor clara e límpida, em tons de salmão, pêssego ou cor de casca de cebola, com aromas delicados, frutados e florais, o rosé de Provence, seja como aperitivo de verão ou harmonizando com a comida, é uma opção extremamente versátil.

Além dos pratos da culinária provençal, como ratatouille, bouillabaisse, salada niçoise, este rosé é solução para o acompanhamento de delícias brasileiras, mexicanas e até orientais. Tente uma moqueca baiana ou um cuscuz marroquino. Pratos bem temperados, em geral. Mesmo receitas chinesas e thay têm muito a ganhar com este encontro. Eu gosto muito com pizza.

Estes rosés são vinhos que respeitam a comida. Não se impõem, antes acrescentam algo. São espontâneos, refrescantes, naturais e verdadeiros. Seu estilo único se deve em grande parte a seu método tradicional de elaboração. Diferentemente do processo de sangria, usado no resto do mundo, que gera vinhos mais encorpados, de cor mais intensa e algumas vezes um pouco cansativos, na Provence a maceração é bem mais curta. O que garante a cor, a delicadeza e o equilíbrio.

Destaco dois dos vinhos degustados quando do lançamento do site:

Chateau de Pourcieux 2009 (importado pela Cantu). Apresentado pelo simpaticíssimo proprietário, o Marquês Michel d’Espagnet, este corte de syrah, grenache e cinsault vem de uma propriedade familiar, que vinifica aos pés do Monte Sainte Victoire, imortalizado pelas várias pinturas de Cézanne, desde 1760. Não chega a ser um desconhecido por estas bandas. Foi o vencedor por três vezes do painel top 10, categoria rosados, da Expovinis, inclusive em 2010. Cor pêssego com leve tom salmão, nariz intenso de frutas vermelhas e rosa. Na boca é leve, muito elegante e longo.

Outro vinho interessante é o Cascaï 2009, do Château Ferry Lacombe. Uma promessa da Zahil para 2011. É outro filho do Monte Sainte Victoire. Este vinho, assemblage de grenache (60%), cinsault (20%) e syrah (20%), oriundo das vinhas mais antigas da propriedade, tem a cor rosa pálida, nariz intenso com notas florais, mas é na boca que se revela. Sua grande maciez e fineza trazem um surpreendente toque, que chega a lembrar algo de um grande Sauternes, sem a doçura deste. Provavelmente devido ao corte com mais grenache. Um vinho realmente original e autêntico.

Mas eu não poderia terminar sem comentar a outra alegria da semana. A prova dos vinhos de Carlos Campolargo, este premiado produtor da Bairrada, em Portugal. Não bebemos seu famoso Vinha do Putto, mas outros seis vinhos, incluindo seu Espumante Campolargo Bruto 2008 (U$ 39,50) feito pelo método tradicional com as uvas bical, arinto e cerceal.

Agradou-me bastante o Campolargo Arinto 2008 (U$ 59,90), um branco fermentado em barrica com maceração prolongada, muito intenso e concentrado, frutado e denso. Dos tintos, destaque para a ousadia do Diga? Petit Verdot 2006 e o Calda Bordaleza 2006.

Mas foi no Rol de Coisas Antigas 2007 (U$ 69,90) que reconheci a personalidade direta, criativa e marcante de Carlos Campolargo. Este vinho é uma experiência com um grande grupo de castas típicas da Bairrada (Baga, Castelão Nacional, Trincadeira da Bairrada, Bastardo, Souzão, Tinta Pinheira, Alfrocheiro e Bical), fermentadas juntas e maturadas em barricas de carvalho usadas por 12 meses. Um vinho potente, com 13,5% de álcool, boa acidez e corpo. Original, ousado e autêntico.

E também idiossincrático, como seu criador.

“roubado” do didu. grande didu!

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