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Archive for junho \23\UTC 2014

oriundi 2011

oriundi 2011


Todo grande vinho tem uma boa história. A do Oriundi, pode-se dizer que começa em fins do século XIX, quando da grande imigração italiana para o Brasil. Mas seu início pode ter ocorrido bem antes, no momento em que os romanos decidiram produzir vinhos nas terras mais frias e úmidas ao norte da península italiana e criaram truques para consegui-los mais concentrados e interessantes.

A maior parte dos produtores de vinhos do mundo se gaba da pouca intervenção humana em seu produto, de ser a expressão da terra e da uva, mesmo quando isto nem é tão verdadeiro. O vinho honesto seria apenas suco de boa uva, fermentado e engarrafado sem truques, e as exceções principais residiriam nas delícias de Champagne, de Jerez e do Porto. Nestes três casos, a técnica, o trabalho paciente de armazenamento e as decisões de especialistas sobre mescla de safras têm um peso enorme no resultado final.

Há um outro exemplo de estilo de vinho em que a intervenção humana é fundamental. O italiano Amarone. Nele se usa oapassimento.  Deixam-se os cachos de uva em esteiras de bambu após a colheita durante os meses de inverno. Com isto, as uvas desidratam e ganham concentração, dando origem a vinhos mais encorpados, intensos, ricos em aromas e sabores. Oappassimento, tradicional da zona de Valpolicella, existe desde o tempo dos romanos e é usado na elaboração de vinhos de estilo único no mundo. Esta técnica tem sido aperfeiçoada ao longo da últimas décadas pelos Boscaini, fundadores da Agricola Masi no final do século XVIII e conhecidos como os “reis do Amarone”.

Sandro Boscaini é um visionário. Sob seu comando surgiu o chamado Ripasso, em que se acrescentam ao vinho-base comum as cascas das uvas usadas na produção do Amarone, estimulando uma nova fermentação a reforçar a cor, os aromas e os sabores. O resultado é um tinto entre a elegância do Valpolicella e a potência  do Amarone.

Não satisfeito em ser referência na Itália, Sandro partiu com sucesso para uma empreitada argentina e não se contentou em produzir um malbec de qualidade. Seus dois principais vinhos em Tupungato, Mendoza, são encontros de uvas tradicionais da Argentina com velhas conhecidas italianas. O Passo Bianco combina pinot grigio e torrontés, enquanto o Passo Doble casa amalbec com a corvina. Ambos são vinhos marcantes e interessantes. Nada óbvios.

O que mais poderia inventar o senhor Boscaini? Que tal tentar fazer o melhor vinho brasileiro? Bem, antes foi preciso que um velho amigo religioso, Don Ivo Pasa, o fizesse interessar-se pela população descendente de vênetos concentrada na região de Bento Gonçalves, no Rio Grande do Sul.

A identidade cultural foi um fator preponderante. O encontro, em 2007, com Luis Henrique Zanini, enólogo brasileiro responsável pelos ótimos vinhos da Vallontano, foi fundamental e de rara felicidade para o projeto.

Zanini, de personalidade afável mas apaixonada e uma abordagem técnica precisa, com viés humanista, deu a contrapartida perfeita para a aventura. Profundo conhecedor do Vale dos Vinhedos e sua cultura, vem desde então dividindo a responsabilidade na elaboração de Oriundi, um vinho feito comapassimento no Brasil.

Várias tentativas e experiências se sucederam até o Oriundi 2011. Foi testada e abandonada a principal cepa do Veneto, acorvina, que junto à  rondinella e à molinara integra praticamente todos os cortes de daquela região, seja nos Classico ou nos Amarone. Segundo Andrea Dal Cin, enólogo da Masi, a cepa não deu os resultados esperados no solo ácido da Serra Gaúcha. Várias outras cepas também não passaram no teste doapassimento.

Zanini e Andrea Dal Cin, enólogo da Masi.

 

Em compensação, a descoberta, na região de Caminhos de Pedra (parte da serra onde a vitivinicultura não se modernizou e não houve reconversão das cepas antigas por outras mais em voga), de pés de castas originárias do Vêneto e hoje raríssimas ou extintas por lá, deu um toque de originalidade ao Oriundi.

As principais castas usadas no corte são tannat e teroldego. Mas de vinhedos pergolagos dos Caminhos de Pedra vêm castas raras como recantina, corbina e turchetta para “temperar” o blend. As vinhas têm entre 15 e 50 anos. Seus frutos passaram 30 dias em caixa de madeira em temperatura ambiente, no outono, durante a fase do apassimento. Cada casta foi vinificada separadamente e enfrentou maturação de 18 meses em barricas de carvalho francês. A produção é de apenas 10 mil garrafas.

O resultado é um vinho vermelho rubi intenso. Aromas de frutas negras e especiarias. Tem grande complexidade olfativa. Deixado no copo, trouxe cacau, alcaçuz e, mais tarde, café, menta, tostados e bálsamo. Na boca é de grande estrutura, ótimo corpo, macio e persistente. Muito agradável. De acidez delicada e álcool muito equilibrado.

A safra 2011 está pronta, mas pode resistir até 20 anos, na minha opinião. Pouca gente sabe, mas os melhores vinhos brasileiros já provaram ter grande potencial de guarda. E o Oriundi vem para confirmar a regra. Está entre os melhores vinhos brasileiros que já provei. Mais do que isso: é de classe internacional, não deve nada a ninguém.

Une a expressão do terroir da Serra Gaúcha à técnica e à cultura vênetas. Ao mesmo tempo uma homenagem ao passado, à tradição e à história do povo vêneto no Brasil e uma porta aberta para o futuro do vinho brasileiro. Um vinho completo, portanto. Qualidade, história, originalidade. Um marco. O que se pode querer mais?

Na Mistral, por R$ 127.

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Quem assiste a seriados como Mad Men deve pensar que os americanos já beberam muito mais do que hoje. Copos nada modestos de uísque, gim e vodca são tragados desde o café da manhã até o serão, em plena madrugada. Nada de cerveja ou vinho. A tradição vem de longe. Todo western que se preze tem a cena, seja do mocinho ou do bandido, no balcão do saloon virando um ou mais shots puros, que aqui no Brasil ganharam o apelido de cowboy. Faulkner dizia que a civilização começou com a destilação.

Enquanto o uísque escocês pode ser dividido basicamente entre blend e single malt  classificados por região, o destilado americano é um emaranhado de regras e nomes. Bourbon, Kentucky Whiskey, Tennessee Whiskey, American Whiskey, Rye Whisky, Corn Whiskey, etc. Cada um tem origem, ingredientes e legislação específica.

Sua história começa nos estados do leste da América do Norte. E remonta o heróico passado da independência. Aparece inicialmente à base de centeio (rye whisky). George Washington foi proprietário de uma destilaria de rye whisky. Nada surpreendente para quem também plantou e defendeu a cultura de hemp (cânhamo, maconha). Ao se deslocar para o oeste, a bebida vai se transformando e adotando outros cereais até incorporar o milho.

O Conselho de Bebidas Destiladas dos Estados Unidos trouxe Jeff Arnett, master distiller da Jack Daniel’s, para um seminário sobre o assunto. Acompanhado por alguns produtores independentes, Arnett apresentou um painel interessantíssimo sobre o assunto e coordenou uma degustação inédita no Brasil. Dos oito apresentados, incluindo os conhecidos Jack Daniel’s, Jim Beam e Wild Turkey, destaco três.

Maker’s Mark ( www.makersmark.com) é um bourbon do Kentucky cujo malt é feito de milho, cevada e trigo vermelho. De cor âmbar, tem aroma de mel, menta, tabaco, tostados e na boca é suave, elegante, longo e de bom corpo. Muito equilibrado.

Jack Daniel’s Single Barrel Tennesse Whiskey é mais escuro, marrom-alaranjado. Aromas claros de madeira, baunilha e toffee que preparam a boca para algo cítrico, frutado e levemente salgado.

Bulleit Bourbon leva 68% de milho, 28% de centeio e 4% de cevada maltada. Uma linda cor marrom-dourada escura e aroma complexo com toques de laranja, mel, pimenta e caixa de charutos são suas características principais. No palato é potente, abaunilhado, encorpado, elegante e com especiarias várias a se apresentar.

Mas nem só de uísque vive o americano. Vodcas e brandies também marcaram presença. Entre os pequenos, ainda sem importadores, destaco a Osocalis Distillery e Catoctin Creek Distilling Co.

A Osocalis (www.osocalis.com) foi fundada no início dos anos 1990 em Soquel, na Califórnia. A marca usa um pequeno alambique tradicional Charental, importado de Cognac, para produzir ótimos brandies com uvas e maçãs das regiões mais frias da costa da Califórnia.

A Catoctin Creek Distilling Co. (www.catoctincreekdistilling.com), fundada pelo casal Becky (engenheira química) e Scott Harris ( engenheiro de TI) em 2009, é a primeira destilaria legal em Loudoun County, Virginia, desde a Lei Seca. Produzem destilados orgânicos e kosher de alta qualidade. Deles provei, entre outros, o Mosby’s Spirit, um white dog, outro apelido para um moonshine, aquele uísque branco que não passa por madeira nem leva corantes.

O termo moonshine se origina da atividade ilegal feita sob o manto da noite e testemunhada apenas pela luz da lua. Mosby’s Spirit, longe de suas congêneres, muitas vezes perigosas, intoxicantes e mortais, é uma refinada versão do uísque ilegal, que fugia das taxas e driblava a Prohibition.

Este que provei tinha o centeio bem presente, toques cítricos e uma doçura sutil. Não testei, mas imagino que seria ótimo ingrediente para coquetéis e em nada lembra personagens desvalidos de Bob Dylan ou Jack London vagando clandestinamente pelas estradas de ferro da América. Está mais para um episódio de House of Cards. Moderno, sofisticado e surpreendente. Mas perigoso, ainda assim.

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