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Archive for setembro \24\UTC 2014

Masterclass é um termo algo desgastado entre aqueles que acompanham os movimentos do vinho no Brasil. Toda semana, parece que há uma nova dessas sessões sobre um assunto qualquer. Nem sempre foi assim. Lembro-me de umas das primeiras a que assisti e que, sim, fizeram a diferença sobre como aprecio e entendo os vinhos. Foi a primeira vez em que Pedro Parra, o geólogo chileno especialista em terroir, apresentou-se por estas bandas. Ele abriu meus horizontes no quesito importância do solo para o vinho. Vieram outras masterclasses. Algumas bem interessantes, outras mais ou menos.
Recentemente, contudo, o termo adquiriu um novo vigor. A Wines Of Argentina proporcionou mais que uma degustação, um verdadeiro aprofundamento no pensamento atual da enologia do novo mundo. Ouvir Alejandro Vigil falar de suas descobertas, Daniel Pi descrever vinhos premiados e Sebastian Zuccardi mostrar seu entusiasmo com o futuro dos vinhos argentinos foi uma oportunidade rica e prazerosa.
É ótimo saber que o gradiente de temperatura de Gaultallary é semelhante ao da Borgonha, puxando mais para o frio. Que Agrello lembra mais Bordeaux e Napa em seu clima temperado. E que Lulunta emula a Côte du Rhône, mais quente.
Alejandro Vigil comentou sobre as 2 mil microvinificações-teste em andamento na Catena e explorou as possibilidades de chardonnay e cabernet franc. Deixou claro que a Argentina ainda tem muito tempo de malbec pela frente, mas não deve se ater somente a esta cepa. O momento é de descobrir mais a geografia e outros fatores. Dado positivo, outros winemakers pensam igual. Há muito o que fazer.
Nesta busca, elegeram a altitude, entusiasmados com o gradiente de temperatura, mas descobriram que a insolação UV é um fator mais importante. A combinação de temperatura X solo X altitude X rendimento cria possibilidades ótimas para a chardonnay, por exemplo.
Para provar suas teses, Vigil mostrou três brancos de três alturas distintas que usam a mesma vinificação e a mesma madeira. Mudam apenas as datas de colheita, em busca de um grau alcoólico máximo de 13,5%. Ainda não engarrafados, foram trazidos especialmente para a ocasião. O primeiro, de solo calcáreo cultivado a 1.450m, é mineral, seco, fresco e com cara de limonada. Tem um leve floral. O segundo, de solo pedregoso a 1.100m, sofre stress hídrico e é mais gordo. O terceiro vem de solo argiloso profundo, a 800m. Tem mais tostado, é mais amargo e pesado, com aroma frutado.
Completou a demonstração com quatro cabernet franc 2010 que trouxe de gualtallary (1500m) de solos diferentes, mas muito próximos (60m de distância). Todos foram vinificados em barris novos e colocados seis meses em fudres velhos.

A diversidade do terreno se mostrou assim:
Vinho 1. De solo argiloso profundo e boa umidade. Tem aroma de fruta, pimenta (piracina), na boca taninos  firmes, acidez clara e agradável.
O segundo, de terreno com pedras aluvionais e calcáreo, tem nariz mineral e na boca muita fruta, taninos macios e acidez ok.
O terceiro, de solo pouco profundo, com apenas  25 cm (uma capa de pedra impede a raiz de passar), apresenta nariz de chocolate, floral, rico, parece ter mais madeira e lembra algo do loire. A boca traz  tanino doce, acidez ok.
O quarto, de solo calcáreo, exibia café no aroma. Na boca é sápido e de boa acidez, com corpo médio.Foi uma aula de diversidade. Vinhos tão diferentes, feitos com a mesma uva, da mesma maneira e de vinhedos tão próximos, comportam-se diferentemente e com altíssimo nível.

Sebastian Zuccardi, por sua vez, tratou com autoridade do tema da latitude. Ele defende que os argentinos são vinhos de montanha, pois clima, solo e água dependem da cordilheira. Mendoza é um deserto em altura. Pouca água e muita luz. Dos terroirs de Mendoza, só 3% são cultiváveis, pois falta água. Sebastian trouxe bonardas e malbecs de várias regiões para demonstrar as diferenças de latitude. Esses vinhos não vão para o mercado da forma como os provamos. São usados em cortes da Zuccardi. Portanto, uma oportunidade única de comparar as regiões de Mendoza.
Partindo de vinificações iguais, em tanques de cimento sem revestimento de epoxi (safra 2013), usando  boa parte das uvas com razimos inteiros pra trazer taninos, Sebastian empregou apenas barrica de terceiro e quarto usos. Seu desafio, sabiamente, é diminuir dulçor.  Aqui, bem resumidamente, descrevo as diferenças.
Bonardas
Santa Rosa.  650m, solo mais profundo, sem pedras, 13,5% de álcool. No nariz mais fruta, na boca sobressai o álcool e o tanino é potente.
Altamira. 1.100m, solos aluvionais, muitas pedras com carbonato de cálcio, 13% de álcool. Nariz tem tostado e na boca, bom corpo e fruta potente
San Jose. 1.400m, solo aluvional, pedras menores, sem carbonato, 12,5% de álcool. Nariz elegante e palato com boa acidez, fruta e leveza
Malbec
La Consulta 2013. 900m. Cor intensa, nariz elegante, complexo, floral, mineral, frutas negras. Macio na boca, taninos doces, acidez ótima, corpo médio, persistente, muito potencial.
Vista Flores 2013. 1.100m. De terreno pedregoso. Cor intensa. Aroma floral, de fruta negra, mineral, especiaria, rosa e no palato é macio, com tanino doce, ótima acidez, equilibrado e longo.
Altamira 2013. Sul do vale de Uco, num terreno com muito carbonato. Nariz potente e rico, tanino macio, doce e bom corpo.
Gualtallary 2013. Norte de Uco, região também com muito carbonato. Sebastian exibiu fotos onde se vê que a raiz da videira abraça  a pedra de uma forma interessante. Aromas de tomate, taninos doces, acidez limpa e agradável, clara, corpo leve, fresco e mais curto que os outros.
Em um próximo post, comento a degustação dos vinhos do Argentina Premium Tasting.

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