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Archive for maio \15\UTC 2015

No inicio dos anos 70, os adolescentes urbanos brasileiros, em sua maioria,  escutavam música brasileira nas rádios e compravam LPs de rock de bandas internacionais que saiam com mais ou menos um ano de atraso por aqui. Quando alguém conseguia um “importado” era festa. Fila de gente para fazer cópias em K7.

Voce que tem menos de 30 nem deve fazer ideia do que seja isso. Nesta época, eu era um principiante no violão. Acordes dissonantes de bossa nova, solos de Dilermando Reis e alguns temas do rock.

O blues nos chegava indiretamente, via bandas inglesas. O jazz ainda era um mistério pra mim. Bem, continua sendo , de certa forma. Eu tinha 13 anos e concordava em passar alguns domingos ensolarados com a familia na casa de um amigo de meu pai onde hoje fica a Granja Viana, bairro suburbano chic aqui em São Paulo. Naquele tempo uma aventura campestre.

O mico de passar o dia com a família era compensado pelo churrasco, a piscina, as filhas do amigo de meu pai, mas principalmente por um tesouro que descobri na sala de estar.

O tal amigo, o simpático sr. Lauro, era funcionário do consulado americano. Uma estante de livros de fotografia e outra de LPs, tudo trazido via malote diplomático, tudo novidade, tudo descoberta me despertaram para o blues.

E o primeiro disco que me chamou a atenção foi Indianola Mississipi Seeds. A capa, uma obra-prima que ainda hoje lista entre as melhores de todos os tempos era uma guitarra feita de melancia. Um album de capa dupla, com vinil de 180 gramas, a ficha técnica completa. Um delírio. E a contra-capa era a guitarra-melancia destruída, devorada.

Indianola Mississipi Seeds - B. B. King

A ousadia que me chamou atenção no visual não foi nada perto da alegria de ter escutado aquilo pela primeira vez. Eu ainda não bebia mas me embriaguei de música.

A experiência de se ouvir música era muito diferente de hoje. Nada da ligeireza de baixar da internet e ouvir num fonezinho ou no falante do computador. Escutar uma ou duas vezes e correr para descobrir outra novidade. Não. A gente escutava os discos até “furar”, como se dizia antigamente sobre o atrito da agulha no vinil.

Um ótimo toca-disco, amplicadores e caixas de qualidade eram o sonho de todo mundo que amava música. Não existia nada que se comparasse. Nenhum I-Phone no mundo seria mais desejável.

Desde o primeiro murmúrio acompanhado de um piano de armário meio desafinado  até os inesperados arranjos de cordas,  o disco inteiro foi uma surpresa pra mim. A sonoridade não era “tosca”, pelo contrário. Era sofisticada. A gravação não era um registro antropológico como outros de blues que eu conhecia e ainda amo.

B.B. King abriu uma brecha na música popular americana ao gravar com músicos brancos e em ótimas condições técnicas. A sua “Lucille” cantava suave e sensual. O cara estava tranquilo e comunicava em vários estilos de blues. E transformava qualquer canção em blues! Se fosse comparar eu diria que B.B King era a cabernet sauvignon do blues. Potente, versátil, resistente e se dá bem em todo canto!

Bem, levei anos até comprar este LP numa edição nacional e depois comprei de novo em CD, e depois no Itunes…

Vi B.B.King ao vivo umas duas vezes. Um monstro, um entertainer, um músico genial, bandleader e um som de guitarra único. Mas até hoje a impressão da primeira audição do Indianola é indelével pra mim.

Hoje B.B. King se foi. Mas a melancia está aí para ser devorada. Se voce tiver tempo, ponha o seu melhor fone de ouvido e ouça inteiro o album, à moda antiga, parado, de olhos fechados e tente chegar perto do que foi o despertar do blues para um moleque branco, brasileiro, nos anos 70. Depois me conta.

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um ótimo anselmo mendes

um ótimo anselmo mendes

Os europeus, principalmente franceses, mas também alemães, espanhóis, portugueses e italianos, são considerados os patriarcas do negócio moderno de vinhos. As regulamentações, as denominações de origem, os critérios técnicos mais exigentes e os rótulos paradigmáticos surgiram nesta parte do velho mundo. São resultado de pelo menos 2 mil anos de produção e evolução técnica consistentes.

O resto do mundo produtor, Américas, África do Sul, Austrália e companhia, incluindo a China, começou a se organizar mais tarde. África do Sul e Chile já produziam vinho no século XVI. Mas sua presença no mercado mundial é de fato recente. Por conta disso, o produtor do novo mundo tem certa liberdade.

Um produtor da Borgonha tem de usar uvas pinot noir e chardonnay. Quando muito, uma aligoté. Já o produtor do novo mundo planta e vinifica o que quiser, basicamente. Ele procura apenas o vinho que lhe agrade e que obtenha a aprovação dos consumidores.

Hoje se desenha um movimento contrário. A maioria dos produtores mais sérios de Argentina, Chile e até mesmo Brasil busca a identificação com seu terroir. Quer solidificar os melhores resultados através de um leque restrito de castas, descrevendo cada parcela de vinhedo com precisão científica. Ou seja, acelerar o  processo de séculos que levou o velho mundo para criar suas regulamentações.

A curiosidade é que o “velho mundo” do vinho também tem suas surpresas e quer se libertar.

Veja Portugal, por exemplo. A mais antiga zona demarcada do mundo foi a do Vinho do Porto. Nem por isso a burocracia enológica engessou completamente o resto do país. Experimentações cada vez mais interessantes surgem aqui e ali. Depois da revolução dos vinhos da Bairrada, capitaneada por Luís Pato, da entrada em alto estilo do Douro no mercado dos vinhos tranquilos de alta gama, com os Douro Boys, e toda a avalanche novidadeira do Alentejo, chega a vez dos Vinhos Verdes.

Antes de mais nada, vamos esclarecer que Vinho Verde não é verde. É o nome de uma região do Minho, extremo norte de Portugal, que tem uma vegetação exuberante. Daí a nomenclatura. O Vinho Verde pode ser tinto ou branco.

No passado até recente, era visto como um vinho simples e barato. A verdade é que sua grande maioria ainda o é. São vinhos que trazem a chamada agulha, um leve frisante, devido a um residual de gás carbônico na fermentação. Os brancos, geralmente das uvas alvarinho, loureiro e avesso, são leves, pouco alcoólicos e simples. Os tintos, baseados principalmente na casta vinhão, apresentam-se selvagens e agressivos.

Já ouvi de críticos renomados que o Vinho Verde é um gosto adquirido. Exagero. Mas foi preciso que um enólogo mais ousado e inquieto liderasse seus pares a um novo patamar. Seu nome é Anselmo Mendes.

Metodicamente, Anselmo iniciou há uns vinte anos sua pequena revolução particular. Desde o princípio seu objetivo nada modesto foi o de produzir Vinhos Verdes do nível dos melhores Borgonha. Primeiro, melhorou os vinhedos. Segundo passo, caprichou na seleção das uvas e na vinificação. Experimentou com madeiras novas e usadas.

Sua recompensa chegou. Os brancos por ele apresentados em sua última passagem por São Paulo comprovam a qualidade dos resultados alcançados. Alguns varietais, outros de  cortes tradicionais, mas todos com uma ótima acidez, muito equilíbrio, elegância, complexidade e sutileza. Perfeitos para acompanhar peixes e frutos do mar.

Um toque cítrico é sempre presente. Floral, frutado e mineral se revezam. Ora flor de laranjeira, ora grapefruit, a depender da varietal. Mas o que chama a atenção é a persistência e a estrutura dos vinhos. Anselmo afirma que os seus devem ser guardados entre cinco e dez anos para evoluírem bem. Arrisco dizer que alguns podem esperar mais um pouco. Quinze ou vinte anos. Uma façanha para brancos em geral e anos-luz da fama do Vinho Verde.

O vinho que mais me agradou foi o Alvarinho Parcela Única 2013, fermentado em barricas usadas em contato com as borras por nove meses. Tem cor palha límpida com reflexos verdes. É o caráter mais mineral de toda a linha. Sápido, gordo, equilibrado, leve cítrico, herbáceo e austero. Surpreendentemente, um certo petrolato fez lembrar um grande riesling alemão.

Se Portugal tem suas chicanas e caminhos alternativos, como faria um francês para experimentar?

Bem, antes de tudo, tem de fugir da Borgonha e de Bordeaux. O Languedoc, no sudoeste francês, entre os Pirineus, o Mediterrâneo e o Atlântico, foi a porta de entrada da cultura romana dos vinhos. Historicamente, é um importante produtor. Mas acabou desbancado pelas regiões mais famosas. Ali cultivam-se syrah, caringnan, grenache, mourvédre e viogner, entre outras. O perfil é mais latino e mediterrânico. Um pouco espanhol, um pouco mais anárquico e mais livre que no resto da França.

O tradicional Domaine Paul Mas se modernizou nos últimos doze anos e hoje produz 2 milhões de caixas. O grupo começou com uma vinícola e hoje tem nove. A história recente começa quando do boicote americano a produtos franceses devido à recusa destes em participar da Guerra do Golfo.

Esses franceses irreverentes apostaram numa piada e criaram uma linha de vinhos chamada Arrogant Frog. Assumiram o ancestral apelido “frog” (sapo) dado pelos ingleses e, melhor ainda, riram de sua fama mundial de arrogância ao adotar um nome em inglês no rótulo de um vinho francês. Coisa típica de novo mundo.

o humor francês do arrogant frog

o humor francês do arrogant frog

Não poderiam ter feito melhor. A linha hoje vende 5 milhões de garrafas/ano e responde por 25% das vendas. A razão para tamanha aceitação, claro, está em ser um vinho com qualidade consistente e preço bastante acessível, R$ 79. Para se ter uma ideia, é o terceiro rótulo francês mais vendido nos supermercados brasileiros. Com certeza, muito melhor que os dois líderes.

Outros rótulos de Paul Mas que me agradaram muito foram seu Mas de Mas Picpoul de Pinet 2013 (R$ 99), um branco sem madeira que passa quatro meses sobre as leveduras, e o ótimo Mas de Mas Terrasses Larzac 2010 (R$ 177). Este último é um corte de 40% syrah, 35% mourvédre, 20% carignan e 5% grenache que passa oito meses em um mix de barricas francesas novas, de segundo e terceiro usos. Sua cor rubi encanta e o nariz sedutor lembra a garrigue, aquela vegetação arbustiva típica do sul da França, recheada de aromas florais e herbáceos, ressecada e intensa. Seus taninos são macios e têm uma persistência excelente.

Paul Mas consegue produzir vinhos com caráter francês bebíveis por quem está acostumado aos vinhos chilenos e argentinos.  O velho mundo se arrisca e brinca de novo mundo.

 

* vinhos importados pela Decanter 

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