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Archive for fevereiro \28\UTC 2016

toshiro

Numa safra de talentosos compositores da nova música popular, que inclui gente de todos os cantos do país, gostaria de chamar a atenção para Rodrigo Campos.

Ainda sob o impacto do show de lançamento do álbum “Conversas com Toshiro”, na última sexta-feira, dia 26/03/2015, quando a banda de sete pessoas foi acompanhada por um quarteto de sopros e quarteto de cordas, com direito a maestro, me pego a tentar mostrar para as pessoas meu espanto com tamanho talento e integridade.

Não é de hoje que Rodrigo encanta quem conhece sua pessoa e sua obra. Seu canto sussurrado, joãogilbertiano, não é mais do que a extensão de seu modo sempre calmo de falar. Seja na guitarra, no violão ou no cavaquinho, seu estilo pessoal se sobressai. Mas é nas composições que o cara se supera.

Desde seu primeiro trabalho “São Mateus Não É um Lugar Tão Longe Assim” já se desenhava o minimalismo de sua poética. Como no delicioso samba “Fim da Cidade”:

Jogo de bilhar na quarta
Quinta futebol
Sexta vai sambar não falta
Fim de semana igual

Mas na segunda-feira às três da manhã
Tá no ponto esperando a primeira viagem
Faz final na saída do metrô Carrão
E começa de noite no fim da cidade

Sua aproximação conceitual se afunilou no segundo trabalho, “Bahia Fantástica” (2012), de onde destaco a concisão de “Cinco Doces”, uma redução de oito para cinco versos (doces?), ainda que com repetições:

Daqui pra lá não vá dizer
Que a Bahia não lhe achou
Que a Bahia não lhe achou
Que a Bahia não lhe achou

Fiz cinco doces pra lhe ver
E alguém um dia lhe falou
Tenho Bahia pra você
Tenho Bahia pra você

Lido assim, nem se imagina a beleza que a construção melódico-harmônico-timbrística acrescenta. Mas destas poucas linhas Rodrigo extrai toda uma arquitetura da canção com a maestria de um Caymmi (que me perdoem os puristas…). Nem só do lirismo, contudo, vive sua obra. Quando lida com personagens como menores traficantes e meninas-prostitutas-exploradas, há muita violência e uma boa dose de sexo explícito. Tudo usado com a elegância de um poeta surrealista que lembra um pouco o estilo desapegado de um Randy Newman. Letras curtas que trazem um elemento quase zen de respeito ao ouvinte, ao deixar espaço para a imaginação, como nos seis versos de “Princesa do Mar”:

Andreza chegou na praia hoje
Comeu feijão com arroz e bife à milanesa
Maluca, nem esperou um tanto
Entrou na maré bruta, virá na maré mansa

Princesa do mar, pequena Iemanjá
Princesa do mar, sereia

ouça aqui o álbum “Conversas Com Toshiro” completo.

Nada surpreende que esta técnica de usar imagens prosaicas mas situadoras (ambientadoras) à moda dos hai kai resultasse numa exploração do universo japonês. “Conversas com Toshiro” é mais um disco-conceito apoiado desta vez em sua visão do cinema oriental. Uma visão poética e pessoal, novamente. Como num golpe de Kendô, cada canção nos atinge de modo tão direto que é difícil saber de onde veio o golpe, já que nem vimos o movimento da espada do velho samurai. Como em “Toshiro Reverso”.

Uma nebulosa engoliu Toshiro ontem
Expeliu de volta um planeta esquisito
De fato bonito

Pura coincidência, numa esquina de São Paulo
Foi alçado com violência
À origem do universo
Toshiro reverso

Não dói não
Toshiro reverso
Não dói não
Toshiro uma estrela

Rodrigo se firma neste cenário da música independente brasileira como um artista com seu estilo cada vez mais definido. Original, ousado e estimulante. Salve Rodrigo Campos!

Para ser muito transparente, devo dizer que Rodrigo é um artista habitué na ybmusic, onde gravou e lançou seus dois mais recentes trabalhos.

 

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