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Archive for maio \11\+00:00 2018

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Utopia. Do grego ou (“não” ou prefixo de negação) e topos (lugar), tem como significado secundário um lugar que não é no agora, mas que pode ser construído no futuro.

Retrô. Um estilo cultural desatualizado ou velho, uma tendência, hábito ou moda do passado que com o tempo volta a se tornar aceitável.
Em 2015, achei um caderno de música com anotações e temas que escrevi entre os 15 e 25 anos de idade, meus tempos de estudo musical a sério. Olhei com atenção e ali encontrei coisas interessantes, ideias das quais eu me esquecera totalmente. Por trás de uma variedade de ritmos e estilos de harmonia, havia em comum uma ligação meio ingênua com alguns dos ícones tortos do jazz. Charles Mingus, Thelonious Monk, Django Reinhardt ou Bix Beiderbecke não eram os nomes mais cotados numa época em que o jazz fusion reinava absoluto.

Contudo, a renascença do jazz tomou lugar e tudo mudou. Fiz parte de uma banda de jazz que se poderia dizer pós-moderna: Nouvelle Cuisine. Aprendi muito nessa fase. Tornei-me um produtor musical e trabalhei com dezenas de artistas, além de ter criado centenas de trilhas de filmes.

Ao dedilhar algumas das melodias do caderno me ocorreu um sentimento não de nostalgia, mas de espanto. Cada uma das partituras que escrevi sob a inspiração do jazz, a música da minha adolescência, trazia um estado de espírito impregnado de esperanças no futuro plural, mais livre e sofisticado. A ditadura desmoronava. Nascia o Hip Hop. Existiam já o punk, o reggae e a música eletrônica. Mas a matriz afro-blues do jazz me parecia mais aberta. Menos dogmática. Mais promissora. Aquele era um mundo que poderia ter sido e não foi, como se uma bifurcação do tempo nos levasse para outra dimensão, utópica.

Mas onde estão as utopias? Vivemos a era das distopias. Quando penso que, adolescente,  descobri Julio Cortázar em uma revista Nova na sala de espera do dentista e Vladimir Nabokov, em uma Playboy do barbeiro, que ouvi Hermeto Pascoal numa escadaria de rua de São Paulo, que comprei discos autografados num pós-show diretamente das mãos dos músicos do Art Ensemble of Chicago e vi filmes clássicos em telas gigantes de cinema, o que experimento não é nostalgia. Eu me sinto algo decepcionado com a acomodação que o capitalismo neoliberal nos impôs.

Tive vontade de percorrer aquele outro caminho. Aquela utopia. Daí me veio o nome do projeto: Utopia Retrô.

Utopia Retrô é uma fantasia sonora jazzística baseada em cenas arquetípicas do cinema mundial. Sua sonoridade e seus temas remetem a um tempo em que os problemas eram como os de hoje, mas a esperança em várias utopias parecia maior. Um mundo onde o jazz e a música improvisada e sofisticada eram consumidos e fruídos com leveza e despretensão por qualquer ouvinte nas rádios, bares e em LPs.

Uma das recompensas ao realizar tal fantasia foi tocar com um parceiro musical que trilhou de perto essa trajetória desde minha adolescência, o reservado e genial Luca Raele. Um tesouro que só os iniciados sabem apreciar. A outra alegria esteve em encontrar dois parceiros de geração muito diferente da nossa, mas donos da musicalidade que transcende a vivência, a experiência e a teoria. Sou muito grato a Danilo Penteado e Carlos Mazzoni. Danilo, um jovem e gigantesco talento, integrou a sessão com o baixo acústico. O melódico e contido Mazzoni, com sua bateria sutil.

Apenas entramos no estúdio, mostrei os temas, quase sempre resumidos a uma página de compassos. Tocamos uma vez para reconhecimento, algumas ideias nos ocorreram e gravamos a segunda passada. No máximo, duas tomadas. Entendimento imediato.

Os arranjos, que por momentos podem parecer combinados, são totalmente espontâneos. Remetem a gestos e ideias do repertório cool jazz, mas com a liberdade e alegria de um free jazz despretensioso. Se fosse classificar, esse material soaria natural dentro do movimento Third Stream, surgido em fins da década de 1950. Lembra algo de Jimmy Giuffre, expoente da tendência, mas muito pouco do Modern Jazz Quartet, outro grupo-símbolo do Third Stream. Ou seja, utópico e das antigas.

Todas as faixas foram gravadas em certo dia de 2016 e guardadas preguiçosamente até que fossem mixadas em outro certo dia de 2017. Simples assim. Entre duas gerações, naquele dia, compartilhamos concepções de jazz quase opostas: a contenção do cool jazz e a improvisação arriscada do free jazz. Sem ensaios, sem combinações de arranjo, sem edição, sem overdubs. Uma fotografia sonora. As imperfeições eram esperadas e apreciadas. Em sua maioria, as músicas sugerem suavidade. Se o disco tocar baixinho, engana fácil como música de fundo, calmante e amiga do seu bem-estar.

Mas justamente essa característica, somada a algumas estranhezas sutis, pode ser causa de certo desconforto mental. Estamos acostumados a uma música potente, anestesiante, catártica, sons comprimidos, pouca sutileza, sempre dentro de padrões impostos. Assim como deixamos de nos alimentar saudavelmente, esquecendo os amargos e os sabores estranhos e nos satisfazemos com junk food, doce ou salgada, comida congelada e padronizada, não temos mais ouvido para música com dinâmica. Tudo tem de ser intenso, gritado, potente. A rebeldia aqui, contudo, é ser suave, gentil e natural.

Um pouco depois de nosso encontro musical, li uma das últimas entrevistas concedidas pelo filósofo Zygmunt Bauman, morto em janeiro de 2017, na qual ele alertava: “Estamos involuindo de uma crença tola no futuro para a mistificação infantil do passado.” Soube que seria lançado um livro póstumo de sua autoria intitulado Retrotopia, discutindo justamente este assunto.

Vejo em Retrotopia e Utopia Retrô coisas diferentes, mas muito parecidas. O reconhecimento do fracasso de uma utopia não é necessariamente uma derrota, porque o ser humano passa a buscar as coisas boas do passado. Em um mundo tão cruel, frio, competitivo e sem esperança como este vivido por nós, uma música que deseja ser divertida, suave, gentil e natural significa um desvio na estrada do tempo e pode constituir um fiapo de prazer. Pode-se conhecê-la em qualquer parte do mundo via streaming. Se alguém vai ouvi-la é um outro assunto. As mensagens na garrafa são lançadas ao mar.

A banda

Danilo Penteado, multiinstrumentista formado em Música Popular na Unicamp, em 2004, fundou o grupo Quatro a Zero em 2001 (Prêmio Visa de Música Brasileira de 2004). Gravou com grandes nomes, como Joel Nascimento, Nailor Proveta, Maurício Carrilho e Oscar Bolão. Desde 2009 integra a Orquestra Mundana de Carlinhos Antunes tocando piano, cavaquinho e acordeon. Acompanhou a orquestra em festivais na França, Burkina Faso, Guiné e Bolívia. Integrou, com Natalia Mallo e Mariá Portugal, a banda Sinamantes, que lançou seu disco autoral em 2013, produzido por John Ulhoa, da banda Pato Fu. Com a Sinamantes excursionou pelos Estados Unidos, Portugal e Inglaterra.

Além de cantar e tocar baixo acústico no Compay Tumbao desde 2006, numa duradoura pesquisa em torno da música cubana, tem gravado trilhas para teatro e cinema e acompanhado nomes como Elza Soares e Mariana Aydar.

Carlinhos Mazzoni nasceu em 27 de agosto de 1981. Neto da pianista erudita Joana Elias, teve contato com a música desde cedo. Iniciou seus estudos como baterista aos 11 anos.

Carlinhos Mazzoni é baterista e compositor, iniciou seus estudos aos 11 anos. Atualmente, integra o Carlinhos Mazzoni Trio; Stephane Fernandez Trio(França), junto com o baixista Michael Pipoquinha; o Quarteto Instrumental Culto ao Rim e o Adriano de Carvalho Jazz Sexteto, além de acompanhar o pianista Daniel Szafran. Já tocou com o compositor Bruno Serroni, a cantora Blubell, a cantora Silvia Tape e o guitarrista e compositor Edgard Escandurra.

Maurício Tagliari, compositor, guitarrista, produtor (Nação Zumbi, Trio Mocotó, Nina Becker e Blubell, entre outros) e diretor musical do selo ybmusic (mais de cem CDs lançados e vários prêmios recebidos, Sharp, APCA, Prêmio da Música Brasileira), foi um dos fundadores do grupo Nouvelle Cuisine e da Univesral Mauricio Orchestra. Ex-presidente da Aprosom, diretor da ABMI e da BM&A,  membro da Academia Brasileira de Gastronomia e autor do Dicionário do Vinho – Tagliari & Campos, cria e produz trilhas sonoras para longa-metragens e séries de TV.

Luca Raele, clarinetista, compositor e arranjador formado pela ECA-USP, com passagens pelas orquestras Sinfônica Municipal e Jazz Sinfônica, fez parte do grupo Nouvelle Cuisine e da Heartbreakers Orquestra. É fundador do premiado quinteto de clarinetes Sujeito a Guincho e sócio-diretor da ybmusic.

Ouça https://open.spotify.com/album/44vY7z6rgegGBauq5BJShV?si=0c2gMsj1TMS3IyWKSXWdBg

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