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Archive for outubro \11\UTC 2018

Fui um devorador de enciclopédias. Mais do que apenas livros, li algumas delas. Comecei por Delta Larousse, Enciclopédia Jackson, Tesouro da Juventude. Mas meu saudoso pai era compulsivo com isso. Comprou quase todas as coleções de fascículos e deu muito dinheiro para a editora Abril. De “Grandes Personagens de Nossa História” (nome pomposo e coleção muito útil nas aulas de Educação Moral e Cívica dos tempos da ditadura…) até “Bom Apetite”, passando por “Automóveis” , “Gigantes do Jazz”, “MPB”, “Gênios da Pintura”. Uma das  mais fascinantes era “Como Funciona”, enciclopédia fartamente ilustrada explicando o funcionamento de praticamente “tudo”. Um motor a vapor, um transmissor de rádio, um elevador, um aparelho de raio-x, a eletricidade, a energia atômica. Isto foi muito antes da internet e mesmo de existir um computador pessoal.

O objetivo aparente da publicação consistia em expor a complexidade de certas coisas de que usufruímos sem ter a mínima noção de seu funcionamento. A maioria das pessoas não gasta um segundo para pensar em como a água ou a eletricidade chegam a suas casas. Nem faz ideia da programação de um app que usa muitas vezes durante horas de seu dia, de olho grudado no celular. As pessoas nem imaginam como são controladas e manipuladas. Não estão nem aí para sua privacidade.

Penso nisso ao assistir à tragédia sócio/educacional/cultural/eleitoral do nosso querido Brasil em 2018.

Do mesmo modo que nada sabem sobre o real funcionamento de aparelhos e tecnologias com que convivem, os brasileiros (mas não só eles) ignoram olimpicamente como funcionam centenas de instituições, seja o sistema financeiro, a bolsa de valores, os meandros barrocos e fétidos do judiciário, os porões das delegacias, os sindicatos, a burocracia dos legislativos, o trabalho de lobistas e a origem da corrupção, os interesses da imprensa e dos grupos de mídia, os planos de saúde, a relação entre neopentecostais, políticos e crime, o PCC e por aí vai.

A realidade ficou muito complexa para o cérebro humano abarcar e entender em sua totalidade. Algumas pessoas compreendem muita coisa de algumas coisas. Mas a maioria não entende quase nada de nada e pensa que tem autoridade moral para impor sua visão de mundo parcial, emocionalmente infantil e equivocada. Uma velha canção do Talking Heads chamada “People Like Us” descreve o americano médio babyboomer: “We don’t want freedom. We don’t want justice. We just want someone to love.”

As pessoas querem respostas simples. Soluções rápidas. As pessoas têm medo de se sentir frágeis e ignorantes. Temem ser confrontadas com a perplexidade ao constatar que nós seres humanos não somos tão importantes assim nesse universo. Milhões de linhas já foram escritas para explicar a necessidade humana de Deus, de autoridade, da figura atávica do pai. As pessoas precisam acreditar em algo para continuar a enfrentar o absurdo. Mesmo que seja uma mentira, uma ilusão. Buda até tentou nos libertar! Mas as pessoas… Como satisfazê-las?

O fascismo descobriu o melhor truque há mais de um século: ache um bode expiatório. Unificando os medos, as ignorâncias, as fragilidades, as carências. “Vamos destruir este inimigo tão vil. Nós, as pessoas de bem, somos fortes.”

No momento certo e em dadas condições, até a pessoa mais empática, generosa e cheia de bondade se engaja no preconceito e no ódio. A maioria tende a não enxergar o óbvio da escalada de violência e a relevar as palavras e atitudes violentas de um funesto líder. A única verdade é que as pessoas acreditam no que querem acreditar.

A parte da neurociência que estuda arbítrio e moral traz centenas de exemplos e estudos de como a mais bondosa pessoa do mundo pode ser um torturador sob certas circunstâncias. O experimento de Stanley Milgram nos anos 1960 já clareou muito do que Hannah Arendt questionava em “A Banalidade do Mal”, sobre a crueldade de gente de bem sob o nazismo. Tem um bom filme sobre isso na Netflix. Vale assistir. As obras de Kafka, Bradbury, Orwell e muitos outros descrevem o massacre do indivíduo por um sistema totalitário, sufocante.

A sociedade brasileira está fraturada. Vai levar décadas para curar, se conseguir, as feridas, não importa quem vença a eleição. Será pior e mais cruel se a solução simplista do candidato fascista triunfar. Como diz a personagem de Geraldine Chaplin no filme “Fale Com Ela”, de Almodóvar: “Eu sou bailarina. Eu sei que nada é simples”.

Por menos sangue derramado nas ruas e mais vinho derramado em nossas taças.

 

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