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um ótimo anselmo mendes

um ótimo anselmo mendes

Os europeus, principalmente franceses, mas também alemães, espanhóis, portugueses e italianos, são considerados os patriarcas do negócio moderno de vinhos. As regulamentações, as denominações de origem, os critérios técnicos mais exigentes e os rótulos paradigmáticos surgiram nesta parte do velho mundo. São resultado de pelo menos 2 mil anos de produção e evolução técnica consistentes.

O resto do mundo produtor, Américas, África do Sul, Austrália e companhia, incluindo a China, começou a se organizar mais tarde. África do Sul e Chile já produziam vinho no século XVI. Mas sua presença no mercado mundial é de fato recente. Por conta disso, o produtor do novo mundo tem certa liberdade.

Um produtor da Borgonha tem de usar uvas pinot noir e chardonnay. Quando muito, uma aligoté. Já o produtor do novo mundo planta e vinifica o que quiser, basicamente. Ele procura apenas o vinho que lhe agrade e que obtenha a aprovação dos consumidores.

Hoje se desenha um movimento contrário. A maioria dos produtores mais sérios de Argentina, Chile e até mesmo Brasil busca a identificação com seu terroir. Quer solidificar os melhores resultados através de um leque restrito de castas, descrevendo cada parcela de vinhedo com precisão científica. Ou seja, acelerar o  processo de séculos que levou o velho mundo para criar suas regulamentações.

A curiosidade é que o “velho mundo” do vinho também tem suas surpresas e quer se libertar.

Veja Portugal, por exemplo. A mais antiga zona demarcada do mundo foi a do Vinho do Porto. Nem por isso a burocracia enológica engessou completamente o resto do país. Experimentações cada vez mais interessantes surgem aqui e ali. Depois da revolução dos vinhos da Bairrada, capitaneada por Luís Pato, da entrada em alto estilo do Douro no mercado dos vinhos tranquilos de alta gama, com os Douro Boys, e toda a avalanche novidadeira do Alentejo, chega a vez dos Vinhos Verdes.

Antes de mais nada, vamos esclarecer que Vinho Verde não é verde. É o nome de uma região do Minho, extremo norte de Portugal, que tem uma vegetação exuberante. Daí a nomenclatura. O Vinho Verde pode ser tinto ou branco.

No passado até recente, era visto como um vinho simples e barato. A verdade é que sua grande maioria ainda o é. São vinhos que trazem a chamada agulha, um leve frisante, devido a um residual de gás carbônico na fermentação. Os brancos, geralmente das uvas alvarinho, loureiro e avesso, são leves, pouco alcoólicos e simples. Os tintos, baseados principalmente na casta vinhão, apresentam-se selvagens e agressivos.

Já ouvi de críticos renomados que o Vinho Verde é um gosto adquirido. Exagero. Mas foi preciso que um enólogo mais ousado e inquieto liderasse seus pares a um novo patamar. Seu nome é Anselmo Mendes.

Metodicamente, Anselmo iniciou há uns vinte anos sua pequena revolução particular. Desde o princípio seu objetivo nada modesto foi o de produzir Vinhos Verdes do nível dos melhores Borgonha. Primeiro, melhorou os vinhedos. Segundo passo, caprichou na seleção das uvas e na vinificação. Experimentou com madeiras novas e usadas.

Sua recompensa chegou. Os brancos por ele apresentados em sua última passagem por São Paulo comprovam a qualidade dos resultados alcançados. Alguns varietais, outros de  cortes tradicionais, mas todos com uma ótima acidez, muito equilíbrio, elegância, complexidade e sutileza. Perfeitos para acompanhar peixes e frutos do mar.

Um toque cítrico é sempre presente. Floral, frutado e mineral se revezam. Ora flor de laranjeira, ora grapefruit, a depender da varietal. Mas o que chama a atenção é a persistência e a estrutura dos vinhos. Anselmo afirma que os seus devem ser guardados entre cinco e dez anos para evoluírem bem. Arrisco dizer que alguns podem esperar mais um pouco. Quinze ou vinte anos. Uma façanha para brancos em geral e anos-luz da fama do Vinho Verde.

O vinho que mais me agradou foi o Alvarinho Parcela Única 2013, fermentado em barricas usadas em contato com as borras por nove meses. Tem cor palha límpida com reflexos verdes. É o caráter mais mineral de toda a linha. Sápido, gordo, equilibrado, leve cítrico, herbáceo e austero. Surpreendentemente, um certo petrolato fez lembrar um grande riesling alemão.

Se Portugal tem suas chicanas e caminhos alternativos, como faria um francês para experimentar?

Bem, antes de tudo, tem de fugir da Borgonha e de Bordeaux. O Languedoc, no sudoeste francês, entre os Pirineus, o Mediterrâneo e o Atlântico, foi a porta de entrada da cultura romana dos vinhos. Historicamente, é um importante produtor. Mas acabou desbancado pelas regiões mais famosas. Ali cultivam-se syrah, caringnan, grenache, mourvédre e viogner, entre outras. O perfil é mais latino e mediterrânico. Um pouco espanhol, um pouco mais anárquico e mais livre que no resto da França.

O tradicional Domaine Paul Mas se modernizou nos últimos doze anos e hoje produz 2 milhões de caixas. O grupo começou com uma vinícola e hoje tem nove. A história recente começa quando do boicote americano a produtos franceses devido à recusa destes em participar da Guerra do Golfo.

Esses franceses irreverentes apostaram numa piada e criaram uma linha de vinhos chamada Arrogant Frog. Assumiram o ancestral apelido “frog” (sapo) dado pelos ingleses e, melhor ainda, riram de sua fama mundial de arrogância ao adotar um nome em inglês no rótulo de um vinho francês. Coisa típica de novo mundo.

o humor francês do arrogant frog

o humor francês do arrogant frog

Não poderiam ter feito melhor. A linha hoje vende 5 milhões de garrafas/ano e responde por 25% das vendas. A razão para tamanha aceitação, claro, está em ser um vinho com qualidade consistente e preço bastante acessível, R$ 79. Para se ter uma ideia, é o terceiro rótulo francês mais vendido nos supermercados brasileiros. Com certeza, muito melhor que os dois líderes.

Outros rótulos de Paul Mas que me agradaram muito foram seu Mas de Mas Picpoul de Pinet 2013 (R$ 99), um branco sem madeira que passa quatro meses sobre as leveduras, e o ótimo Mas de Mas Terrasses Larzac 2010 (R$ 177). Este último é um corte de 40% syrah, 35% mourvédre, 20% carignan e 5% grenache que passa oito meses em um mix de barricas francesas novas, de segundo e terceiro usos. Sua cor rubi encanta e o nariz sedutor lembra a garrigue, aquela vegetação arbustiva típica do sul da França, recheada de aromas florais e herbáceos, ressecada e intensa. Seus taninos são macios e têm uma persistência excelente.

Paul Mas consegue produzir vinhos com caráter francês bebíveis por quem está acostumado aos vinhos chilenos e argentinos.  O velho mundo se arrisca e brinca de novo mundo.

 

* vinhos importados pela Decanter 

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Ao provar, recentemente, os vinhos chilenos de Errazuriz e Caliterra pudemos notar a força das ideias de um homem. Além de elegantes, gastronômicos e cheios de personalidade, trazem o nome de Eduardo Chadwick, o visionário proprietário das duas vinícolas, embutido nos seus rótulos.

 

Idealizador da Cata de Berlin, onde comparou às cegas seus vinhos com os que haviam sido ranqueados 100 pontos por Parker, como Margaux, Lafite e Latour da colheita 2000, Sassicaia, Solaia, Tignanello. Foi uma surpresa para os críticos eleger como os melhores os seus Chadwick 2000 e Seña 2001, este concebido em parceira com Robert Mondavi.

 

Herdeiro da tradicional Bodega Errazuriz, Eduardo lidera uma guinada na enologia chilena. Incluindo terroir, tecnologia e sustentabilidade na pauta chilena, vem transformando os vinhos e nossa percepção a respeito deles.

 

Fundada em 1870, a Errazuriz saiu da mão da família para ser retomada em 1983. Hoje possui uma bodega nova que funciona por gravidade. A mais jovem Caliterra produz seus tintos em 1850 hectares de Colchagua, abarcando vários solos e várias exposições solares. Os brancos vem de Leyda no litoral, fresco e com influência oceânica. Provei sete vinhos Errazuriz e seis da Caliterra, todos muito interessantes. Aqui vão as minhas impressões:

 

Max reserva sauvignon blanc 2013, Aconcagua. Tem 13% de álcool e passa 3 meses nas borras (U$43,90). Cor amarelo palha, nariz delicado de frutas brancas se abre em cítrico. Na boca é cremoso, delicado, seco, mineral e  tem acidez elegante.

 

Meu preferido foi o Chardonnay Aconcagua Costa 2013. (13,5% de álcool, 12 meses de madeira usada) Cor palha e aroma floral, silvestre. Leve, longo, de acidez delicada, toques de pessego, limão siciliano e um final quente. Corpo médio, elegante e quase europeu.

 

Max Reserva Pinot Noir 2012 (13,5% de álcool U$43,90) Boa cor. Aromas de fruta vermelhas levemente cozidas ou maduras demais. Boca leve, boa acidez, corpo fresco e suculento. Facil de beber.

 

Syrah Aconcagua Costa 2012 (13,5%) Este syrah de um solo de xisto passa 14 meses em barrica francesa usada. Tem cor densa rubi, aromas de especiarias, cânfora e algo animal. No palato é nervoso, tanino vivo, grande acidez, persistência e corpo medios, suculento e levemente frutado.

 

The Blend Collection Red 2008 (40% carmenere,  25% syrah, 14% petit verdot, 13% mourvedre, 8% cabernet  franc, 14,5% de álcool, passa 16 meses por  barrica francesa  60% novas,  U$69,90) Boa cor e um halo marron revelando sua maturidade. Nariz potente traz baunilha, chocolate, notas de  madeira e tostado. Na boca é elegante, potente e de boa estrutura. Completa com boa acidez. Um vinho suculento  e no seu ponto ideal.

 

Todo ano o corte do Blend Collecion muda para buscar a expressão máxima da colheita. A versão 2011 é um blend mediterraneo .

 

The Blend Collection Red 2011 (55% grenache,  28% mourvedre,  10% syrah,  5% carignan, 2% marsanne,14% de álcool, passa 16 meses por barricas francesas novas, U$69,90). Um vinho de cor densa e potente aroma de fruta fresca. No paladar é suculento, leve, frutado, de boa acidez, tanino elegante,  gastronômico. Não se sente a madeira sobressair e é facílimo de beber. Pode evoluir muito.

 

Don Maximiniano Founder’s Reserve 2009 (80% cabernet sauvignon, 10% carmenére, 5% petit verdot, 5% cabernet franc, 14,5%  de álcool, passa 22 meses em  barricas francesas novas,  U$189). Sua cor densa e fechada já promete a potência que o nariz reforça. Rico em fruta madura, balsâmico, tabaco e mentol. No paladar é estruturado, encorpado, tem tanino potente, carnudo e persistente. Sua acidez é ok e tem grande capacidade de evolução.

 

A prova de Caliterra trouxe o Tributo Sauvignon Blanc 2012 do Sul do Vale de Leyda. Um branco erbáceo com toques de maracujá, leve, floral, mineral, salino, com boca cremosa e acidez  delicada. Bom corpo e sem madeira. Muito agradavel.

 

Tributo Carmenere 2011, (14,5% de álcool, 91% carmenere, 6% cabernet franc, 3% syrah) O vinhedo fica no meio do vale de Colchagua, sobre um trecho de argila negra. Tem cor rubi transparente, nariz de especiarias, paladar picante, sápido e de corpo médio. Taninos bons, acidez idem. Muita fruta negra e sensação quente.

 

Tributo Cabernet Sauvignon 2011( 14,2% de álcool, 91% cabernet sauvignon, 6% petit verdot, 3% cabernet franc, R$88). Originário de um vinhedo numa colina com exposição norte, sua cor tem densidade média, traz um agradável nariz de chocolate, pimenta preta, frutas negras e caixa de charuto. Na boca tem muita fruta, taninos macios, acidez boa e  leve toque animal.

 

A interessante proposta da série Caliterra Edición Limitada traz tres cortes: A de andino, M de mediterráneo e B de bordalês. Todos com 14,5% de álcool.

 

Edición Limitada A 2010  (65% carmenère, 32% malbec, 3% petit verdot, R$ 162).

2010 foi um ano frio, o que ajudou no frescor dos vinhos. Nariz de especiarias, frutas negras, café e  tabaco. Na boca é macio, encorpado,  quente, rico de fruta negra, fez bem a malolática, tem a madeira presente. Longo e alcool explosivo.

 

Edición Limitada M  2010 ( 91% syrah, 6% viogner, 3% petit verdot). Escuro púrpura denso. Nariz potente de fruta madura, leve floral. Peca pelo excesso de álcoool, mas os taninos largos e o uso dosado de madeira nova, compensam. Promete.

 

Edición Limitada B 2011 ( 74% cabernet sauvignon, 9% merlot, 4% cabernet franc ). Cor rubi densa e borda violácea, tem um nariz cheio de especiarias e fruta vermelha. Na boca é macio e fácil. Taninos e acidez bem equilibrados com uma madeira bem integrada. Evoluirá muito bem e superará bons Bordeuax pelo caminho. O meu preferido da série.

 

Baixo um clipe de Necesito una Canción, de NaNo Stern. A música fala de renovação, de velho e novo, de transformação.  Chadwick ajudou a transformar o vinho chileno.

 

 

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Masterclass é um termo algo desgastado entre aqueles que acompanham os movimentos do vinho no Brasil. Toda semana, parece que há uma nova dessas sessões sobre um assunto qualquer. Nem sempre foi assim. Lembro-me de umas das primeiras a que assisti e que, sim, fizeram a diferença sobre como aprecio e entendo os vinhos. Foi a primeira vez em que Pedro Parra, o geólogo chileno especialista em terroir, apresentou-se por estas bandas. Ele abriu meus horizontes no quesito importância do solo para o vinho. Vieram outras masterclasses. Algumas bem interessantes, outras mais ou menos.
Recentemente, contudo, o termo adquiriu um novo vigor. A Wines Of Argentina proporcionou mais que uma degustação, um verdadeiro aprofundamento no pensamento atual da enologia do novo mundo. Ouvir Alejandro Vigil falar de suas descobertas, Daniel Pi descrever vinhos premiados e Sebastian Zuccardi mostrar seu entusiasmo com o futuro dos vinhos argentinos foi uma oportunidade rica e prazerosa.
É ótimo saber que o gradiente de temperatura de Gaultallary é semelhante ao da Borgonha, puxando mais para o frio. Que Agrello lembra mais Bordeaux e Napa em seu clima temperado. E que Lulunta emula a Côte du Rhône, mais quente.
Alejandro Vigil comentou sobre as 2 mil microvinificações-teste em andamento na Catena e explorou as possibilidades de chardonnay e cabernet franc. Deixou claro que a Argentina ainda tem muito tempo de malbec pela frente, mas não deve se ater somente a esta cepa. O momento é de descobrir mais a geografia e outros fatores. Dado positivo, outros winemakers pensam igual. Há muito o que fazer.
Nesta busca, elegeram a altitude, entusiasmados com o gradiente de temperatura, mas descobriram que a insolação UV é um fator mais importante. A combinação de temperatura X solo X altitude X rendimento cria possibilidades ótimas para a chardonnay, por exemplo.
Para provar suas teses, Vigil mostrou três brancos de três alturas distintas que usam a mesma vinificação e a mesma madeira. Mudam apenas as datas de colheita, em busca de um grau alcoólico máximo de 13,5%. Ainda não engarrafados, foram trazidos especialmente para a ocasião. O primeiro, de solo calcáreo cultivado a 1.450m, é mineral, seco, fresco e com cara de limonada. Tem um leve floral. O segundo, de solo pedregoso a 1.100m, sofre stress hídrico e é mais gordo. O terceiro vem de solo argiloso profundo, a 800m. Tem mais tostado, é mais amargo e pesado, com aroma frutado.
Completou a demonstração com quatro cabernet franc 2010 que trouxe de gualtallary (1500m) de solos diferentes, mas muito próximos (60m de distância). Todos foram vinificados em barris novos e colocados seis meses em fudres velhos.

A diversidade do terreno se mostrou assim:
Vinho 1. De solo argiloso profundo e boa umidade. Tem aroma de fruta, pimenta (piracina), na boca taninos  firmes, acidez clara e agradável.
O segundo, de terreno com pedras aluvionais e calcáreo, tem nariz mineral e na boca muita fruta, taninos macios e acidez ok.
O terceiro, de solo pouco profundo, com apenas  25 cm (uma capa de pedra impede a raiz de passar), apresenta nariz de chocolate, floral, rico, parece ter mais madeira e lembra algo do loire. A boca traz  tanino doce, acidez ok.
O quarto, de solo calcáreo, exibia café no aroma. Na boca é sápido e de boa acidez, com corpo médio.Foi uma aula de diversidade. Vinhos tão diferentes, feitos com a mesma uva, da mesma maneira e de vinhedos tão próximos, comportam-se diferentemente e com altíssimo nível.

Sebastian Zuccardi, por sua vez, tratou com autoridade do tema da latitude. Ele defende que os argentinos são vinhos de montanha, pois clima, solo e água dependem da cordilheira. Mendoza é um deserto em altura. Pouca água e muita luz. Dos terroirs de Mendoza, só 3% são cultiváveis, pois falta água. Sebastian trouxe bonardas e malbecs de várias regiões para demonstrar as diferenças de latitude. Esses vinhos não vão para o mercado da forma como os provamos. São usados em cortes da Zuccardi. Portanto, uma oportunidade única de comparar as regiões de Mendoza.
Partindo de vinificações iguais, em tanques de cimento sem revestimento de epoxi (safra 2013), usando  boa parte das uvas com razimos inteiros pra trazer taninos, Sebastian empregou apenas barrica de terceiro e quarto usos. Seu desafio, sabiamente, é diminuir dulçor.  Aqui, bem resumidamente, descrevo as diferenças.
Bonardas
Santa Rosa.  650m, solo mais profundo, sem pedras, 13,5% de álcool. No nariz mais fruta, na boca sobressai o álcool e o tanino é potente.
Altamira. 1.100m, solos aluvionais, muitas pedras com carbonato de cálcio, 13% de álcool. Nariz tem tostado e na boca, bom corpo e fruta potente
San Jose. 1.400m, solo aluvional, pedras menores, sem carbonato, 12,5% de álcool. Nariz elegante e palato com boa acidez, fruta e leveza
Malbec
La Consulta 2013. 900m. Cor intensa, nariz elegante, complexo, floral, mineral, frutas negras. Macio na boca, taninos doces, acidez ótima, corpo médio, persistente, muito potencial.
Vista Flores 2013. 1.100m. De terreno pedregoso. Cor intensa. Aroma floral, de fruta negra, mineral, especiaria, rosa e no palato é macio, com tanino doce, ótima acidez, equilibrado e longo.
Altamira 2013. Sul do vale de Uco, num terreno com muito carbonato. Nariz potente e rico, tanino macio, doce e bom corpo.
Gualtallary 2013. Norte de Uco, região também com muito carbonato. Sebastian exibiu fotos onde se vê que a raiz da videira abraça  a pedra de uma forma interessante. Aromas de tomate, taninos doces, acidez limpa e agradável, clara, corpo leve, fresco e mais curto que os outros.
Em um próximo post, comento a degustação dos vinhos do Argentina Premium Tasting.

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preciosidade.

Está ficando difícil acompanhar o ritmo do vinho brasileiro. Seja por iniciativas privadas, eventos promovidos por blogs, premiações internacionais ou pelas atividades do Ibravin, uma coluna semanal não é mais suficiente. Por conta disso, deixei passar sem comentários um evento relevante acontecido no dia 23 de setembro, na Dal pizzol, em Bento Gonçalves. Já havia participado, durante a mais recente Expovinis, de uma degustação de vinhos brasileiros de safras antigas, dirigida por José Luiz Pagliari.

Mas em setembro, para um grupo menor, e com a presença dos produtores, pudemos apreciar e constatar a longevidade de certos vinhos da Serra Gaúcha. Quase todos, infelizmente, fora do mercado. Os produtores selecionados foram Dal Pizzol, Dom Laurindo, Pizzato, Maximo Boschi e Cave Geisse. Cada um pôde apresentar dois rótulos. O vinho mais novo era de 2000. Mas havia representantes de 1991, ou seja, mais de vinte anos. Algo impensável em termos de vinho brasileiro até há pouco tempo. Só me resta transcrever minhas notas, sem muita firula, por ordem de degustação, e afirmar: caro leitor e amabilíssima leitora, dá, sim, para guardar vinho tupiniquim!

Abrimos os trabalhos com Dal Pizzol Assemblage. Um ótimo corte das safras de 1995, 1998 e 1999, usando cabernet sauvignon, cabernet franc, merlot e tannat, de 12% de álcool. A maior parte do corte foi de 1995 e a tannat é de 1999. Foram engarrafadas apenas 2 mil garrafas jeroboam (3 litros). Sabe-se que o amadurecimento de um vinho é beneficiado numa garrafa maior e aqui não foi diferente. Cor granada e reflexos atijolados, muito limpo, aroma complexo, muitos terciários, balsâmico, etc. Oxidação no ponto ideal. No palato, corpo médio, boa estrutura, frutas, chocolate, muito elegante, equilibrado e persistente. Taninos polimerizados, portanto macios, sem nenhum amargor. E o mais importante: vivo, muito vivo. Um dos melhores brasileiros que já provei.

O segundo, também da Dal Pizzol, um Merlot 1991. Cor rubi atijolado e límpido, de vinhedos de latada aberta. 11,7% de álcool, sem madeira. Aroma de marmelada, couro e tabaco. Ainda vivo e algo tânico. Corpo médio. O mais antigo da lista e ainda pode seguir mais um tempo.

A Dom Laurindo se apresentou com um Cabernet Sauvignon 1994, 11% de álcool, sem madeira e nem filtragem. Coloração rubi escura, aroma mentolado, floral leve e refrescante. Na boca, fantástica, certa marmelada, bala de laranja, acidez leve e tanino adocicado. Muito elegante. Para fechar seu show, a Dom Laurindo apresentou um Tannat 1996, com 13% de álcool, sem filtragem. Trazia algum depósito em suspensão. Aroma frutado e sabor quente, redondo, com taninos muito macios.

Flávio Pizzato trouxe seu legendário Pizzato Merlot 99, o vinho que virou a cabeça de muita gente e elevou sua vinícola a categoria de boutique. Com 12,5% de álcool, proveniente de vinhedos plantados entre 84 e 88, foi a primeira vinificação da Pizzato. Tem cor vermelho vivo brilhante e aromas terciários, couro, tabaco. No palato é macio e de boa acidez, com toques de laranja, goiabada, bombom de chocolate com frutas e especiarias. Segundo Flávio, partiu-se de uvas excepcionais, de uma grande safra e estagiou apenas 5 meses em barricas de carvalho novo americano. Depois de tamanho acerto na primeira vinificação, a Pizzato, com longo histórico no plantio de vinhedos, tinha de provar que não teve sorte de principiante. E provou, logo no ano seguinte, com o Pizzato Cabernet Sauvignon 2000. Com 12,5% de álcool e 6 meses de barrica nova americana, é vermelho com reflexos atijolados, aroma complexo que mescla café, humus, floresta depois da chuva. Tem corpo médio, elegante, bom equilíbrio e persistência média.

Um surpreendente projeto é o da Maximo Boschi. Eles não participam de nenhum concurso e só produzem em bons anos. Porém, mais do que isso, somente comercializam vinhos devidamente amadurecidos. Portanto, estes são vinhos “encontráveis”. Seu Merlot 2000 com 12,8% de álcool e 8 meses de passagem em barricas de carvalho francês é evoluído, com cor escura, aroma rico, caramelado. Tem corpo médio, elegante, taninos firmes, acidez viva e álcool um pouco presente demais. Um vinho desses por R$ 60 ou R$ 70 é uma pechincha. O Cabernet Sauvignon 2000 é vermelho rubi escuro com uma bela borda translúcida. Na boca, corpo médio, tanino de médio para fino, acidez delicada e persistência média. Na mesma faixa de preço. Uma descoberta.

Esta espetacular degustação encerrou-se com um espumante digno de destaque: Cave Geisse Brut 1998, um vinho selecionado para a ¿Cata Magistral¿ que a Master of Wine Jancis Robinson conduzirá no WineFuture Hong Kong 11, organizado pela Academia do Vinho da Espanha. Fique claro que este é o primeiro vinho brasileiro selecionado para degustação num evento internacional deste porte. Até hoje, o Brasil nem era cogitado nas mais importantes publicações sobre vinhos como tendo alguma região capaz de produzir algo de qualidade. O aval da principal crítica de vinhos da atualidade coloca o Brasil como um produtor de espumantes de padrão internacional. Jancis deu 18,5 pontos, a mais alta nota para um espumante de fora de Champagne.

E não é para menos. Foi um vinho pensado para a virada do milênio e feito com 70% de chardonnay e 30% de pinot noir. Este espumante fez uma fermentação por 180 dias e ainda está na cave em autólise, isto é, em contato com as borras. O degorgement (processo de retirada das borras e enrolhamento definitivo) é feito somente mediante a encomenda pelo site. É um líquido amarelo-dourado com perlage delicada, persistente e excelente. Aromas de mel, tostados, frutas secas, amêndoas e biscoito. Na boca, rica, explode com mel, cítricos, bom corpo, persistência e muita cremosidade. Ainda há 280 garrafas. Pela módica quantia de R$ 600 cada garrafa magnum (1,5 litros).

Foi uma manhã chuvosa e fria. Mas a calorosa recepção de apaixonados produtores e as provas de sua dedicação e trabalho nos deixaram com a alma cheia de esperanças em vida longa para conferir esta evolução. Muito bonito, também, foi ouvir Ademir Brandelli, da Dom Laurindo, no passado enólogo da Dal Pizzol, dizer que, “naquele tempo, não sabíamos metade do que sabemos hoje, plantávamos em latada, não em espaldeira, nem tínhamos barricas de carvalho francês”. E disparar na sequência: “Imagina nossos vinhos feitos hoje daqui a dez, vinte anos!?” Imagino, Ademir. Agora eu imagino. E depois de provar, numa sessão especial em sua cave, aquele 1991, seu primeiro vinho, acompanhado de Pedro Hermeto (Restaurante Aprazível) e Deise Novakoski, imagino e acredito. Longa vida ao vinho brasileiro.

*publicado originalmente no terra magazine SÁBADO, 29 DE OUTUBRO DE 2011, 09H04
** antes da atual polêmica sobre as salvaguardas.

Mauricio Tagliari
De São Paulo

 

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música nova do bruno morais, parceria com gui held. saindo agorinha. seja esperto e ouça!. participação bixiga 70. mais uma by ybmusic.

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Cervejas da escocesa Brew Dog
Mauricio Tagliari
De São Paulo

“Você provavelmente não sabe muito sobre cerveja. Você não entende de cerveja. Você não sabe o que é uma boa cerveja ou quão verdadeiramente patéticas são as cervejas do mercado de massa. Isto é irônico considerando a quantidade de cerveja que realmente se bebe neste país.

Você aplicaria a mesma falta de cuidado, conhecimento e paixão em outras áreas de sua vida? O que isto diz a seu respeito? Talvez você queira se definir pelo baixo denominador comum da cerveja suave e insossa. Nós não faremos parte disso. Não é nossa culpa. Constrangido pela falta de opções, seduzido pelos gigantescos orçamentos de publicidade das monolíticas corporações cervejeiras, sob lavagem cerebral das mentiras vingativas perpetradas com a veracidade de pseudo-propaganda, só lhe resta ser sugado para um buraco e sumir. Nossa missão é abrir os olhos do maior número de pessoas possível. O cenário cervejeiro está doente. E nós somos o médico.”

Chocado? Não me crucifique. Note que o texto acima está entre aspas. É uma tradução livre do contra-rótulo da 5 A.M. Saint Iconoclastic Amber Ale da Brew Dog, uma pequena cervejaria escocesa fundada em 2007 por dois garotos, Martin e James, então com 24 anos, que descobri por acaso. Nomearam como provador-chefe, contador e cão de guarda, Bracken, o verdadeiro Brew Dog, que na foto me parece um pacato weimaraner (mas não entendo nada de cães…). Claro que isto tudo eu descobri depois.

Não resisti e fucei toda a linha disponível na prateleira que incluía outra ale, a Hardcore IPA- Explicit Imperial Ale, a Alice Porter-Renaissance Baltic Porter e a Paradox Isle of Arran- Imperial Stout-matured in Isle of Arran whisky casks. Todas trazem textos brilhantes, radicais, bem-humorados e comprometidos. E o melhor é que a cerveja não fica devendo nada a tamanha pretensão.

Investigando seu site, descobri que possuem tres bares na Escócia, que afirmam ser bibliotecas de cervejas “sem smirnoff e sem televisão”! São adeptos da pureza de ingredientes. Nada além de cevada, lúpulo, fermento e água entra em suas fórmulas. Nada de aditivos, conservantes e pasteurização.

Suas ales são aromáticas, muito frutadas e florais, sem ser nada enjoativas. Confesso que me impressionaram muito. Fiquei com a sensação de estar bebendo as melhores cervejas em muitos meses. Sua stout me transportou para a primeira Guinness de minha vida. Uma sensação enternecedora, visto que as Guinnes bebidas em lata por estas bandas atualmente têm me decepcionado deveras. Muito suaves, sem corpo e sem sabor marcante. Exatamente o oposto da ótima stout Brew Dog. Estes escoceses com fama de beberrões insensíveis surpreenderam.

Eric Hobsbawm, num texto sobre a invenção da história, afirma que as tradições escocesas, em tese herdadas dos Pictos, são falsas e copiadas dos irlandeses, povo celta, migrado para o norte séculos antes. Neste caso da stout, ao menos, os escoceses superaram os mestres.

Aparentemente, a Brew Dog mantém alguns rótulos básicos, mas lança tiragens experimentais com nomes como Trashy Blonde, Punk IPA, Tokyo Intergalactic Fantastic Oak Aged Stout, Tactical Nuclear Penguin (com 32% de álcool!), 77 Lager Juxtaposition Pilsner.

Aqui no Brasil você pode encomendar um combo com 5 A.M Saint, 77 Lager, Trashy Blonde, Hardcore IPA e Punk IPA , por R$ 79, no site http://www.clubedomalte.com.br/produto/551-brewdog-combo-51 e conferir se, como dizia a velha canção do The Who, “os garotos estão certos”.

Aproveitando o assunto

Não é por outro impulso que também no Brasil mais e mais microcervejarias estão aparecendo. Já comentei nesta coluna sobre a cena de Porto Alegre. Fui bastante “cornetado”, na ocasião, pelo pessoal de Santa Catarina. Aqui vai a chance de me redimir.

Entre 17 e 19 de novembro, em Blumenau, realiza-se o Festival Brasileiro da Cerveja, que deve reunir microcervejarias, produtores artesanais e especialista para degustações, palestras e debates na Vila Germânica (saiba mais no site http://www.festivaldacerveja.com). É prevista a presença de 150 marcas de cerveja. Uma chance de apreciar a evolução da qualidade brasileira e descobrir, quem sabe, uma Brew Dog verde-amarela.

*publicado originalmente no portal terra magazine 12 DE NOVEMBRO DE 2011, 08H03

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Daniela Villar/Ibravin/Divulgação
A longa estrada do vinho brasileiro passa pelo Vale dos Vinhedos, em Bento Goncalves

Mauricio Tagliari
De Bento Gonçalves (RS)

Cinco dias, sete vinícolas, oito degustações, 32 produtores, mais de130 vinhos degustados. Este é o saldo, em números, do projeto imagem do Ibravin para um grupo de convidados (jornalistas, sommeliers, blogueiros, críticos e restaurateurs) no fim de semana concomitante à 19ª Avaliação Nacional de Vinhos da safra de 2011, em Bento Gonçalves (RS). Em números, eu reforço. Pois a resultante real foi o reforço positivo da imagem do vinho brasileiro de qualidade. A sempre hospitaleira gente da Serra Gaúcha é um bônus inestimável. Sempre soubemos da sua paixão pelo vinho. Mas cada vez parecem estar mais abertos ao diálogo tanto com quem vem de fora quanto entre eles mesmos. Extremamente gratificante notar a união entre a grande maioria dos produtores.

Num sistema de degustação temática, uma vinícola recebia os degustadores, mas eram apresentados até três produtos de outros produtores. Com isto, houve otimização do tempo e foi possível degustar mais rótulos e falar com mais gente. Dada a quantidade de vinhos interessantes (os 130 citados acima são apenas os degustados, analisados, discutidos e devidamente cuspidos. Ficam de fora todos os goles em refeições e recepções), pretendo tecer comentarios específicos em futuras colunas. Portanto, aqui apenas dou um resumo e destaco a seguir alguns temas e as vinícolas participantes:

Tamanho Não é Documento. Tratou, obviamente, de produtores de pequeno porte. Esta qualificação é relativa. E, ao colocar Almaúnica e Pizzato neste painel, já se estabelece um padrão alto para estes chamados pequenos. Sozo, Antônio Dias, Don Bonifácio, Aracuri e Calza completaram a lista de produtores. Nota-se a presença de produtores da região chamada Campos de Cima da Serra, mais ao norte.

Surpresas a Galope. Tratou principalmente de vinícolas da Campanha Gaúcha, região na divisa com o Uruguai e grande aposta de muitos especialistas. Além da Vinícola Miolo, proprietária da Almadén e da Fortaleza do Seival, ambas localizadas na Campanha, compareceram as novíssimas Dunamis, Guatambu e Peruzzo, a ótima Cordilheira de Santana, Província de São Pedro e Campos de Cima, esta não exatamente da mesma região.


Tarso Genro discursa na Avaliação Nacional de Vinhos safra 2011 (Foto: Daniela Villar/Ibravin/Divulgação)

Terroirs da Miolo. Foi uma ótima oportunidade de conhecer a variedade de terroirs explorados pela empresa. Melhor ainda, a vertical do Merlot Terroir, onde foi possível acompanhar a evolução deste vinho que já é um ícone.

A União Faz a Força. Reuniu cooperativas vinícolas como Aurora, Garibaldi e São João.

Longa Vida ao Vinho Brasileiro. Uma das mais interessantes degustações e das mais reveladoras. Com o intuito de desmentir a afirmação, recorrente no meio enófilo, de que o vinho brasileiro até pode ser bom, mas não serve para a guarda, foi organizado este painel que aceitou apenas vinhos produzidos antes de 2000. Agradável surpresa. Voltarei neste assunto em coluna futura. Participaram Dal Pizzol, Don Laurindo, Pizzato, Maximo Boschi e Geisse.

O Outro Lado da Serra Gaúcha. Mostrou o projeto arrojado da moderníssima vinícola de Luiz Argenta e os mais tradicionais Boscato e Galiotto, todos do lado da serra, próximo a Flores da Cunha, terra da histórica Granja União.

O Doce Sabor da Serra. Tratou basicamente do grande potencial da uva moscatel para a Serra Gaúcha. Presentes estavam Perini, Basso e Tonini.

Vitivinicultura nas Alturas. Com rótulos de Santa Catarina, trouxe apenas Pericó e Kranz.

Degustação surpresa. Fechou o ciclo de provas com vinhos da Campanha, ainda em teste na Vinícola Salton.

Como se pode observar, o trabalho sério do Ibravin e o esforço incansável dos produtores já são dignos de um acompanhamento mais próximo por parte do consumidor de vinhos finos, seja brasileiro ou estrangeiro.

No inicio da semana anterior, uma degustação organizada pelo blog Enoleigos, do querido Gustavo Kauffmann, enfileirou 19 vinhos brasileiros abaixo de R$ 200. O resultado foi interessante, entre outros motivos, por colocar no topo três vinhos de três regiões diferentes: Serra Gaúcha, Santa Catarina e Vale do São Francisco. Vale checar aqui: http://www.enoleigos.com.br/2011/09/resultado-da-degustacao-qual-o-melhor.html

As surpresas não param. Aguardem.

publicado originalemnte no terra magazine em SÁBADO, 1 DE OUTUBRO DE 2011

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