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Archive for the ‘enologia’ Category

Os vinhos da Tasca d’Amerita, provavelmente o mais importante e consistente produtor da Sicilia, são velhos conhecidos. Já os provamos há tempos. Desde antes do boom* dos vinhos sicilianos no Brasil . Pioneiros na produção de qualidade naquela ilha, juntam tradição com arrojo. Mesmo sendo o mais francês dos produtores sicilianos, dá show nas uvas autóctones. Esta prova foi conduzida na MIstral por Antonio Virando, export manager da casa. Abaixo as notas da degustação mais recente.

Antonio Virando apresenta os vinhos da Tasca d'Almerita.

Antonio Virando apresenta os vinhos da Tasca d’Almerita.

1.Sallier de la Tour grillo 2013

Uvas: 100% Grillo / Teor alcóolico: 11,5%

O. palha com reflexo verde.

N. fruta branca, leve floral, casca de laranja.
B. Acidez, boa citrico.
Obs . um branco muito agradável

Pts 89

U$32,50
2. Regaleali Bianco 2013

Uvas: 40% Inzolia, 30% Grecanico, 30% Catarratto / Teor alcóolico: 12%

O. palha esverdeado.
N. leve floral, fruta verde.
B. facil, leve, acidez leve, frescor curto. Nespera, manga verde, salino.
Obs. branco mais encorpado.

Pts97

U$37,90
3. Sallier de la Tour nero d’avola 2011

Uvas: 100% Nero d’Avola / Teor Alcóolico: 13,5%

O. rubi, borda translúcida.
N. fruta confitadas, especiarias, floral, chocolate.
B. vivo, tanino adocicado, acidez boa, quente, longo.
Obs um bom vinho do dia a dia.

Pts 87

U$30,90

4. Sallier de la Tour syrah 2011

Uvas: 100% Syrah / Teor Alcóolico: 13%

O. rubi quase translúcido.
N. potente, fruta vermelhas e especiarias.
B. vibrante, acidez viva, tanino firme e pode evoluir. Estruturado mas tem final leve amargor.
Obs. gastronômico. Vinhedo vizinho ao famoso Principe Spadafora, pioneiro de syrah de qualidade na região.

Pts98

U$32,90

5. Ghiaia Nera 2011

Uvas: 100% Nerello Mascalese / Teor Alcóolico: 13,5%

nerello mascalese 100%
O. rubi translúcido.
N. mineral, fruta vermelha.
B. taninos firm, acidez  viva, elegante, bom ataque e final muito agradavel.
Obs  nerello mascalese está entre pinot nero e nebiolo. este vinho passa um ano em carvalho sloveno. o nome Ghiaia Nera significa pedra negra, escolhidp por conta do solo vulcânico.

Pts 90

U$58,50
6 .Lamuri nero d’avola 2011

Uvas: 100% Nero d’Avola / Teor Alcóolico: 13%

O. rubi, borda atijolada translúcida.
N. complexo, fruta vermelha  e negra, tabaco,  erbaceo.
B. ótima acidez e madeira levissima, bem integrada (segundo e terceiro uso)
Obs nero d’avola 100% best buy

Pts 89

U$49,90

7. Cygnus nero d’avola cabernet sauvignon 2009

Uvas: 60% Nero d’Avola,
40% Cabernet Sauvignon / Teor Alcóolico: 14%

O. tijolado,  centro rubi, borda translúcida.
N. menta, ervas, louro.
B. maravilhoso frecor, menta, fruta vermelha, tanino vivo porem leve, acidez ótima.
Obs  este corte é um remanescente dos tempos da moda castas francesas na Sicilia. Sabor original.

Pts89

R$59,90

8. Rosso del Conte 2008

Uvas: 85% Nero d’Avola, 15% seleção

de outras uvas tintas / Teor Acóolico: 14%

O. centro denso, borda tijolo.
N. tostado, tabaco, chocolate.
B. vivo, elegante, macio, potente.
Obs um verdadeiro cru de um vinhedo de 1959. Um vinho de guarda. Passa 100% por barrica de carvalho francês novo. De 1970 até 1987 fazia passagem por barrica de castanho. Hoje, não mais. Este está ótimo mas vai evoluir bem ainda. O Rosso del Cone não é produzido todo ano.
Pts 92

U$149,50

* o DOC Sicilia foi criado em 2012.

O= visual, olho. N= olfato, nariz. B=paladar, boca.

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Ao provar, recentemente, os vinhos chilenos de Errazuriz e Caliterra pudemos notar a força das ideias de um homem. Além de elegantes, gastronômicos e cheios de personalidade, trazem o nome de Eduardo Chadwick, o visionário proprietário das duas vinícolas, embutido nos seus rótulos.

 

Idealizador da Cata de Berlin, onde comparou às cegas seus vinhos com os que haviam sido ranqueados 100 pontos por Parker, como Margaux, Lafite e Latour da colheita 2000, Sassicaia, Solaia, Tignanello. Foi uma surpresa para os críticos eleger como os melhores os seus Chadwick 2000 e Seña 2001, este concebido em parceira com Robert Mondavi.

 

Herdeiro da tradicional Bodega Errazuriz, Eduardo lidera uma guinada na enologia chilena. Incluindo terroir, tecnologia e sustentabilidade na pauta chilena, vem transformando os vinhos e nossa percepção a respeito deles.

 

Fundada em 1870, a Errazuriz saiu da mão da família para ser retomada em 1983. Hoje possui uma bodega nova que funciona por gravidade. A mais jovem Caliterra produz seus tintos em 1850 hectares de Colchagua, abarcando vários solos e várias exposições solares. Os brancos vem de Leyda no litoral, fresco e com influência oceânica. Provei sete vinhos Errazuriz e seis da Caliterra, todos muito interessantes. Aqui vão as minhas impressões:

 

Max reserva sauvignon blanc 2013, Aconcagua. Tem 13% de álcool e passa 3 meses nas borras (U$43,90). Cor amarelo palha, nariz delicado de frutas brancas se abre em cítrico. Na boca é cremoso, delicado, seco, mineral e  tem acidez elegante.

 

Meu preferido foi o Chardonnay Aconcagua Costa 2013. (13,5% de álcool, 12 meses de madeira usada) Cor palha e aroma floral, silvestre. Leve, longo, de acidez delicada, toques de pessego, limão siciliano e um final quente. Corpo médio, elegante e quase europeu.

 

Max Reserva Pinot Noir 2012 (13,5% de álcool U$43,90) Boa cor. Aromas de fruta vermelhas levemente cozidas ou maduras demais. Boca leve, boa acidez, corpo fresco e suculento. Facil de beber.

 

Syrah Aconcagua Costa 2012 (13,5%) Este syrah de um solo de xisto passa 14 meses em barrica francesa usada. Tem cor densa rubi, aromas de especiarias, cânfora e algo animal. No palato é nervoso, tanino vivo, grande acidez, persistência e corpo medios, suculento e levemente frutado.

 

The Blend Collection Red 2008 (40% carmenere,  25% syrah, 14% petit verdot, 13% mourvedre, 8% cabernet  franc, 14,5% de álcool, passa 16 meses por  barrica francesa  60% novas,  U$69,90) Boa cor e um halo marron revelando sua maturidade. Nariz potente traz baunilha, chocolate, notas de  madeira e tostado. Na boca é elegante, potente e de boa estrutura. Completa com boa acidez. Um vinho suculento  e no seu ponto ideal.

 

Todo ano o corte do Blend Collecion muda para buscar a expressão máxima da colheita. A versão 2011 é um blend mediterraneo .

 

The Blend Collection Red 2011 (55% grenache,  28% mourvedre,  10% syrah,  5% carignan, 2% marsanne,14% de álcool, passa 16 meses por barricas francesas novas, U$69,90). Um vinho de cor densa e potente aroma de fruta fresca. No paladar é suculento, leve, frutado, de boa acidez, tanino elegante,  gastronômico. Não se sente a madeira sobressair e é facílimo de beber. Pode evoluir muito.

 

Don Maximiniano Founder’s Reserve 2009 (80% cabernet sauvignon, 10% carmenére, 5% petit verdot, 5% cabernet franc, 14,5%  de álcool, passa 22 meses em  barricas francesas novas,  U$189). Sua cor densa e fechada já promete a potência que o nariz reforça. Rico em fruta madura, balsâmico, tabaco e mentol. No paladar é estruturado, encorpado, tem tanino potente, carnudo e persistente. Sua acidez é ok e tem grande capacidade de evolução.

 

A prova de Caliterra trouxe o Tributo Sauvignon Blanc 2012 do Sul do Vale de Leyda. Um branco erbáceo com toques de maracujá, leve, floral, mineral, salino, com boca cremosa e acidez  delicada. Bom corpo e sem madeira. Muito agradavel.

 

Tributo Carmenere 2011, (14,5% de álcool, 91% carmenere, 6% cabernet franc, 3% syrah) O vinhedo fica no meio do vale de Colchagua, sobre um trecho de argila negra. Tem cor rubi transparente, nariz de especiarias, paladar picante, sápido e de corpo médio. Taninos bons, acidez idem. Muita fruta negra e sensação quente.

 

Tributo Cabernet Sauvignon 2011( 14,2% de álcool, 91% cabernet sauvignon, 6% petit verdot, 3% cabernet franc, R$88). Originário de um vinhedo numa colina com exposição norte, sua cor tem densidade média, traz um agradável nariz de chocolate, pimenta preta, frutas negras e caixa de charuto. Na boca tem muita fruta, taninos macios, acidez boa e  leve toque animal.

 

A interessante proposta da série Caliterra Edición Limitada traz tres cortes: A de andino, M de mediterráneo e B de bordalês. Todos com 14,5% de álcool.

 

Edición Limitada A 2010  (65% carmenère, 32% malbec, 3% petit verdot, R$ 162).

2010 foi um ano frio, o que ajudou no frescor dos vinhos. Nariz de especiarias, frutas negras, café e  tabaco. Na boca é macio, encorpado,  quente, rico de fruta negra, fez bem a malolática, tem a madeira presente. Longo e alcool explosivo.

 

Edición Limitada M  2010 ( 91% syrah, 6% viogner, 3% petit verdot). Escuro púrpura denso. Nariz potente de fruta madura, leve floral. Peca pelo excesso de álcoool, mas os taninos largos e o uso dosado de madeira nova, compensam. Promete.

 

Edición Limitada B 2011 ( 74% cabernet sauvignon, 9% merlot, 4% cabernet franc ). Cor rubi densa e borda violácea, tem um nariz cheio de especiarias e fruta vermelha. Na boca é macio e fácil. Taninos e acidez bem equilibrados com uma madeira bem integrada. Evoluirá muito bem e superará bons Bordeuax pelo caminho. O meu preferido da série.

 

Baixo um clipe de Necesito una Canción, de NaNo Stern. A música fala de renovação, de velho e novo, de transformação.  Chadwick ajudou a transformar o vinho chileno.

 

 

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Masterclass é um termo algo desgastado entre aqueles que acompanham os movimentos do vinho no Brasil. Toda semana, parece que há uma nova dessas sessões sobre um assunto qualquer. Nem sempre foi assim. Lembro-me de umas das primeiras a que assisti e que, sim, fizeram a diferença sobre como aprecio e entendo os vinhos. Foi a primeira vez em que Pedro Parra, o geólogo chileno especialista em terroir, apresentou-se por estas bandas. Ele abriu meus horizontes no quesito importância do solo para o vinho. Vieram outras masterclasses. Algumas bem interessantes, outras mais ou menos.
Recentemente, contudo, o termo adquiriu um novo vigor. A Wines Of Argentina proporcionou mais que uma degustação, um verdadeiro aprofundamento no pensamento atual da enologia do novo mundo. Ouvir Alejandro Vigil falar de suas descobertas, Daniel Pi descrever vinhos premiados e Sebastian Zuccardi mostrar seu entusiasmo com o futuro dos vinhos argentinos foi uma oportunidade rica e prazerosa.
É ótimo saber que o gradiente de temperatura de Gaultallary é semelhante ao da Borgonha, puxando mais para o frio. Que Agrello lembra mais Bordeaux e Napa em seu clima temperado. E que Lulunta emula a Côte du Rhône, mais quente.
Alejandro Vigil comentou sobre as 2 mil microvinificações-teste em andamento na Catena e explorou as possibilidades de chardonnay e cabernet franc. Deixou claro que a Argentina ainda tem muito tempo de malbec pela frente, mas não deve se ater somente a esta cepa. O momento é de descobrir mais a geografia e outros fatores. Dado positivo, outros winemakers pensam igual. Há muito o que fazer.
Nesta busca, elegeram a altitude, entusiasmados com o gradiente de temperatura, mas descobriram que a insolação UV é um fator mais importante. A combinação de temperatura X solo X altitude X rendimento cria possibilidades ótimas para a chardonnay, por exemplo.
Para provar suas teses, Vigil mostrou três brancos de três alturas distintas que usam a mesma vinificação e a mesma madeira. Mudam apenas as datas de colheita, em busca de um grau alcoólico máximo de 13,5%. Ainda não engarrafados, foram trazidos especialmente para a ocasião. O primeiro, de solo calcáreo cultivado a 1.450m, é mineral, seco, fresco e com cara de limonada. Tem um leve floral. O segundo, de solo pedregoso a 1.100m, sofre stress hídrico e é mais gordo. O terceiro vem de solo argiloso profundo, a 800m. Tem mais tostado, é mais amargo e pesado, com aroma frutado.
Completou a demonstração com quatro cabernet franc 2010 que trouxe de gualtallary (1500m) de solos diferentes, mas muito próximos (60m de distância). Todos foram vinificados em barris novos e colocados seis meses em fudres velhos.

A diversidade do terreno se mostrou assim:
Vinho 1. De solo argiloso profundo e boa umidade. Tem aroma de fruta, pimenta (piracina), na boca taninos  firmes, acidez clara e agradável.
O segundo, de terreno com pedras aluvionais e calcáreo, tem nariz mineral e na boca muita fruta, taninos macios e acidez ok.
O terceiro, de solo pouco profundo, com apenas  25 cm (uma capa de pedra impede a raiz de passar), apresenta nariz de chocolate, floral, rico, parece ter mais madeira e lembra algo do loire. A boca traz  tanino doce, acidez ok.
O quarto, de solo calcáreo, exibia café no aroma. Na boca é sápido e de boa acidez, com corpo médio.Foi uma aula de diversidade. Vinhos tão diferentes, feitos com a mesma uva, da mesma maneira e de vinhedos tão próximos, comportam-se diferentemente e com altíssimo nível.

Sebastian Zuccardi, por sua vez, tratou com autoridade do tema da latitude. Ele defende que os argentinos são vinhos de montanha, pois clima, solo e água dependem da cordilheira. Mendoza é um deserto em altura. Pouca água e muita luz. Dos terroirs de Mendoza, só 3% são cultiváveis, pois falta água. Sebastian trouxe bonardas e malbecs de várias regiões para demonstrar as diferenças de latitude. Esses vinhos não vão para o mercado da forma como os provamos. São usados em cortes da Zuccardi. Portanto, uma oportunidade única de comparar as regiões de Mendoza.
Partindo de vinificações iguais, em tanques de cimento sem revestimento de epoxi (safra 2013), usando  boa parte das uvas com razimos inteiros pra trazer taninos, Sebastian empregou apenas barrica de terceiro e quarto usos. Seu desafio, sabiamente, é diminuir dulçor.  Aqui, bem resumidamente, descrevo as diferenças.
Bonardas
Santa Rosa.  650m, solo mais profundo, sem pedras, 13,5% de álcool. No nariz mais fruta, na boca sobressai o álcool e o tanino é potente.
Altamira. 1.100m, solos aluvionais, muitas pedras com carbonato de cálcio, 13% de álcool. Nariz tem tostado e na boca, bom corpo e fruta potente
San Jose. 1.400m, solo aluvional, pedras menores, sem carbonato, 12,5% de álcool. Nariz elegante e palato com boa acidez, fruta e leveza
Malbec
La Consulta 2013. 900m. Cor intensa, nariz elegante, complexo, floral, mineral, frutas negras. Macio na boca, taninos doces, acidez ótima, corpo médio, persistente, muito potencial.
Vista Flores 2013. 1.100m. De terreno pedregoso. Cor intensa. Aroma floral, de fruta negra, mineral, especiaria, rosa e no palato é macio, com tanino doce, ótima acidez, equilibrado e longo.
Altamira 2013. Sul do vale de Uco, num terreno com muito carbonato. Nariz potente e rico, tanino macio, doce e bom corpo.
Gualtallary 2013. Norte de Uco, região também com muito carbonato. Sebastian exibiu fotos onde se vê que a raiz da videira abraça  a pedra de uma forma interessante. Aromas de tomate, taninos doces, acidez limpa e agradável, clara, corpo leve, fresco e mais curto que os outros.
Em um próximo post, comento a degustação dos vinhos do Argentina Premium Tasting.

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O Chile é um dos dois países sul-americanos que não têm fronteira com o Brasil. Nem por isso deixa de ser a origem de uma parcela enorme dos vinhos que bebemos por aqui. Na verdade, exporta quase o dobro do segundo player, a Argentina. No primeiro semestre de 2014, registrou 48% de participação em volume e 40% em valor.

A tradição vitivinícola chilena é centenária e diversa. Iniciada pelos conquistadores espanhóis, mais tarde ganhou enorme influência francesa. Na fase heróica da expansão internacional do vinho chileno, a cabernet sauvignon foi a estrela. Seus vinhos potentes, frutados, com muita madeira e toque de pimentão, marcaram época. Depois veio a descoberta da carmenère e a tentativa de tranformá-la, através de estratégia de marketing, na sua casta-ícone, como a malbec na Argentina. Mas temos visto ultimamente que o Chile é muito mais do que isso.

A Wines of Chile, que há alguns anos organiza um encontro com palestras e degustações no Brasil, trouxe para esta edição 2014 o sommelier chileno Héctor Riquelme, que conduziu a masterclass “Os Extremos do Chile”.

Foram dez vinhos apresentados no painel. Todos oriundos de fora dos tradicionais vales da região mais central do país. Alguns praticamente no deserto de Atacama, ao norte, como o Tara Red Wine 1 Pinot Noir 2012, produzido no vale de Huasco pelo grupo Ventisquero. Outros, no extremo sul, em regiões frias e chuvosas, como o Lago Ranco Sauvignon Blanc 2013, da Casa Silva, provavelmente o vinho mais austral já produzido em escala comercial, diz o enólogo Mario Geisse.

A masterclass comprovou a incrível variedade geográfica, cobrindo mais de 1000 km de norte a sul, e trouxe grandes surpresas. Uma delas foi a presença de cinco vinhos do vale de Itata, ao sul. Esta região, palco de séculos de guerra entre os conquistadores europeus e os nativos mapuche, cultiva a videira há 500 anos. Sem um histórico de vinhos de grande qualidade, vem sendo, porém, redescoberta pelos especialistas.

São de lá, por exemplo, o Outer Limits Old Roots Cinsault 2013 da Viña Montes, um vinho opulento e saboroso. Aqui, a Cinsault tem um toque de 15% de mourvédre para encorpar. Apesar do corte típico do sul da França, este Outer Limits tem um caráter totalmente distinto. Nada do sol mediterrânico. Tem o calor e a intimidade das lareiras.

A gigante vinícola São Pedro fez em Itata uma experiência radical. Produziu apenas 300 garrafas de um vinho da uva país, uma cepa crioula, típica do Chile. O resultado é algo selvagem, com taninos de certa rusticidade. Mas de boa acidez, frutado, longo. Interessante e provavelmente grande companhia para um cozido de carnes típico da região.

A ótima De Martino trouxe o Gallardía del Itata Cinsault 2013. A curiosidade é a boa acidez, não muito típica desta uva, resultante do clima chuvoso e da colheita antecipada. Encontramos um vinho agradável, fácil, elegante e leve. Os taninos são finos e a nota carbônica dá uma vivacidade surpreendente. Um vinho nervoso, mas facílimo de beber.

Mais por curiosidade, vale citar El Insolente Carignan 2010 da Rogue Vine, um vinho de garagem, sem aditivos e com leveduras nativas. São 807 garrafas vinificadas de uvas carignan oriundas de um vinhedo de 60 anos. No nariz, lembrou um francês com fruta madura e toque mineral. Na boca me trouxe à memória alguns vinhos do norte da Espanha. Vinhos com tensão, acidez, tanino potente, com especiarias, fresco e levemente adocicado.

E para fechar temos o Los Patricios Chardonnay 2010, da Pandolfi Price. Esta jovem bodega tem a consultoria de François Massoc, dos premiados vinhos Aristos e Clos de Fou. Los Patricios é um chardonnay feito com leveduras selvagens, proveniente de um solo vulcânico assentado sobre materiais argilosos glaciais. Tem um aroma interessantíssimo, complexo, frutado e mineral. Um pouco de flores brancas também se mostra aqui. No palato é vivo, profundo, elegante e persistente. Um toque cremoso e a boa acidez apontam para futuro de guarda promissor. Muito diferente dos chardonnays típicos do novo mundo. Tem um caráter próprio. Sem a pretensão de ser um Borgonha.

Ao final de uma degustação como esta, com dez taças na frente, é normal voltar a provar cada vinho para checar a evolução no copo. Em nove entre dez provas, o aroma dos restos de copo dos tintos traz um toque de café, caramelo ou algum tostado. Em geral, proveniente de uso de madeira. Não é defeito. É um sinal. E às vezes até bem agradável. Mas muito comum.

Chamou-me a atenção que neste painel nenhuma taça evoluiu para estas características. Prova do pouco ou quase nulo uso de barricas para corrigir, mascarar ou empetecar os vinhos. Os que declaram o uso mencionam apenas barricas de terceiro e até quinto usos. Isto é, que não aportam mais aquelas características de baunilha, café, chocolate, etc., típicas de carvalho novo.

São vinhos sinceros. Retratos do terreno e do clima. Sem imitações ou busca de agradar um consumidor imaginário.

Esta é a marca deste outro Chile que está sendo descoberto e que encanta.

E aqui uma amostra de um outro Chile musical. O clipe, road movie da canção“Lo Que Quieras” do Duo Denver mostra várias das paisagens produtoras de vinho. Aviso aos mais sensíveis: tem um pouco de violência.

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preciosidade.

Está ficando difícil acompanhar o ritmo do vinho brasileiro. Seja por iniciativas privadas, eventos promovidos por blogs, premiações internacionais ou pelas atividades do Ibravin, uma coluna semanal não é mais suficiente. Por conta disso, deixei passar sem comentários um evento relevante acontecido no dia 23 de setembro, na Dal pizzol, em Bento Gonçalves. Já havia participado, durante a mais recente Expovinis, de uma degustação de vinhos brasileiros de safras antigas, dirigida por José Luiz Pagliari.

Mas em setembro, para um grupo menor, e com a presença dos produtores, pudemos apreciar e constatar a longevidade de certos vinhos da Serra Gaúcha. Quase todos, infelizmente, fora do mercado. Os produtores selecionados foram Dal Pizzol, Dom Laurindo, Pizzato, Maximo Boschi e Cave Geisse. Cada um pôde apresentar dois rótulos. O vinho mais novo era de 2000. Mas havia representantes de 1991, ou seja, mais de vinte anos. Algo impensável em termos de vinho brasileiro até há pouco tempo. Só me resta transcrever minhas notas, sem muita firula, por ordem de degustação, e afirmar: caro leitor e amabilíssima leitora, dá, sim, para guardar vinho tupiniquim!

Abrimos os trabalhos com Dal Pizzol Assemblage. Um ótimo corte das safras de 1995, 1998 e 1999, usando cabernet sauvignon, cabernet franc, merlot e tannat, de 12% de álcool. A maior parte do corte foi de 1995 e a tannat é de 1999. Foram engarrafadas apenas 2 mil garrafas jeroboam (3 litros). Sabe-se que o amadurecimento de um vinho é beneficiado numa garrafa maior e aqui não foi diferente. Cor granada e reflexos atijolados, muito limpo, aroma complexo, muitos terciários, balsâmico, etc. Oxidação no ponto ideal. No palato, corpo médio, boa estrutura, frutas, chocolate, muito elegante, equilibrado e persistente. Taninos polimerizados, portanto macios, sem nenhum amargor. E o mais importante: vivo, muito vivo. Um dos melhores brasileiros que já provei.

O segundo, também da Dal Pizzol, um Merlot 1991. Cor rubi atijolado e límpido, de vinhedos de latada aberta. 11,7% de álcool, sem madeira. Aroma de marmelada, couro e tabaco. Ainda vivo e algo tânico. Corpo médio. O mais antigo da lista e ainda pode seguir mais um tempo.

A Dom Laurindo se apresentou com um Cabernet Sauvignon 1994, 11% de álcool, sem madeira e nem filtragem. Coloração rubi escura, aroma mentolado, floral leve e refrescante. Na boca, fantástica, certa marmelada, bala de laranja, acidez leve e tanino adocicado. Muito elegante. Para fechar seu show, a Dom Laurindo apresentou um Tannat 1996, com 13% de álcool, sem filtragem. Trazia algum depósito em suspensão. Aroma frutado e sabor quente, redondo, com taninos muito macios.

Flávio Pizzato trouxe seu legendário Pizzato Merlot 99, o vinho que virou a cabeça de muita gente e elevou sua vinícola a categoria de boutique. Com 12,5% de álcool, proveniente de vinhedos plantados entre 84 e 88, foi a primeira vinificação da Pizzato. Tem cor vermelho vivo brilhante e aromas terciários, couro, tabaco. No palato é macio e de boa acidez, com toques de laranja, goiabada, bombom de chocolate com frutas e especiarias. Segundo Flávio, partiu-se de uvas excepcionais, de uma grande safra e estagiou apenas 5 meses em barricas de carvalho novo americano. Depois de tamanho acerto na primeira vinificação, a Pizzato, com longo histórico no plantio de vinhedos, tinha de provar que não teve sorte de principiante. E provou, logo no ano seguinte, com o Pizzato Cabernet Sauvignon 2000. Com 12,5% de álcool e 6 meses de barrica nova americana, é vermelho com reflexos atijolados, aroma complexo que mescla café, humus, floresta depois da chuva. Tem corpo médio, elegante, bom equilíbrio e persistência média.

Um surpreendente projeto é o da Maximo Boschi. Eles não participam de nenhum concurso e só produzem em bons anos. Porém, mais do que isso, somente comercializam vinhos devidamente amadurecidos. Portanto, estes são vinhos “encontráveis”. Seu Merlot 2000 com 12,8% de álcool e 8 meses de passagem em barricas de carvalho francês é evoluído, com cor escura, aroma rico, caramelado. Tem corpo médio, elegante, taninos firmes, acidez viva e álcool um pouco presente demais. Um vinho desses por R$ 60 ou R$ 70 é uma pechincha. O Cabernet Sauvignon 2000 é vermelho rubi escuro com uma bela borda translúcida. Na boca, corpo médio, tanino de médio para fino, acidez delicada e persistência média. Na mesma faixa de preço. Uma descoberta.

Esta espetacular degustação encerrou-se com um espumante digno de destaque: Cave Geisse Brut 1998, um vinho selecionado para a ¿Cata Magistral¿ que a Master of Wine Jancis Robinson conduzirá no WineFuture Hong Kong 11, organizado pela Academia do Vinho da Espanha. Fique claro que este é o primeiro vinho brasileiro selecionado para degustação num evento internacional deste porte. Até hoje, o Brasil nem era cogitado nas mais importantes publicações sobre vinhos como tendo alguma região capaz de produzir algo de qualidade. O aval da principal crítica de vinhos da atualidade coloca o Brasil como um produtor de espumantes de padrão internacional. Jancis deu 18,5 pontos, a mais alta nota para um espumante de fora de Champagne.

E não é para menos. Foi um vinho pensado para a virada do milênio e feito com 70% de chardonnay e 30% de pinot noir. Este espumante fez uma fermentação por 180 dias e ainda está na cave em autólise, isto é, em contato com as borras. O degorgement (processo de retirada das borras e enrolhamento definitivo) é feito somente mediante a encomenda pelo site. É um líquido amarelo-dourado com perlage delicada, persistente e excelente. Aromas de mel, tostados, frutas secas, amêndoas e biscoito. Na boca, rica, explode com mel, cítricos, bom corpo, persistência e muita cremosidade. Ainda há 280 garrafas. Pela módica quantia de R$ 600 cada garrafa magnum (1,5 litros).

Foi uma manhã chuvosa e fria. Mas a calorosa recepção de apaixonados produtores e as provas de sua dedicação e trabalho nos deixaram com a alma cheia de esperanças em vida longa para conferir esta evolução. Muito bonito, também, foi ouvir Ademir Brandelli, da Dom Laurindo, no passado enólogo da Dal Pizzol, dizer que, “naquele tempo, não sabíamos metade do que sabemos hoje, plantávamos em latada, não em espaldeira, nem tínhamos barricas de carvalho francês”. E disparar na sequência: “Imagina nossos vinhos feitos hoje daqui a dez, vinte anos!?” Imagino, Ademir. Agora eu imagino. E depois de provar, numa sessão especial em sua cave, aquele 1991, seu primeiro vinho, acompanhado de Pedro Hermeto (Restaurante Aprazível) e Deise Novakoski, imagino e acredito. Longa vida ao vinho brasileiro.

*publicado originalmente no terra magazine SÁBADO, 29 DE OUTUBRO DE 2011, 09H04
** antes da atual polêmica sobre as salvaguardas.

Mauricio Tagliari
De São Paulo

 

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Vez ou outra, para meu mais completo espanto, escuto a frase: “Não gosto de vinho”. Imediatamente me vem à mente a pergunta/resposta: “De qual vinho voce não gosta? Tinto, branco, espumante, rosé, porto, jerez, retsina? Qual?”. O mundo do vinho é vastíssimo. Nem precisamos ir tão longe. Em qualquer uma dessas categorias citadas, a variedade já é enorme.

Pensei nisso porque, com a proximidade do verão (ao menos no calendário, ainda que não nos termômetros), avaliava a reposição das opções de vinho branco em minha adega. E deparo com excelentes e díspares opções. Entre um chablis, um vinho verde ou um branco do novo mundo, o que escolher? Claro que a resposta é: todos e mais um pouco!

Recentemente, provei alguns brancos muito interessantes e de faixas de preço e estilos bem variados. Vejam o caso do argentino Domaine Jean Bousquet Reserva Chardonnay/Pinot Gris 2010 (ABFLUG, R$ 59), por exemplo. Confesso não ser um entusiasta dos brancos argentinos. Costumam se ressentir da falta de acidez. Mas este chardonnay temperado com 15% de pinot gris, um orgânico que não passa por madeira, fica duas semanas sobre as borras e faz batonage, é um vinho fresco, com aromas de frutas tropicais sutil e algo de cítrico. Muito equilibrado na boca, lembrando maçã verde e lima da pérsia. Elegante e ótima relação custo-benefício.

Outro exemplar do novo mundo é o Calyptra Chardonnay Gran Reserva 2007 (wine.com.br, R$ 90). Um vinho muito mais encorpado, com paladar untuoso, amanteigado e mineral. Na primeira impressão, aparentou faltar acidez, mas esta apareceu e se manteve firme com a comida. Trouxe notas de tostado e mel discreto. Passa 24 meses em carvalho francês, o que lhe confere uma ótima estrutura. Um grande vinho para a categoria.

Chardonnay, presente nos dois vinhos citados, é, atualmente, uma cepa mundial. Mas suas raízes estão firmes na Borgonha. E de lá vem o maravilhoso Chablis Grand Cru Vaudésir 2009 de Joseph Drouhin (Mistral, U$ 179,50). Originado de vinhedos de mais de 30 anos, cultivados com práticas biodinâmicas, tem um aroma trufado e mineral. Na boca é fino, elegante e sensual. Equilibra uma acidez delicada com um final cremoso. Um vinho fiel à tradição de Chablis. Ainda um chardonnay. Mais apolíneo do que os do novo mundo, eu diria.

Como o mundo do vinho branco vai muito além da chardonnay, não posso deixar de mencionar o Luis Pato Vinhas Velhas branco 2009 (Mistral, U$ 33,90), que bebi há poucas semanas. Um corte de cerceal da Bairrada, sercealinho e bical, fermentado e amadurecido por seis meses em inox. Complexo, elegante, paira, com perfeito equilíbrio, entre acidez e fruta. Um vinho tão diverso dos anteriores que nos faz pensar em outras paisagens e outras comidas.

Para fechar a lista de hoje, destaco o Thalassitis Oak Fermented 2008 (Mistral, U$ 58,90), da Gaía, considerada por muitos críticos internacionais a melhor vinícola grega. Oriundo da paradisíaca ilha de Santorini, é produzido 100% com a casta assyrtiko. Thalassatis significa “aquele que vem do mar”. Produzido do que talvez sejam os vinhedos mais antigos do mundo, coisa na ordem das centenas de anos, com raízes profundíssimas no solo vulcânico, de baixíssima produtividade. Feito o enxerto, aproveitando-se a raiz, temos a impressão de ver plantas totalmente diferentes. Sofrem a ação do vento e se retorcem impressionantemente, formando uma espécie de cesta de proteção. A água e os nutrientes atravessam dezenas de metros em espiral entre a raiz e a fruta, criando, assim, uma alta concentração.

É um vinho estupendo, fermentado em barricas, austero, complexo, que em momentos lembra algo do clássico espanhol Tondonia, com um toque de Jerez fino. Seus aromas passam do mineral ao herbáceo, mas não deixam a fruta de lado. Na boca, é uma explosão de sensações. Exige atenção e profundidade. Yiannis Paraskevopoulos, proprietário da Gaía, concorda que não é uma bebida para quem está acostumado ou espera ligeireza ou superficialidade.

Com tanta diversidade numa pequena lista de brancos tranquilos, somente uma alma pouquíssimo curiosa, sem confiança na beleza da natureza, há de dizer que “não gosta de vinho”.

*publicado originalmente no terra magazine SÁBADO, 22 DE OUTUBRO DE 2011, 11H53

Mauricio Tagliari
De São Paulo

e para quem não conhece, White Wine In The Sun by Tim Minchin:

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Recebi em casa uma caixa com 5 meias garrafas de vinho varietais, 2 malbecs de vinhedos diferentes, um tannat e mais dois cabernet sauvignon tb de vinhedos diferentes. Além disso uma pipeta e um tubo ou copo, que acho se chama becker, pois fugi das ulas de química. Tudo isso para participar de o concurso “Corte Susana Balbo”, promovido pela Cantu Importadora em parceria com a vinícola Dominio Del Prata e com o canal Wine Bar. Na verdade os blogueiros escolhidos terão a oportunidade de ser enólogos por um dia e assinar um vinho elaborado por uma das mais conceituadas vinícolas argentinas.

Veja no video abaixo dicas de Susana Balbo e mais detalhes desse concurso que promete movimentar nossos queridos blogueiros do Enoblogs!

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