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Archive for the ‘música’ Category

 

Uma noite mal dormida e uma ressaca não seriam bons presságios para uma segunda-feira de manhã. Mas eu tinha uma degustação de Brunello di Montalcino no Restaurante Cantaloup prevista e isto animaria qualquer mortal que gostasse de vinhos. Seriam dois flights de 11 vinhos cada. Rosso  e Brunello. Coisa séria. Degustação feita, explanações, colegas de alto nível, serviço impecável, opiniões divergentes, alguns amando e outros decepcionados.

Safras de 2011 dos Brunello. Um ano não tão perfeito. Bem, todos tinham um pouco de razão. Alguns exemplares deixaram a desejar. Infanticídios foram cometidos. Mas não se pode negar que também havia uma ou outra joia. O principal é notar uma mudança no perfil dos vinhos da região. Buscam ser consumidos mais cedo. Estar mais prontos. Nem sempre acertam. Alguns ficam no meio do caminho em busca de um perfil novomundista que o novo mundo anda abandonando. Mas todos trazem a coloração translúcida bem clara, aromas frutados, paladar com boa acidez e taninos cheios de personalidade. Boas expressões do clone da Sangiovese da região. A maioria dos vinhos não está no mercado brasileiro, ao menos não esta safra.

De lá fui experimentar as novidades da Vinícola Aurora, no Figueira Rubayat. E que alegria ver a constante evolução do vinho brasileiro. O lançamento mais destacado é espumante brut feito com método tradicional que passa 24 meses em contato com as leveduras. Insisto que este tipo de vinho é a vocação do Brasil. Espumante de alta qualidade com preço bem competitivo. A linha Pequenas Partilhas traz um cabernet franc e um tannat de se beber cheio de certezas no potencial do vinho brasileiro!

Mas o melhor do dia foi a noite. Para quem gosta de jazz, ou melhor, de free jazz, não poderia haver lugar mais certo para se estar do que no Jazz B, no centro de São Paulo. O quarteto do saxofonista Thiago França simplesmente inebriou, com a ajuda de uns goles de cerveja IPA artesanal, a plateia.

Formado por Thiago no sax alto, tenor e flauta, Amilcar Rodrigues no flugel e trompete, Marcelo Cabral no baixo acústico e Mariá Portugal na bateria, o quarteto fez dois sets com um intervalo de meia hora. Música fluindo do jeito que eu gosto. Todos se ouvindo e interagindo. Deu vontade de estar lá tocando junto. Esperando a deixa.

Preparem-se. Tenho de avisar ao mundo que Mariá Portugal, do Quarta B, está pegando o gosto pelo freejazz! E sai de baixo. Vejo shows de jazz há uns quarenta anos. Mariá é provavelmente a baterista mais criativa, espontânea e original que já vi. Seu sorriso contagiante, sua energia, humildade e simpatia são bônus.

A inventividade, o fluxo de ideias musicais, a precisão, o repertório, a entrega são cativantes. Um show à parte. Sei que vou me arrepender de ficar escrevendo assim, pois vai ficar cada vez mais difícil contar com a requisitadíssima Mariá para os meus projetos, mas que posso fazer? Que segunda-feira inesquecível.

 

 

 

 

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No inicio dos anos 70, os adolescentes urbanos brasileiros, em sua maioria,  escutavam música brasileira nas rádios e compravam LPs de rock de bandas internacionais que saiam com mais ou menos um ano de atraso por aqui. Quando alguém conseguia um “importado” era festa. Fila de gente para fazer cópias em K7.

Voce que tem menos de 30 nem deve fazer ideia do que seja isso. Nesta época, eu era um principiante no violão. Acordes dissonantes de bossa nova, solos de Dilermando Reis e alguns temas do rock.

O blues nos chegava indiretamente, via bandas inglesas. O jazz ainda era um mistério pra mim. Bem, continua sendo , de certa forma. Eu tinha 13 anos e concordava em passar alguns domingos ensolarados com a familia na casa de um amigo de meu pai onde hoje fica a Granja Viana, bairro suburbano chic aqui em São Paulo. Naquele tempo uma aventura campestre.

O mico de passar o dia com a família era compensado pelo churrasco, a piscina, as filhas do amigo de meu pai, mas principalmente por um tesouro que descobri na sala de estar.

O tal amigo, o simpático sr. Lauro, era funcionário do consulado americano. Uma estante de livros de fotografia e outra de LPs, tudo trazido via malote diplomático, tudo novidade, tudo descoberta me despertaram para o blues.

E o primeiro disco que me chamou a atenção foi Indianola Mississipi Seeds. A capa, uma obra-prima que ainda hoje lista entre as melhores de todos os tempos era uma guitarra feita de melancia. Um album de capa dupla, com vinil de 180 gramas, a ficha técnica completa. Um delírio. E a contra-capa era a guitarra-melancia destruída, devorada.

Indianola Mississipi Seeds - B. B. King

A ousadia que me chamou atenção no visual não foi nada perto da alegria de ter escutado aquilo pela primeira vez. Eu ainda não bebia mas me embriaguei de música.

A experiência de se ouvir música era muito diferente de hoje. Nada da ligeireza de baixar da internet e ouvir num fonezinho ou no falante do computador. Escutar uma ou duas vezes e correr para descobrir outra novidade. Não. A gente escutava os discos até “furar”, como se dizia antigamente sobre o atrito da agulha no vinil.

Um ótimo toca-disco, amplicadores e caixas de qualidade eram o sonho de todo mundo que amava música. Não existia nada que se comparasse. Nenhum I-Phone no mundo seria mais desejável.

Desde o primeiro murmúrio acompanhado de um piano de armário meio desafinado  até os inesperados arranjos de cordas,  o disco inteiro foi uma surpresa pra mim. A sonoridade não era “tosca”, pelo contrário. Era sofisticada. A gravação não era um registro antropológico como outros de blues que eu conhecia e ainda amo.

B.B. King abriu uma brecha na música popular americana ao gravar com músicos brancos e em ótimas condições técnicas. A sua “Lucille” cantava suave e sensual. O cara estava tranquilo e comunicava em vários estilos de blues. E transformava qualquer canção em blues! Se fosse comparar eu diria que B.B King era a cabernet sauvignon do blues. Potente, versátil, resistente e se dá bem em todo canto!

Bem, levei anos até comprar este LP numa edição nacional e depois comprei de novo em CD, e depois no Itunes…

Vi B.B.King ao vivo umas duas vezes. Um monstro, um entertainer, um músico genial, bandleader e um som de guitarra único. Mas até hoje a impressão da primeira audição do Indianola é indelével pra mim.

Hoje B.B. King se foi. Mas a melancia está aí para ser devorada. Se voce tiver tempo, ponha o seu melhor fone de ouvido e ouça inteiro o album, à moda antiga, parado, de olhos fechados e tente chegar perto do que foi o despertar do blues para um moleque branco, brasileiro, nos anos 70. Depois me conta.

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