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Archive for the ‘Uncategorized’ Category

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Tenho uma tese sobre a música popular brasileira. Na verdade nem é minha. Li em algum lugar no século passado, não lembro onde, e encampei. Temos três matrizes. Pixinguinha, Caymmi e Luiz Gonzaga. De Pixinguinha vem toda uma vertente de samba, choro, música instrumental refinada e pagode popular. Sem ele não haveria Zeca Pagodinho. De Caymmi saiu a linhagem de Tom Jobim, das canções sofisticadas, a bossa nova, da sabedoria zen, nagô, praieira, da concisão. Rodrigo Campos é, hoje, meu modelo caymmiano. Mas foi de Luiz Gonzaga que vieram o tropicalismo, a mistura, a conexão entre a mais profunda raiz rural com o universalismo urbano, com o wifi. Tem funk, forró, festa, ragga. Sua música tem sofisticação melódica e alta força poética, lírica e épica, sem deixar a energia esfriar. Gilberto Gil seria sua síntese continuadora. Mas nem MC Bin Laden nem Hermeto Pascoal estão fora dessa jurisdição. Luiz Gonzaga inventou um som, um estilo, soube explorar o visual, o chapéu de couro. A voz potente e de timbre rico. Um artista pop. Um catalizador. Um Bob Marley, um Chuck Berry brasileiro. E com a sabedoria de ter escolhido letristas parceiros impecáveis. Muita gente nem sabe da importância de Humberto Teixeira, Zé Dantas, entre outros.

Claro que essas três matrizes se misturam, se entrelaçam, se guerreiam. Mas isso é assunto pra papo longo. Sempre que posso volto ao mestre. Desde criança convivo com sua música. Meu pai, branco paulistano, descendente de italianos, mais até do que a família baiana de minha mãe, me transmitiu o amor por estas canções. Claro que foi algo filtrado por sua experiência de ouvinte de rádio, comprador de disco. Não sou um gonzaguiano roots, de forró pé de serra. Mas ninguém é perfeito.

Em 1999, produzimos, na ybmusic, em parceria com a Candeeiro Records, um álbum chamado Baião de Viramundo, lembrando  dez anos da morte de Luiz Gonzaga, viabilizando uma ideia de Pupilo, baterista do Nação Zumbi. Era uma visão bem pouco ortodoxa da obra de Lua. Versões cheias de beats, samples e guitarras distorcidas permeavam cada faixa. Nação Zumbi, Otto em início de carreira, bandas como Comadre Florzinha e Mestre Ambrosio, berços de Karina Buhr e Siba, respectivamente, Naná Vasconcelos, Nouvelle Cuisine renderam suas homenagens ao mestre. Esse disco correu mundo. Entrou em lista de melhores do New York Times. Infelizmente não está nos serviços de streaming legais acessíveis no Brasil por questões menores (resolvidas, espero, em breve).

Em 2012, fiz a direção musical do espetáculo Danado de Bom, no Auditório Ibirapuera, gravado e lançado pelo Canal Brasil, com cerca de 30 artistas desta cena paulistana então embrionária, incluindo Tulipa, Blubel, Kiko Dinucci, entre outros.

No final de 2017, em 13 de dezembro, Luiz Gonzaga, o Lua,  faria 105 anos. Mas cá estou de novo escutando sua obra, imerso neste universo, me preparando para um show muito especial.

Dia 14 de junho, na Casa de Francisca, estarei acompanhando Laya no show Laya Canta Lua. Laya, junto com os queridos e talentosíssimos Saulo Duarte, Alessandra Leão e Romulo Froes, acompanhada por Igor Caracas (percussão), Danilo Penteado (sanfona, piano, cavaquinho) e Guilherme Kafé (baixo e violão barítono) escolheu um repertório que inclui o relicário básico (Asa Branca, Qui Nem Giló, Parahiba, Baião, etc) assim como pérolas (como Facilita,  Roendo Unha, Sabiá, etc) e trouxe uma visão de artista que viveu esta música organicamente desde a infância, passou por outras paragens contemporâneas e guardou os sabores, cheiros e sons de sua origem. O resultado é, como nas outras vezes em que me envolvi com a música de Gonzaga, um encontro e uma busca. A síntese da origem, a experiência e o futuro. Coisa que só um mestre radical como Luiz Gonzaga pode gerar. Salve o grande Lua!

Reservas aqui.

 

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Uma das coisas mais divertidas da Expovinis tem sido o Blog Winehunters, organizado por Cesar Adames. É uma corrida para indicar um vinho preferido dentro de um limite de preço mais acessível. Nesta edição o limite era de R$70. 

Os vinhos indicados pelo grupo de blogueiros são degustados às cegas, as notas computadas e um vencedor é indicado por categoria. 

Aqui estão todos os concorrentes garimpados:


O branco vencedor foi o chileno Amaral sauvignon blanc 2016 que custa R$70 (Bruck). Um vinho fresco com aroma delicado. 


O tinto vencedor – para meu deleite foi a indicação minha- é o Torre de Estremoz 2015, um belo corte de trincadeira, alicante bouschet, touriga nacional e aragonez (R$61,50) trazido pela Adega Alentejana. Aroma rico e complexo, na boca traz personalidade e tipicidade da região. 


Destaco aqui um branco que, na prova às cegas, gostei muito. Este douro aromático e rico em sabores. Indico com tranquilidade. 

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Quando conheci Lulina, uma menina pernambucana genial (apresentada por Rodrigo Leão, na então W/Brazil) que já havia gravado uma dezena de cds caseiros absurdamente lindos, com capas maravilhosas e tiragens de 13 exemplares ( sim, eu tenho todos ! e vou ficar rico um dia quando vendê-los) descobri que “no pacote” vinha uma turma. Gente brilhante como Missionário José, baixista, produtor e arranjador, doutor em música eletrônica ( se não era, virou) e um rapaz meio tímido, de óculos e olhos arregalados, tecladista “mais ou menos” que parecia ser um bom fotógrafo.

A intimidade e a cumplicidade entre Lulina e o rapaz permitiam que ela o chamasse de Monstro. Sim. Leo Monstro.  Mas de monstro não havia muito. Sensível e de humor extremamente sofisticado, Leo tocou nos dois cds que Lulina lançou pela ybmusic. Tenho que deixar claro que Lulina é uma musa, um amor de pessoa, que vive no mundo sem estar no mundo. Ela flana. Sorri e toma uns drinks comigo de vez em quando. Um turbilhão de ideias geniais por minuto. É um dos gênios anônimos do Brasil. Um Santos Dumont das ideias. Engana-se quem pensa que ela é uma mera artista indie brazuca. Mas voltemos ao Leo.

Outro dia, neste 2016 louco em que (sobre)vivemos, encontrei Leo, que me contou que estava com um disco pronto. Tarado que sou por sons novos e inteligentes, pedi para ouvir. E com o perdão da  palavra… VTNC…

Que disco. Monstro! Que maturidade. Um disco que passeia do pop indie à música nordestina, saboreando sem culpa o melhor dos anos 60 e do eletrônico dos 2000. Sem pudor de colocar viola caipira com sintetizador, como nos velhos malucos discos brasileiros hippies dos anos 70. A voz suave e precisa. E as letras? Sabedoria milenar e contemporaneidade.  Leo honra seu avô, parceiro de Luiz Gonzaga em alguns clássicos.

Ele tinha pressa em lançar. Alguma efeméride familiar o empurrava. Mas a sábia Lulina o aconselhou a me ouvir e eu fui definitivo. “Este disco tem que sair em 2017”. Para minha surpresa ele concordou. Aqui a gente pode escutar um aperitivo bem de leve. Um single. Vocês terão que esperar. O disco é uma delícia. Arranjos de metais econômicos, batidas minimalistas e criativas ( paradoxo…), teclados simples e diretos emolduram canções dignas de figurar no panteão (que palavra feia!) da música brasileira.

Leo, saiba que você é monstro.

 

 

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toshiro

Numa safra de talentosos compositores da nova música popular, que inclui gente de todos os cantos do país, gostaria de chamar a atenção para Rodrigo Campos.

Ainda sob o impacto do show de lançamento do álbum “Conversas com Toshiro”, na última sexta-feira, dia 26/03/2015, quando a banda de sete pessoas foi acompanhada por um quarteto de sopros e quarteto de cordas, com direito a maestro, me pego a tentar mostrar para as pessoas meu espanto com tamanho talento e integridade.

Não é de hoje que Rodrigo encanta quem conhece sua pessoa e sua obra. Seu canto sussurrado, joãogilbertiano, não é mais do que a extensão de seu modo sempre calmo de falar. Seja na guitarra, no violão ou no cavaquinho, seu estilo pessoal se sobressai. Mas é nas composições que o cara se supera.

Desde seu primeiro trabalho “São Mateus Não É um Lugar Tão Longe Assim” já se desenhava o minimalismo de sua poética. Como no delicioso samba “Fim da Cidade”:

Jogo de bilhar na quarta
Quinta futebol
Sexta vai sambar não falta
Fim de semana igual

Mas na segunda-feira às três da manhã
Tá no ponto esperando a primeira viagem
Faz final na saída do metrô Carrão
E começa de noite no fim da cidade

Sua aproximação conceitual se afunilou no segundo trabalho, “Bahia Fantástica” (2012), de onde destaco a concisão de “Cinco Doces”, uma redução de oito para cinco versos (doces?), ainda que com repetições:

Daqui pra lá não vá dizer
Que a Bahia não lhe achou
Que a Bahia não lhe achou
Que a Bahia não lhe achou

Fiz cinco doces pra lhe ver
E alguém um dia lhe falou
Tenho Bahia pra você
Tenho Bahia pra você

Lido assim, nem se imagina a beleza que a construção melódico-harmônico-timbrística acrescenta. Mas destas poucas linhas Rodrigo extrai toda uma arquitetura da canção com a maestria de um Caymmi (que me perdoem os puristas…). Nem só do lirismo, contudo, vive sua obra. Quando lida com personagens como menores traficantes e meninas-prostitutas-exploradas, há muita violência e uma boa dose de sexo explícito. Tudo usado com a elegância de um poeta surrealista que lembra um pouco o estilo desapegado de um Randy Newman. Letras curtas que trazem um elemento quase zen de respeito ao ouvinte, ao deixar espaço para a imaginação, como nos seis versos de “Princesa do Mar”:

Andreza chegou na praia hoje
Comeu feijão com arroz e bife à milanesa
Maluca, nem esperou um tanto
Entrou na maré bruta, virá na maré mansa

Princesa do mar, pequena Iemanjá
Princesa do mar, sereia

ouça aqui o álbum “Conversas Com Toshiro” completo.

Nada surpreende que esta técnica de usar imagens prosaicas mas situadoras (ambientadoras) à moda dos hai kai resultasse numa exploração do universo japonês. “Conversas com Toshiro” é mais um disco-conceito apoiado desta vez em sua visão do cinema oriental. Uma visão poética e pessoal, novamente. Como num golpe de Kendô, cada canção nos atinge de modo tão direto que é difícil saber de onde veio o golpe, já que nem vimos o movimento da espada do velho samurai. Como em “Toshiro Reverso”.

Uma nebulosa engoliu Toshiro ontem
Expeliu de volta um planeta esquisito
De fato bonito

Pura coincidência, numa esquina de São Paulo
Foi alçado com violência
À origem do universo
Toshiro reverso

Não dói não
Toshiro reverso
Não dói não
Toshiro uma estrela

Rodrigo se firma neste cenário da música independente brasileira como um artista com seu estilo cada vez mais definido. Original, ousado e estimulante. Salve Rodrigo Campos!

Para ser muito transparente, devo dizer que Rodrigo é um artista habitué na ybmusic, onde gravou e lançou seus dois mais recentes trabalhos.

 

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Provei cinco vinhos da Borgonha apresentados por Christophe Thomas, export manager da Joseph Douhin e com eles inauguro meu compromisso de postar, aqui no blog, as notas de degustação, incluindo pontuações e preço, mesmo quando não tenha tempo de escrever mais demoradamentre sobre assunto. Usarei esta codificação:

O= olho, aspecto visual

N= nariz, apreciação olfativa.

B= boca, impressão no palato.

obs.

escala de 100/100 pontos

1. Chablis Reserve de Vaudon 2012

O.palha clara.

N.fruta branca.

B.mineral, acidez delicada, macio, toque de fruta cítrica.

obs. delicioso. 100% biodinâmico desde 1999, sem madeira. ouve música ( ou sons, como diz Christophe).

91/100 pontos

U$75,50 ( vale muito)

2. Meursault 2009

O.amarelo com reflexo dourado.

N.potente, leve tostado, complexo e cheio de personalidade.

B.boa tipicidade, bom corpo, acidez ótima, salino, presistente e ainda bem fresco para a idade.

obs. bom ano,. 20% de madeira nova.

90/100 pontos

U$154,50

3. Gevrey-Chambertin 2010

O.centri médio rubi e borda atijolada.

N.cerejas negras e especiarias.

B.tanino macio, acidez excelente, vivo, frutado, elegante , sedoso e longo.

obs, um villages típico com a madeira muito bem usada.

90/100 pontos

U$155

4. Vosne-Romanée 2009

O.centro médio rubi e borda laranja

N.pimenta, e fruta vermelha.

B. elegante, tanino macio, ótimo corpo, acidez viva e boa persistência

92/100 pontos

U$199,90

5. Beaune Clos des Mouches Rouge 2008

O. rubi translúcido

N. animal, cogumelos, fruta, sous-bois.

B. potente, taninos firmes, acidez viva,alcool presente, ótimo corpo e persistência.

obs. vinho ícone de Drouhin. um 1er cru. Drouhin detém 80 % do Clos.

92/100 pontos.

U$229,50

Resumo: Viva a Borgonha. Seus terroir e sua variedade. Chardonnay e pinot noir apresentando tanta riqueza, complexidade! Que ela sobreviva ao ataque hostil de grandes corporações.

Christophe Thomas, export manager de Joseph Drouhin.

Christophe Thomas, export manager de Joseph Drouhin.

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Ela, pele branca, tatuagem bonita, sapato baixinho de design, camiseta com estampa I love LA, cabelo curto e com sotaque mineiro belo horizontino classe média alta. Ele, magro, hirsuto sem ser lumber jack, óculos de aro grosso, camisa xadrez, bermudas, quase um hipster. Sentados na espera da sessão de cinema em plena temporada pré-oscar. No papo, unilateral, a moça explica que não come pão de queijo em São Paulo. Aqui é muita farinha e pouco queijo. Concordo. Mas logo o assunto muda para a revista Piauí. “Uma revista da Abril, que não é feita por jornalistas, sabe? São autores. Autores que escrevem. E não tem notícias, tem assuntos. Tipo bastidores.” Achei curioso.

 

Neste momento, num pequeno silêncio desconcertado, ela relê: “bastidores… O que será esta palavra?” Confesso não ter entendido a dúvida. Pensei em etimologia, filosofia. Algo realmente profundo. Uma dúvida real. Afinal a palavra é realmente diferente. Viria do latim? Do grego? Ou do francês? Mas a dúvida durou pouco. E não foi o rapaz a lhe dar a resposta. Ele se contentou com a mudez e uma certa expressão vazia de quem é menos inteligente do que tenta aparentar. A solução veio pronta do smartphone, via google. “Backstage! Ah!…”

 

Entre atônito e perplexo (onde li esta expressão?) percebi que aquelas pessoas bem alimentadas e leitoras da Piauí simplesmente não conheciam a palavra “bastidor” e precisavam do auxílio de uma palavrinha inglesa provavelmente mais comum no mundo deles de festas, shows, baladas.

 

Provavelmente são pessoas que também não saibam a diferença entre municipal, estadual e federal. Ou ainda executivo, judiciário e legislativo. Desanimado resolvi pedir uma cerveja. Mas só tinha da ambev. Fui de água. Coisa fina.

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Masterclass é um termo algo desgastado entre aqueles que acompanham os movimentos do vinho no Brasil. Toda semana, parece que há uma nova dessas sessões sobre um assunto qualquer. Nem sempre foi assim. Lembro-me de umas das primeiras a que assisti e que, sim, fizeram a diferença sobre como aprecio e entendo os vinhos. Foi a primeira vez em que Pedro Parra, o geólogo chileno especialista em terroir, apresentou-se por estas bandas. Ele abriu meus horizontes no quesito importância do solo para o vinho. Vieram outras masterclasses. Algumas bem interessantes, outras mais ou menos.
Recentemente, contudo, o termo adquiriu um novo vigor. A Wines Of Argentina proporcionou mais que uma degustação, um verdadeiro aprofundamento no pensamento atual da enologia do novo mundo. Ouvir Alejandro Vigil falar de suas descobertas, Daniel Pi descrever vinhos premiados e Sebastian Zuccardi mostrar seu entusiasmo com o futuro dos vinhos argentinos foi uma oportunidade rica e prazerosa.
É ótimo saber que o gradiente de temperatura de Gaultallary é semelhante ao da Borgonha, puxando mais para o frio. Que Agrello lembra mais Bordeaux e Napa em seu clima temperado. E que Lulunta emula a Côte du Rhône, mais quente.
Alejandro Vigil comentou sobre as 2 mil microvinificações-teste em andamento na Catena e explorou as possibilidades de chardonnay e cabernet franc. Deixou claro que a Argentina ainda tem muito tempo de malbec pela frente, mas não deve se ater somente a esta cepa. O momento é de descobrir mais a geografia e outros fatores. Dado positivo, outros winemakers pensam igual. Há muito o que fazer.
Nesta busca, elegeram a altitude, entusiasmados com o gradiente de temperatura, mas descobriram que a insolação UV é um fator mais importante. A combinação de temperatura X solo X altitude X rendimento cria possibilidades ótimas para a chardonnay, por exemplo.
Para provar suas teses, Vigil mostrou três brancos de três alturas distintas que usam a mesma vinificação e a mesma madeira. Mudam apenas as datas de colheita, em busca de um grau alcoólico máximo de 13,5%. Ainda não engarrafados, foram trazidos especialmente para a ocasião. O primeiro, de solo calcáreo cultivado a 1.450m, é mineral, seco, fresco e com cara de limonada. Tem um leve floral. O segundo, de solo pedregoso a 1.100m, sofre stress hídrico e é mais gordo. O terceiro vem de solo argiloso profundo, a 800m. Tem mais tostado, é mais amargo e pesado, com aroma frutado.
Completou a demonstração com quatro cabernet franc 2010 que trouxe de gualtallary (1500m) de solos diferentes, mas muito próximos (60m de distância). Todos foram vinificados em barris novos e colocados seis meses em fudres velhos.

A diversidade do terreno se mostrou assim:
Vinho 1. De solo argiloso profundo e boa umidade. Tem aroma de fruta, pimenta (piracina), na boca taninos  firmes, acidez clara e agradável.
O segundo, de terreno com pedras aluvionais e calcáreo, tem nariz mineral e na boca muita fruta, taninos macios e acidez ok.
O terceiro, de solo pouco profundo, com apenas  25 cm (uma capa de pedra impede a raiz de passar), apresenta nariz de chocolate, floral, rico, parece ter mais madeira e lembra algo do loire. A boca traz  tanino doce, acidez ok.
O quarto, de solo calcáreo, exibia café no aroma. Na boca é sápido e de boa acidez, com corpo médio.Foi uma aula de diversidade. Vinhos tão diferentes, feitos com a mesma uva, da mesma maneira e de vinhedos tão próximos, comportam-se diferentemente e com altíssimo nível.

Sebastian Zuccardi, por sua vez, tratou com autoridade do tema da latitude. Ele defende que os argentinos são vinhos de montanha, pois clima, solo e água dependem da cordilheira. Mendoza é um deserto em altura. Pouca água e muita luz. Dos terroirs de Mendoza, só 3% são cultiváveis, pois falta água. Sebastian trouxe bonardas e malbecs de várias regiões para demonstrar as diferenças de latitude. Esses vinhos não vão para o mercado da forma como os provamos. São usados em cortes da Zuccardi. Portanto, uma oportunidade única de comparar as regiões de Mendoza.
Partindo de vinificações iguais, em tanques de cimento sem revestimento de epoxi (safra 2013), usando  boa parte das uvas com razimos inteiros pra trazer taninos, Sebastian empregou apenas barrica de terceiro e quarto usos. Seu desafio, sabiamente, é diminuir dulçor.  Aqui, bem resumidamente, descrevo as diferenças.
Bonardas
Santa Rosa.  650m, solo mais profundo, sem pedras, 13,5% de álcool. No nariz mais fruta, na boca sobressai o álcool e o tanino é potente.
Altamira. 1.100m, solos aluvionais, muitas pedras com carbonato de cálcio, 13% de álcool. Nariz tem tostado e na boca, bom corpo e fruta potente
San Jose. 1.400m, solo aluvional, pedras menores, sem carbonato, 12,5% de álcool. Nariz elegante e palato com boa acidez, fruta e leveza
Malbec
La Consulta 2013. 900m. Cor intensa, nariz elegante, complexo, floral, mineral, frutas negras. Macio na boca, taninos doces, acidez ótima, corpo médio, persistente, muito potencial.
Vista Flores 2013. 1.100m. De terreno pedregoso. Cor intensa. Aroma floral, de fruta negra, mineral, especiaria, rosa e no palato é macio, com tanino doce, ótima acidez, equilibrado e longo.
Altamira 2013. Sul do vale de Uco, num terreno com muito carbonato. Nariz potente e rico, tanino macio, doce e bom corpo.
Gualtallary 2013. Norte de Uco, região também com muito carbonato. Sebastian exibiu fotos onde se vê que a raiz da videira abraça  a pedra de uma forma interessante. Aromas de tomate, taninos doces, acidez limpa e agradável, clara, corpo leve, fresco e mais curto que os outros.
Em um próximo post, comento a degustação dos vinhos do Argentina Premium Tasting.

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