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Archive for the ‘vinho brasileiro’ Category

Espumante Salton Paradoxo, um charmat da Campanha Gaúcha.

Espumante Salton Paradoxo, um charmat da Campanha Gaúcha.

A Vinícola Salton completa 105 anos. Não muitos se comparados aos de alguns produtores do velho mundo, mas uma marca e tanto quando se pensa em uma história brasileira de adversidades. Junto com Miolo, Valduga e Aurora, a Salton representa a herança dos primeiros colonos italianos a se estabelecerem na Serra Gaúcha.

Seu início com o “conhaque” Presidente e depois com a popular linha Chalise foi turbinado pela força do rádio. Presidente patrocinou o futebol da Bandeirantes por anos a fio. E os engraçadíssimos jingles de Chalise devem ter conquistado fãs pelo Brasil todo.

A produção de vinhos iniciou-se ainda nos anos 1930. E desde os anos 1990 a empresa familiar vem guinando incansavelmente e com sucesso para a seara dos vinhos finos. A participação do conhaque Presidente ainda rende, pasmem, 30% do faturamento. O Chalise recolhe-se para seus 10%. Mas a linha de espumantes, aposta que começou mais seriamente nos anos 2000, já chega a 35%.

Hoje a empresa é comandada por uma nova geração que inclui as irmãs Luciana, Estela e Julia. A busca de inovação, respeitando os valores do passado familiar, é evidente em todos os produtos da Salton.

Seus vinhos de mais alta gama, da série Gerações, são homenagens a antepassados queridos, historicamente envolvidos com o crescimento da empresa.

O Salton Gerações Antonio “Nini” Salton (R$ 120) é um corte de cabernet sauvignon, merlot, cabernet franc e malbec repleto de especiarias, frutas vermelhas, chocolate, tabaco, mentol e um leve tostado. Passa 12 meses em barricas francesas novas e tem persistência e elegância dignos de homenagear o primeiro enólogo da casa. Foram produzida apenas 13.000 unidades.

O Salton Lucia Canei Espumante Rosé  Brut (R$ 130) feito de pinot noir é o tributo à “nonna”. São 5.000 garrafas de um espumante produzido pelo método tradicional com ótima acidez, um toque de frutas cítricas, outro tanto de frutas vermelhas, miolo de pão, tostados. Boa perlage e bom corpo.

A grande novidade da Salton vem, porém, da região da Campanha Gaúcha, fronteira com o Uruguai. Sua linha Paradoxo tem uma proposta ousada. Será encontrada apenas em restaurantes pelo preço sugerido de R$ 60, o que fará dela uma excelente opção nestes tempos bicudos.

Destaco seu Gewürztraminer 2014, um vinho macio, cremoso, especiado e com acidez delicada. Cor amarelo-palha e notas florais, muita lichia. Um vinho sem passagem por barricas e muito fácil de beber.

O Salton Paradoxo Pinot Noir 2014 também surpreende pela leveza, boa acidez. O sabor frutado (framboesa, morango, amoras) lembra vagamente a uva gamay, usado em Beaujolais. Um vinho versátil que pode ser bebido de maneira descompromissada ou acompanhar alguma refeição leve. Uma relação de preço e qualidade rara num pinot noir.

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Chega a primavera, o calor é maior do que se esperava. Não tem escapatória. É tempo de espumantes! Na última sexta-feira, dia 25, a SBAV (Sociedade Brasileira de Amigos do Vinho) promoveu o Festival Espumante 2015 em São Paulo.

Organizado anualmente pela associação, o evento tem como objetivo promover o espumante brasileiro e descobrir as novidades deste tipo de vinho, o que mais se destaca pela qualidade na produção brasileira. O evento teve início com uma mesa de jurados que provaram às cegas e escolheram os seus preferidos.

Cabe ressaltar que, apesar da representatividade da feira, não se pode dizer que tenha abarcado toda a produção nacional. Estiveram de fora ótimos produtores como Casa Valduga e Don Giovanni, por exemplo. Mas a competição foi acirrada, com bodegas como a premiada Cave Geisse e a Pizzatto trazendo suas novidades e gigantes como a Salton apresentando também bons rótulos.

A boa notícia é que tanto o vencedor como o segundo lugar são espumantes com preço muito competitivo: palatáveis R$ 40.

o vencedor.

o vencedor.

O vitorioso foi Adolfo Lona Rosé, um ótimo rótulo produzido pelo método charmat, conhecido dos aficionados. Lona já venceu outras edições deste festival.

o honroso segundo lugar.

o honroso segundo lugar.

E o segundo colocado, Aurora Pinto Bandeira Extra Brut Método Tradicional, surpreendeu alguns incautos, mas não a mim. Esta primeira incursão na produção pelo método tradicional (o mesmo que se usa em Champagne, com a segunda fermentação junto às leveduras na própria garrafa) apenas confirma a qualidade da matéria-prima conhecida nos seus espumantes charmat (segundo este método, a fermentação acontece em cubas de aço).

Num honroso terceiro lugar, veio um vinho da região que mais cresce e promete no Brasil, a Campanha Gaúcha: Poesia do Pampa Brut Guatambu. Um espumante na faixa dos R$ 80.

o diferentão.

o diferentão.

Meu destaque vai para o Valmarino & Churchill, um espumante complexo com um toque de madeira, por R$ 80. Com certa potência e bom corpo, foge do padrão de frescor do espumante nacional. Vale provar pela diversidade.

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Sou um ferrenho defensor das degustações às cegas. É o melhor antídoto para o preconceito e a melhor forma de um degustador manter a humildade..

O resultado do Top 5 da edição carioca do Encontro de Vinhos, evento itinerante organizado pelos blogueiro Beto Duarte e Daniel Perches, foi mais uma prova desta tese.

Numa amostra de 54 rótulos que estarão presentes no evento, o vinho mais votado foi o surpreendente Leopoldo 2007, um brasileiro de Santa Catarina, abaixo de R$50, batendo argentinos, portugueses, eslovenos, italianos, franceses, etc.

Ainda em terceiro lugar ficou o Guatambu Rastros do Pampa Cabernet Sauvignon 2013, da região da Campanha Gaúcha. O ranking foi completado com o 2º Lugar, Pera Grave 2007 do  Alentejo, 4º Lugar, Norton Reserva Malbec 2011 e 5º Lugar, Norton Privado 2011.

Vinhos do Top 5.

Vinhos do Top 5.

Há ainda um grande preconceito contra o vinho brasileiro e resultados como este servem para abalar algumas certezas do mundo do vinho. Não é a primeira vez que vejo vinho nacional bater ícones do novo e do velho mundo. Mas um vinho nesta faixa de preço é uma agradável surpresa.

Quem estiver pelo Rio poderá prová-lo e mais 300 rótulos de 40 expositores.

Serviço:

Encontro de Vinhos 2015| Rio de Janeiro
Data: 05/03 (quinta-feira)
Local: Clube Fluminense – http://www.fluminense.com.br

Rua Álvaro Chaves, 41

Horário: das 14h as 22h

Ingressos: R$ 80,00 na porta, R$70 para compra antecipada.
Condições especiais: Meia entrada para estudantes e terceira idade
Associados do clube pagam meia que será revertido em compras.

Convênio com o 99Taxis que dá um desconto de R$15

Site do evento: www.encontrodevinhos.com.br

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Há cinco meses à frente da loja de vinhos Epicerie, uma jovem empresa de vendas on line com um posicionamento de descontos agressivos, promoções relâmpago e baixo mark up, Ari Gorestein, Co-CEO e Co-Founder da empresa, se posiciona contra a arbitrária decisão do Governo de quase dobrar os impostos sobre a comercialização do vinho.

Assim como outros jovens empreendedores do mundo do vinho no Brasil, Ari trabalha com a ideia de tornar a bebida acessível a uma maior parte da população. Basta lembrar da imutável cifra de 2 litros per capta/ano para imaginar o potencial deste mercado.  Porém, assim como todos nós, foi recentemente surpreendido pela notícia do aumento do IVA-ST, que levará a taxação do vinho para quase o de 14,23% para 27,40% na venda para pessoa jurídica em São Paulo. Isso, além de onerar comerciantes e prejudicar consumidores, praticamente acaba com as chances de empresas como sua Epicerie de tornar o vinho uma bebida mais democrática. Já é bem conhecida a sanha tributária e burocrática de nossos governos. No caso do vinho, tais tributos nos obrigam a pagar preços entre os mais caros do mundo. Seja para produto importado ou nacional.

Ari pede a união do setor contra tal medida. Tal união, pregada insistentemente por colegas como Didu Russo no seu grupo de trabalho junto à Fecomercio, é ainda tão distante da realidade que me reservo o direito de dar esta pequena contribuição aqui. Não é do feitio deste blog publicar releases,  cartas ou opiniões de produtores, importadores ou quem seja. Mas o escândalo é tal que passo a palavra a Ari. Abaixo a carta na íntegra.

 Carta aberta contra o aumento do IVA-ST

Caros amigos consumidores e amantes de vinho,

Há pouco mais de um mês, em 29 de junho de 2013, a publicação da Portaria CAT 63 estabeleceu um aumento no Índice de Valor Adicionado Setorial (IVA-ST) que rege o cálculo da Substituição Tributária do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS-ST) incidente sobre bebidas alcoólicas, com exceção de cerveja e chope.

Basicamente, o mecanismo de arrecadação do ICMS-ST antecipa para o primeiro elo da cadeia de distribuição os impostos que incidiriam sobre todos os intermediários que comercializam um item desde sua origem até o consumidor final. Para antecipar o recolhimento do ICMS, o Estado define qual o mark-up (taxa de marcação de preço) médio aplicado pelos comerciantes de um determinado setor.

No caso específico dos vinhos importados, atualmente em São Paulo o IVA-ST da categoria é de 56,91%. Tal coeficiente implica no recolhimento de 14,23% sobre o valor da Nota Fiscal quando uma empresa vende à outra com propósito de revenda (ambas dentro do estado). A portaria CAT 63 estabelece que, a partir de 1º de Setembro, o IVA-ST passará a 109,63%. Este aumento substancial significa que, nas operações de venda entre empresas, o recolhimento passará a 27,40% (quase o dobro do atual).

Ainda não há clareza quanto às drásticas proporções do incremento sobre o imposto, já que as entidades de defesa do setor (notadamente a ABBA) apresentaram à Secretaria da Fazenda estudos de preço de instituto de pesquisa idôneo (FIPE) na tentativa de reverter o quadro.

A lógica que sustenta a sistemática de cálculo do ICMS-ST pressupõe que os mark-ups aplicados pelos diferentes comerciantes em um setor sejam semelhantes. Ora, no caso do vinho, bem se sabe que os preços e margens aplicados nos diversos estabelecimentos variam enormemente. A utilização de um mark-up médio onera aqueles que aplicam margens módicas – que beneficiam o acesso do consumidor ao produto – e favorece aqueles que abusam do bolso de seus clientes.

Face ao possível aumento do IVA-ST, vemo-nos na obrigação de nos manifestar contra a medida. A Epicerie está presente no mercado há cerca de cinco meses e tem como propósito maior democratizar o consumo de vinhos e difundir a cultura desta bebida social e historicamente tão rica ao público brasileiro. Para tanto, desde seu lançamento, a empresa tem concedido aos seus clientes descontos agressivos. Ironicamente, abrindo mão de rentabilidade na venda, vê-se impactada pela mesma alíquota de ICMS-ST de seus concorrentes. Pressupor que o mark-up aplicado pela Epicerie seja de 109,63% – quando de fato é muitíssimo inferior – penaliza gravemente nosso cliente ávido por vinhos acessíveis.

Na esperança de que o setor e os consumidores se mobilizem contra tal aumento draconiano,

Ari Gorenstein

Co-CEO e Co-Founder da Epicerie (www.epicerie.com.br)

E depois não querem que o povo se revolte…

Com a palavra Rage Against The Machine:

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2011 se acaba e, em meio às listas de melhores filmes, cds e livros, me sinto compelido a rememorar os melhores goles do ano. Não foram poucos. Grandes vinhos e cervejas. Alguns bons coquetéis. Muitas degustações de alto nível. O vinho é o setor mais ativo. Produtores portugueses, argentinos, chilenos e italianos, num esforço organizado, tentam ganhar terreno no aquecido mercado do Brasil. Gregos, espanhóis e franceses também marcam presença.

Algumas iniciativas merecem destaque, como o início das atividades da The Special Wineries, importadora especializada em vinhos austríacos. Preenchem uma lacuna antiga para o consumidor brasileiro. Mas ao fazer um balanço do ano etílico, sem dúvida, o meu destaque vai para o vinho brasileiro. Em primeiro lugar, do ponto de vista pessoal, porque tive a oportunidade de conhecer várias casas produtoras e seus apaixonados e simpáticos proprietários. Participei de algumas degustações históricas promovidas pelo Ibravin na Serra Gaúcha.

Em segundo lugar, por acompanhar de camarote as atividades do projeto Wines of Brasil, realizado pelo Ibravin (Instituto Brasileiro do Vinho) e pela Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex-Brasil), que atravessou o mundo participando de vários dos mais importantes eventos enológicos da atualidade. Os resultados são expressivos, tanto do ponto de vista de negócios como de crítica.

Andreia Gentilini Milan, gerente do Wines of Brasil, destaca que o valor médio exportado pelas empresas integrantes do projeto cresceu 114% de janeiro a junho deste ano, em comparação com igual período de 2010. “Isso significa que estamos exportando produtos de maior valor agregado para o exterior”.

Marcando presença em 8 países definidos como mercados prioritários, a saber Alemanha, Canadá, Estados Unidos, Hong Kong, Países Baixos, Polônia, Reino Unido e Suécia, o Brasil conquistou, entre outras coisas, a sua primeira medalha de ouro no International Wine Challenge 2011, um dos concursos independentes de vinhos mais prestigiados e influentes do mundo. Os resultados do Desafio do Wine Challenge foram anunciados na abertura da London International Wine Fair (LIWF), em Londres, Inglaterra, consagrando o espumante Grand Legado Brut Champenoise, da vinícola Wine Park, como o primeiro rótulo verde-amarelo a receber ouro no concurso, disputado por mais de 12 mil amostras de 48 países. Aurora (4 medalhas), Basso (3), Salton (3), Wine Park (2), Geisse (2), Pizzato (2), Serra Gaúcha (2), Domno (2), Góes e Venturini (1), Miolo (1), Lidio Carraro (1), Don Giovani (1) e Santo Emílio (1) foram outras vinícolas com produtos premiados.

Oz Clarke e Charles Metcalfe, renomados críticos internacionais, elogiaram os espumantes nacionais, que, entre outros louros, ganharam 3 medalhas de ouro no concurso francês Vinalies Internationales 2011 (pelo Aurora Espumante Moscatel Rosé, da Vinícola Aurora, pelo Garibaldi Espumante Moscatel, da Vinícola Garibaldi, e pelo Ponto Nero Espumante Brut, da Domno do Brasil).

O espumante brasileiro, porém, obteve talvez seu maior destaque na Wine Future 2011, que aconteceu de 6 a 8 de novembro, em Hong Kong. Pela primeira vez, um rótulo do Brasil foi apresentado na degustação conduzida por Jancis Robinson, uma das mais prestigiadas críticas de vinho do planeta. Ela incluiu o Cave Geisse Brut 1998, que tive a sorte de provar na degustação histórica citada acima, no seu painél “Além de Bordeaux”, quando apresentou a mil ouvintes rótulos de 15 países que merecem mais atenção. “Os vinhos selecionados são de alta qualidade, vindos de alguns tradicionais produtores e também de mercados emergentes como Brasil, Turquia e China”, disse ela.

* Nota de degustação de Jancis Robinson sobre o espumante Cave Geisse Brut 1998
Magnum, recentemente chegado do Brasil. Que revelação! De um dourado profundo. Bela evolução olfativa (brioche embebido no café com leite), porém sem exagero. Perlage com borbulhas muito delicadas. Profundo, delicioso paladar com notas bastante evoluídas de vegetação, cobre e de fortunela. Muito persistente. Um dos mais impressionantes espumantes que me chegaram em muito tempo! Nota: 18,5/20 (Jancis Robinson).

Para coroar o seu excelente ano internacional, vinhos brasileiros são indicados e pontuados pela primeira vez na revista Wine Enthusiast, na edição de dezembro da publicação norte-americana.

A revista Wine Enthusiast, uma das mais conceituadas publicações sobre vinhos dos Estados Unidos e do mundo, indicou oito vinhos brasileiros na sua última edição, de 15 de dezembro. Foram citados os vinhos Miolo Sesmarias safra 2008, Quinta do Seival Castas Portuguesas safra 2004, Miolo Terroir safra 2005, Lidio Carraro Quorum safra 2006, Pizzato Concentus safra 2005, Pizzato DNA 99 safra 2005, Miolo Merlot safra 2005 – indicado como “Best Buy” (melhor compra), e Miolo Lote 43 safra 2004.

Antes disso, Adam Strum, fundador, presidente e editor da Wine Enthusiast, escreveu sobre os vinhos brasileiros em sua coluna de novembro do ano passado. “O Brasil pode ser o próximo país emergente da América do Sul a causar um impacto nos EUA e mercados globais, seguindo os passos dos seus vizinhos mais consagrados, a Argentina e o Chile. A Cave Geisse, situada no sul de Bento Gonçalves, tem seus vinhedos em altitudes muito elevadas, onde as colinas são uma reminiscência da Toscana, mas com muito mais frio. Tanto o Brut como o Natural e o Rosé da Cave Geisse atingiriam a casa dos 90 no cartão de pontuação de qualquer crítico.”

Não se descuidando do mercado interno, pelo Circuito Brasileiro de Degustação, o Ibravin atraiu 1.700 pessoas nas três etapas realizadas em Porto Alegre, São Paulo e Rio de Janeiro. Tive a honra de, junto com respeitados colegas, participar de uma mesa para degustação comentada de cinco magníficos espumantes brasileiros. Fomos:

Suzana Barelli – Miolo Millésime Brut D.O. 2009
José Luiz Pagliari – Ponto Nero Extra Brut Gran Reserva
Sergio Inglez de Sousa – Don Laurindo Brut Malvasia de Cândia safra 2010
Maurício Tagliari – Lidio Carraro Dádivas Brut
Daniel Perches – Valmarino Churchill Brut
Outras duas degustações que gostaria de destacar foram tops brasileiros até R$ 200 e Copa América, organizadas por iniciativa de Gustavo Kauffman, do blog Enoleigos. Em ambas os brasileiros surpreenderam experientes degustadores. Vale conferir os links.

As boas notícias também vieram das esferas políticas. A aprovação por unanimidade pelos deputados estaduais do Rio Grande do Sul, de projeto de lei enviado pelo governador Tarso Genro, que aumenta o repasse de recursos ao Ibravin de 25% para 50% do Fundovitis, é certeza de mais trabalho e mais resultados positivos pela frente.

Infelizmente, nem tudo sempre dá certo. A triste notícia para nós, novos e velhos embaixadores do vinho brasileiro, veio da meteorologia. Uma forte chuva de granizo que durou somente 10 minutos, em meados de dezembro, foi o suficiente para danificar vinhedos em toda a Serra Gaúcha. “Os cálculos iniciais apontam uma perda de 15 milhões de quilos de uva somente em Flores da Cunha”, informa Olir Schiavenin, presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Flores da Cunha e Nova Pádua. Segundo o diretor-executivo do Ibravin (Instituto Brasileiro do Vinho), Carlos Raimundo Paviani, muitos viticultores tiveram perda total. “O pior é que muitos parreirais terão de ser replantados, o que afetará a produção não só deste ano mas dos próximos”, alertou.

É uma pena. Esperemos que o golpe não seja muito profundo. Precisamos estar preparados para oferecer cada vez mais os deliciosos produtos brasileiros não só para o consumidor nacional, que já adotou nossa espumante, como para a invasão de turistas esperada em eventos como a Copa do Mundo e as Olimpíadas.

*originalmente publicado no terra magazine SÁBADO, 31 DE DEZEMBRO DE 2011, 07H57

Mauricio Tagliari
De São Paulo

Este Brasil lindo e trigueiro pode fazer vinhos fantâsticos. Torço pelo vinho brasileiro. Sou contra aumento de impostos. Brasil! Brasil! Essas fontes murmurantes onde eu mato minha sede e onde a lua vem brincar:

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Organizada por Gustavo Kauffman do blog Enoleigos. Em breve os resultados.

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preciosidade.

Está ficando difícil acompanhar o ritmo do vinho brasileiro. Seja por iniciativas privadas, eventos promovidos por blogs, premiações internacionais ou pelas atividades do Ibravin, uma coluna semanal não é mais suficiente. Por conta disso, deixei passar sem comentários um evento relevante acontecido no dia 23 de setembro, na Dal pizzol, em Bento Gonçalves. Já havia participado, durante a mais recente Expovinis, de uma degustação de vinhos brasileiros de safras antigas, dirigida por José Luiz Pagliari.

Mas em setembro, para um grupo menor, e com a presença dos produtores, pudemos apreciar e constatar a longevidade de certos vinhos da Serra Gaúcha. Quase todos, infelizmente, fora do mercado. Os produtores selecionados foram Dal Pizzol, Dom Laurindo, Pizzato, Maximo Boschi e Cave Geisse. Cada um pôde apresentar dois rótulos. O vinho mais novo era de 2000. Mas havia representantes de 1991, ou seja, mais de vinte anos. Algo impensável em termos de vinho brasileiro até há pouco tempo. Só me resta transcrever minhas notas, sem muita firula, por ordem de degustação, e afirmar: caro leitor e amabilíssima leitora, dá, sim, para guardar vinho tupiniquim!

Abrimos os trabalhos com Dal Pizzol Assemblage. Um ótimo corte das safras de 1995, 1998 e 1999, usando cabernet sauvignon, cabernet franc, merlot e tannat, de 12% de álcool. A maior parte do corte foi de 1995 e a tannat é de 1999. Foram engarrafadas apenas 2 mil garrafas jeroboam (3 litros). Sabe-se que o amadurecimento de um vinho é beneficiado numa garrafa maior e aqui não foi diferente. Cor granada e reflexos atijolados, muito limpo, aroma complexo, muitos terciários, balsâmico, etc. Oxidação no ponto ideal. No palato, corpo médio, boa estrutura, frutas, chocolate, muito elegante, equilibrado e persistente. Taninos polimerizados, portanto macios, sem nenhum amargor. E o mais importante: vivo, muito vivo. Um dos melhores brasileiros que já provei.

O segundo, também da Dal Pizzol, um Merlot 1991. Cor rubi atijolado e límpido, de vinhedos de latada aberta. 11,7% de álcool, sem madeira. Aroma de marmelada, couro e tabaco. Ainda vivo e algo tânico. Corpo médio. O mais antigo da lista e ainda pode seguir mais um tempo.

A Dom Laurindo se apresentou com um Cabernet Sauvignon 1994, 11% de álcool, sem madeira e nem filtragem. Coloração rubi escura, aroma mentolado, floral leve e refrescante. Na boca, fantástica, certa marmelada, bala de laranja, acidez leve e tanino adocicado. Muito elegante. Para fechar seu show, a Dom Laurindo apresentou um Tannat 1996, com 13% de álcool, sem filtragem. Trazia algum depósito em suspensão. Aroma frutado e sabor quente, redondo, com taninos muito macios.

Flávio Pizzato trouxe seu legendário Pizzato Merlot 99, o vinho que virou a cabeça de muita gente e elevou sua vinícola a categoria de boutique. Com 12,5% de álcool, proveniente de vinhedos plantados entre 84 e 88, foi a primeira vinificação da Pizzato. Tem cor vermelho vivo brilhante e aromas terciários, couro, tabaco. No palato é macio e de boa acidez, com toques de laranja, goiabada, bombom de chocolate com frutas e especiarias. Segundo Flávio, partiu-se de uvas excepcionais, de uma grande safra e estagiou apenas 5 meses em barricas de carvalho novo americano. Depois de tamanho acerto na primeira vinificação, a Pizzato, com longo histórico no plantio de vinhedos, tinha de provar que não teve sorte de principiante. E provou, logo no ano seguinte, com o Pizzato Cabernet Sauvignon 2000. Com 12,5% de álcool e 6 meses de barrica nova americana, é vermelho com reflexos atijolados, aroma complexo que mescla café, humus, floresta depois da chuva. Tem corpo médio, elegante, bom equilíbrio e persistência média.

Um surpreendente projeto é o da Maximo Boschi. Eles não participam de nenhum concurso e só produzem em bons anos. Porém, mais do que isso, somente comercializam vinhos devidamente amadurecidos. Portanto, estes são vinhos “encontráveis”. Seu Merlot 2000 com 12,8% de álcool e 8 meses de passagem em barricas de carvalho francês é evoluído, com cor escura, aroma rico, caramelado. Tem corpo médio, elegante, taninos firmes, acidez viva e álcool um pouco presente demais. Um vinho desses por R$ 60 ou R$ 70 é uma pechincha. O Cabernet Sauvignon 2000 é vermelho rubi escuro com uma bela borda translúcida. Na boca, corpo médio, tanino de médio para fino, acidez delicada e persistência média. Na mesma faixa de preço. Uma descoberta.

Esta espetacular degustação encerrou-se com um espumante digno de destaque: Cave Geisse Brut 1998, um vinho selecionado para a ¿Cata Magistral¿ que a Master of Wine Jancis Robinson conduzirá no WineFuture Hong Kong 11, organizado pela Academia do Vinho da Espanha. Fique claro que este é o primeiro vinho brasileiro selecionado para degustação num evento internacional deste porte. Até hoje, o Brasil nem era cogitado nas mais importantes publicações sobre vinhos como tendo alguma região capaz de produzir algo de qualidade. O aval da principal crítica de vinhos da atualidade coloca o Brasil como um produtor de espumantes de padrão internacional. Jancis deu 18,5 pontos, a mais alta nota para um espumante de fora de Champagne.

E não é para menos. Foi um vinho pensado para a virada do milênio e feito com 70% de chardonnay e 30% de pinot noir. Este espumante fez uma fermentação por 180 dias e ainda está na cave em autólise, isto é, em contato com as borras. O degorgement (processo de retirada das borras e enrolhamento definitivo) é feito somente mediante a encomenda pelo site. É um líquido amarelo-dourado com perlage delicada, persistente e excelente. Aromas de mel, tostados, frutas secas, amêndoas e biscoito. Na boca, rica, explode com mel, cítricos, bom corpo, persistência e muita cremosidade. Ainda há 280 garrafas. Pela módica quantia de R$ 600 cada garrafa magnum (1,5 litros).

Foi uma manhã chuvosa e fria. Mas a calorosa recepção de apaixonados produtores e as provas de sua dedicação e trabalho nos deixaram com a alma cheia de esperanças em vida longa para conferir esta evolução. Muito bonito, também, foi ouvir Ademir Brandelli, da Dom Laurindo, no passado enólogo da Dal Pizzol, dizer que, “naquele tempo, não sabíamos metade do que sabemos hoje, plantávamos em latada, não em espaldeira, nem tínhamos barricas de carvalho francês”. E disparar na sequência: “Imagina nossos vinhos feitos hoje daqui a dez, vinte anos!?” Imagino, Ademir. Agora eu imagino. E depois de provar, numa sessão especial em sua cave, aquele 1991, seu primeiro vinho, acompanhado de Pedro Hermeto (Restaurante Aprazível) e Deise Novakoski, imagino e acredito. Longa vida ao vinho brasileiro.

*publicado originalmente no terra magazine SÁBADO, 29 DE OUTUBRO DE 2011, 09H04
** antes da atual polêmica sobre as salvaguardas.

Mauricio Tagliari
De São Paulo

 

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