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Archive for the ‘vinho italiano’ Category

 

Uma noite mal dormida e uma ressaca não seriam bons presságios para uma segunda-feira de manhã. Mas eu tinha uma degustação de Brunello di Montalcino no Restaurante Cantaloup prevista e isto animaria qualquer mortal que gostasse de vinhos. Seriam dois flights de 11 vinhos cada. Rosso  e Brunello. Coisa séria. Degustação feita, explanações, colegas de alto nível, serviço impecável, opiniões divergentes, alguns amando e outros decepcionados.

Safras de 2011 dos Brunello. Um ano não tão perfeito. Bem, todos tinham um pouco de razão. Alguns exemplares deixaram a desejar. Infanticídios foram cometidos. Mas não se pode negar que também havia uma ou outra joia. O principal é notar uma mudança no perfil dos vinhos da região. Buscam ser consumidos mais cedo. Estar mais prontos. Nem sempre acertam. Alguns ficam no meio do caminho em busca de um perfil novomundista que o novo mundo anda abandonando. Mas todos trazem a coloração translúcida bem clara, aromas frutados, paladar com boa acidez e taninos cheios de personalidade. Boas expressões do clone da Sangiovese da região. A maioria dos vinhos não está no mercado brasileiro, ao menos não esta safra.

De lá fui experimentar as novidades da Vinícola Aurora, no Figueira Rubayat. E que alegria ver a constante evolução do vinho brasileiro. O lançamento mais destacado é espumante brut feito com método tradicional que passa 24 meses em contato com as leveduras. Insisto que este tipo de vinho é a vocação do Brasil. Espumante de alta qualidade com preço bem competitivo. A linha Pequenas Partilhas traz um cabernet franc e um tannat de se beber cheio de certezas no potencial do vinho brasileiro!

Mas o melhor do dia foi a noite. Para quem gosta de jazz, ou melhor, de free jazz, não poderia haver lugar mais certo para se estar do que no Jazz B, no centro de São Paulo. O quarteto do saxofonista Thiago França simplesmente inebriou, com a ajuda de uns goles de cerveja IPA artesanal, a plateia.

Formado por Thiago no sax alto, tenor e flauta, Amilcar Rodrigues no flugel e trompete, Marcelo Cabral no baixo acústico e Mariá Portugal na bateria, o quarteto fez dois sets com um intervalo de meia hora. Música fluindo do jeito que eu gosto. Todos se ouvindo e interagindo. Deu vontade de estar lá tocando junto. Esperando a deixa.

Preparem-se. Tenho de avisar ao mundo que Mariá Portugal, do Quarta B, está pegando o gosto pelo freejazz! E sai de baixo. Vejo shows de jazz há uns quarenta anos. Mariá é provavelmente a baterista mais criativa, espontânea e original que já vi. Seu sorriso contagiante, sua energia, humildade e simpatia são bônus.

A inventividade, o fluxo de ideias musicais, a precisão, o repertório, a entrega são cativantes. Um show à parte. Sei que vou me arrepender de ficar escrevendo assim, pois vai ficar cada vez mais difícil contar com a requisitadíssima Mariá para os meus projetos, mas que posso fazer? Que segunda-feira inesquecível.

 

 

 

 

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Os vinhos da Tasca d’Amerita, provavelmente o mais importante e consistente produtor da Sicilia, são velhos conhecidos. Já os provamos há tempos. Desde antes do boom* dos vinhos sicilianos no Brasil . Pioneiros na produção de qualidade naquela ilha, juntam tradição com arrojo. Mesmo sendo o mais francês dos produtores sicilianos, dá show nas uvas autóctones. Esta prova foi conduzida na MIstral por Antonio Virando, export manager da casa. Abaixo as notas da degustação mais recente.

Antonio Virando apresenta os vinhos da Tasca d'Almerita.

Antonio Virando apresenta os vinhos da Tasca d’Almerita.

1.Sallier de la Tour grillo 2013

Uvas: 100% Grillo / Teor alcóolico: 11,5%

O. palha com reflexo verde.

N. fruta branca, leve floral, casca de laranja.
B. Acidez, boa citrico.
Obs . um branco muito agradável

Pts 89

U$32,50
2. Regaleali Bianco 2013

Uvas: 40% Inzolia, 30% Grecanico, 30% Catarratto / Teor alcóolico: 12%

O. palha esverdeado.
N. leve floral, fruta verde.
B. facil, leve, acidez leve, frescor curto. Nespera, manga verde, salino.
Obs. branco mais encorpado.

Pts97

U$37,90
3. Sallier de la Tour nero d’avola 2011

Uvas: 100% Nero d’Avola / Teor Alcóolico: 13,5%

O. rubi, borda translúcida.
N. fruta confitadas, especiarias, floral, chocolate.
B. vivo, tanino adocicado, acidez boa, quente, longo.
Obs um bom vinho do dia a dia.

Pts 87

U$30,90

4. Sallier de la Tour syrah 2011

Uvas: 100% Syrah / Teor Alcóolico: 13%

O. rubi quase translúcido.
N. potente, fruta vermelhas e especiarias.
B. vibrante, acidez viva, tanino firme e pode evoluir. Estruturado mas tem final leve amargor.
Obs. gastronômico. Vinhedo vizinho ao famoso Principe Spadafora, pioneiro de syrah de qualidade na região.

Pts98

U$32,90

5. Ghiaia Nera 2011

Uvas: 100% Nerello Mascalese / Teor Alcóolico: 13,5%

nerello mascalese 100%
O. rubi translúcido.
N. mineral, fruta vermelha.
B. taninos firm, acidez  viva, elegante, bom ataque e final muito agradavel.
Obs  nerello mascalese está entre pinot nero e nebiolo. este vinho passa um ano em carvalho sloveno. o nome Ghiaia Nera significa pedra negra, escolhidp por conta do solo vulcânico.

Pts 90

U$58,50
6 .Lamuri nero d’avola 2011

Uvas: 100% Nero d’Avola / Teor Alcóolico: 13%

O. rubi, borda atijolada translúcida.
N. complexo, fruta vermelha  e negra, tabaco,  erbaceo.
B. ótima acidez e madeira levissima, bem integrada (segundo e terceiro uso)
Obs nero d’avola 100% best buy

Pts 89

U$49,90

7. Cygnus nero d’avola cabernet sauvignon 2009

Uvas: 60% Nero d’Avola,
40% Cabernet Sauvignon / Teor Alcóolico: 14%

O. tijolado,  centro rubi, borda translúcida.
N. menta, ervas, louro.
B. maravilhoso frecor, menta, fruta vermelha, tanino vivo porem leve, acidez ótima.
Obs  este corte é um remanescente dos tempos da moda castas francesas na Sicilia. Sabor original.

Pts89

R$59,90

8. Rosso del Conte 2008

Uvas: 85% Nero d’Avola, 15% seleção

de outras uvas tintas / Teor Acóolico: 14%

O. centro denso, borda tijolo.
N. tostado, tabaco, chocolate.
B. vivo, elegante, macio, potente.
Obs um verdadeiro cru de um vinhedo de 1959. Um vinho de guarda. Passa 100% por barrica de carvalho francês novo. De 1970 até 1987 fazia passagem por barrica de castanho. Hoje, não mais. Este está ótimo mas vai evoluir bem ainda. O Rosso del Cone não é produzido todo ano.
Pts 92

U$149,50

* o DOC Sicilia foi criado em 2012.

O= visual, olho. N= olfato, nariz. B=paladar, boca.

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oriundi 2011

oriundi 2011


Todo grande vinho tem uma boa história. A do Oriundi, pode-se dizer que começa em fins do século XIX, quando da grande imigração italiana para o Brasil. Mas seu início pode ter ocorrido bem antes, no momento em que os romanos decidiram produzir vinhos nas terras mais frias e úmidas ao norte da península italiana e criaram truques para consegui-los mais concentrados e interessantes.

A maior parte dos produtores de vinhos do mundo se gaba da pouca intervenção humana em seu produto, de ser a expressão da terra e da uva, mesmo quando isto nem é tão verdadeiro. O vinho honesto seria apenas suco de boa uva, fermentado e engarrafado sem truques, e as exceções principais residiriam nas delícias de Champagne, de Jerez e do Porto. Nestes três casos, a técnica, o trabalho paciente de armazenamento e as decisões de especialistas sobre mescla de safras têm um peso enorme no resultado final.

Há um outro exemplo de estilo de vinho em que a intervenção humana é fundamental. O italiano Amarone. Nele se usa oapassimento.  Deixam-se os cachos de uva em esteiras de bambu após a colheita durante os meses de inverno. Com isto, as uvas desidratam e ganham concentração, dando origem a vinhos mais encorpados, intensos, ricos em aromas e sabores. Oappassimento, tradicional da zona de Valpolicella, existe desde o tempo dos romanos e é usado na elaboração de vinhos de estilo único no mundo. Esta técnica tem sido aperfeiçoada ao longo da últimas décadas pelos Boscaini, fundadores da Agricola Masi no final do século XVIII e conhecidos como os “reis do Amarone”.

Sandro Boscaini é um visionário. Sob seu comando surgiu o chamado Ripasso, em que se acrescentam ao vinho-base comum as cascas das uvas usadas na produção do Amarone, estimulando uma nova fermentação a reforçar a cor, os aromas e os sabores. O resultado é um tinto entre a elegância do Valpolicella e a potência  do Amarone.

Não satisfeito em ser referência na Itália, Sandro partiu com sucesso para uma empreitada argentina e não se contentou em produzir um malbec de qualidade. Seus dois principais vinhos em Tupungato, Mendoza, são encontros de uvas tradicionais da Argentina com velhas conhecidas italianas. O Passo Bianco combina pinot grigio e torrontés, enquanto o Passo Doble casa amalbec com a corvina. Ambos são vinhos marcantes e interessantes. Nada óbvios.

O que mais poderia inventar o senhor Boscaini? Que tal tentar fazer o melhor vinho brasileiro? Bem, antes foi preciso que um velho amigo religioso, Don Ivo Pasa, o fizesse interessar-se pela população descendente de vênetos concentrada na região de Bento Gonçalves, no Rio Grande do Sul.

A identidade cultural foi um fator preponderante. O encontro, em 2007, com Luis Henrique Zanini, enólogo brasileiro responsável pelos ótimos vinhos da Vallontano, foi fundamental e de rara felicidade para o projeto.

Zanini, de personalidade afável mas apaixonada e uma abordagem técnica precisa, com viés humanista, deu a contrapartida perfeita para a aventura. Profundo conhecedor do Vale dos Vinhedos e sua cultura, vem desde então dividindo a responsabilidade na elaboração de Oriundi, um vinho feito comapassimento no Brasil.

Várias tentativas e experiências se sucederam até o Oriundi 2011. Foi testada e abandonada a principal cepa do Veneto, acorvina, que junto à  rondinella e à molinara integra praticamente todos os cortes de daquela região, seja nos Classico ou nos Amarone. Segundo Andrea Dal Cin, enólogo da Masi, a cepa não deu os resultados esperados no solo ácido da Serra Gaúcha. Várias outras cepas também não passaram no teste doapassimento.

Zanini e Andrea Dal Cin, enólogo da Masi.

 

Em compensação, a descoberta, na região de Caminhos de Pedra (parte da serra onde a vitivinicultura não se modernizou e não houve reconversão das cepas antigas por outras mais em voga), de pés de castas originárias do Vêneto e hoje raríssimas ou extintas por lá, deu um toque de originalidade ao Oriundi.

As principais castas usadas no corte são tannat e teroldego. Mas de vinhedos pergolagos dos Caminhos de Pedra vêm castas raras como recantina, corbina e turchetta para “temperar” o blend. As vinhas têm entre 15 e 50 anos. Seus frutos passaram 30 dias em caixa de madeira em temperatura ambiente, no outono, durante a fase do apassimento. Cada casta foi vinificada separadamente e enfrentou maturação de 18 meses em barricas de carvalho francês. A produção é de apenas 10 mil garrafas.

O resultado é um vinho vermelho rubi intenso. Aromas de frutas negras e especiarias. Tem grande complexidade olfativa. Deixado no copo, trouxe cacau, alcaçuz e, mais tarde, café, menta, tostados e bálsamo. Na boca é de grande estrutura, ótimo corpo, macio e persistente. Muito agradável. De acidez delicada e álcool muito equilibrado.

A safra 2011 está pronta, mas pode resistir até 20 anos, na minha opinião. Pouca gente sabe, mas os melhores vinhos brasileiros já provaram ter grande potencial de guarda. E o Oriundi vem para confirmar a regra. Está entre os melhores vinhos brasileiros que já provei. Mais do que isso: é de classe internacional, não deve nada a ninguém.

Une a expressão do terroir da Serra Gaúcha à técnica e à cultura vênetas. Ao mesmo tempo uma homenagem ao passado, à tradição e à história do povo vêneto no Brasil e uma porta aberta para o futuro do vinho brasileiro. Um vinho completo, portanto. Qualidade, história, originalidade. Um marco. O que se pode querer mais?

Na Mistral, por R$ 127.

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Há cinco meses à frente da loja de vinhos Epicerie, uma jovem empresa de vendas on line com um posicionamento de descontos agressivos, promoções relâmpago e baixo mark up, Ari Gorestein, Co-CEO e Co-Founder da empresa, se posiciona contra a arbitrária decisão do Governo de quase dobrar os impostos sobre a comercialização do vinho.

Assim como outros jovens empreendedores do mundo do vinho no Brasil, Ari trabalha com a ideia de tornar a bebida acessível a uma maior parte da população. Basta lembrar da imutável cifra de 2 litros per capta/ano para imaginar o potencial deste mercado.  Porém, assim como todos nós, foi recentemente surpreendido pela notícia do aumento do IVA-ST, que levará a taxação do vinho para quase o de 14,23% para 27,40% na venda para pessoa jurídica em São Paulo. Isso, além de onerar comerciantes e prejudicar consumidores, praticamente acaba com as chances de empresas como sua Epicerie de tornar o vinho uma bebida mais democrática. Já é bem conhecida a sanha tributária e burocrática de nossos governos. No caso do vinho, tais tributos nos obrigam a pagar preços entre os mais caros do mundo. Seja para produto importado ou nacional.

Ari pede a união do setor contra tal medida. Tal união, pregada insistentemente por colegas como Didu Russo no seu grupo de trabalho junto à Fecomercio, é ainda tão distante da realidade que me reservo o direito de dar esta pequena contribuição aqui. Não é do feitio deste blog publicar releases,  cartas ou opiniões de produtores, importadores ou quem seja. Mas o escândalo é tal que passo a palavra a Ari. Abaixo a carta na íntegra.

 Carta aberta contra o aumento do IVA-ST

Caros amigos consumidores e amantes de vinho,

Há pouco mais de um mês, em 29 de junho de 2013, a publicação da Portaria CAT 63 estabeleceu um aumento no Índice de Valor Adicionado Setorial (IVA-ST) que rege o cálculo da Substituição Tributária do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS-ST) incidente sobre bebidas alcoólicas, com exceção de cerveja e chope.

Basicamente, o mecanismo de arrecadação do ICMS-ST antecipa para o primeiro elo da cadeia de distribuição os impostos que incidiriam sobre todos os intermediários que comercializam um item desde sua origem até o consumidor final. Para antecipar o recolhimento do ICMS, o Estado define qual o mark-up (taxa de marcação de preço) médio aplicado pelos comerciantes de um determinado setor.

No caso específico dos vinhos importados, atualmente em São Paulo o IVA-ST da categoria é de 56,91%. Tal coeficiente implica no recolhimento de 14,23% sobre o valor da Nota Fiscal quando uma empresa vende à outra com propósito de revenda (ambas dentro do estado). A portaria CAT 63 estabelece que, a partir de 1º de Setembro, o IVA-ST passará a 109,63%. Este aumento substancial significa que, nas operações de venda entre empresas, o recolhimento passará a 27,40% (quase o dobro do atual).

Ainda não há clareza quanto às drásticas proporções do incremento sobre o imposto, já que as entidades de defesa do setor (notadamente a ABBA) apresentaram à Secretaria da Fazenda estudos de preço de instituto de pesquisa idôneo (FIPE) na tentativa de reverter o quadro.

A lógica que sustenta a sistemática de cálculo do ICMS-ST pressupõe que os mark-ups aplicados pelos diferentes comerciantes em um setor sejam semelhantes. Ora, no caso do vinho, bem se sabe que os preços e margens aplicados nos diversos estabelecimentos variam enormemente. A utilização de um mark-up médio onera aqueles que aplicam margens módicas – que beneficiam o acesso do consumidor ao produto – e favorece aqueles que abusam do bolso de seus clientes.

Face ao possível aumento do IVA-ST, vemo-nos na obrigação de nos manifestar contra a medida. A Epicerie está presente no mercado há cerca de cinco meses e tem como propósito maior democratizar o consumo de vinhos e difundir a cultura desta bebida social e historicamente tão rica ao público brasileiro. Para tanto, desde seu lançamento, a empresa tem concedido aos seus clientes descontos agressivos. Ironicamente, abrindo mão de rentabilidade na venda, vê-se impactada pela mesma alíquota de ICMS-ST de seus concorrentes. Pressupor que o mark-up aplicado pela Epicerie seja de 109,63% – quando de fato é muitíssimo inferior – penaliza gravemente nosso cliente ávido por vinhos acessíveis.

Na esperança de que o setor e os consumidores se mobilizem contra tal aumento draconiano,

Ari Gorenstein

Co-CEO e Co-Founder da Epicerie (www.epicerie.com.br)

E depois não querem que o povo se revolte…

Com a palavra Rage Against The Machine:

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várias cidades destas duas tradicionais regiões vitivinícolas foram atingidas por inundações catastróficas. leia aqui. além da tragédia humana, com relatos de morte e desmoronamentos, espera-se notícias sobre o perda de vinhedos. cinque terre, junto com la spezia, foi dos locais mais atingidos.

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Angelo Gaja é, além de um gigante do vinho mundial, um grande entertainer. Quem esperaria, em 2011, que uma degustação começasse com um balanço de prós e contras dos sistemas comunista e capitalista? Quem imaginaria uma palestra de quase duas horas na qual o grande produtor dissesse logo de cara estar cansado de enfiar o nariz no copo e preferir falar de história? Ou que comparasse cabernet sauvignon a John Wayne e nebbiolo, a Marcello Mastroianni?

Pois foi o que aconteceu no encontro comemorativo dos cinquenta anos de carreira deste profissional que é uma verdadeira lenda da enologia. Provavelmente o mais renomado produtor italiano, único quatro estrelas do guia Gambero Rosso, Gaja esbanja carisma ao lidar com seus interlocutores. É um depositário de histórias e testemunha da grande transformação ocorrida nestes anos num mercado que está entre os mais dinâmicos e globalizados.

Ao assumir a propriedade da família em 1961, aos 21 anos, herdou já uma rica tradição de qualidade. A família Gaja começa a produção vinícola no Piemonte em 1859. Por volta de 1905, inicia uma filosofia de só engarrafar vinhos de alta gama, inspirada na avó de Angelo, Clotilde Rey, de cultura mais elevada num meio camponês. Com isso, logo cedo a marca Gaja torna-se muito respeitada.

Angelo estudou Economia na Itália e Enologia, na Itália e na França. Introduziu inovações tecnológicas importantes e se tornou um paladino da uva nebbiolo. Foi dos primeiros a produzir Barolo de vinhedos únicos. Seus Barolos e Barbarescos elevaram esta casta piemontesa a níveis nunca alcançados antes. Foi também o responsável por levar os vinhos da casa para fora da Itália.

Não satisfeito, em 1994 expandiu sua área de ação para a Toscana, explorando primeiro a sangiovese em Montalcino, com seus Brunellos, e finalmente, em 1996, o terroir dos supertoscanos, Bolgheri, onde planta cabernet sauvignon, merlot e cabernet franc.

Defensor da artesania do vinho, ao mesmo tempo elogia (não sem uma ponta de ironia, a meu ver) Robert Mondavi, a quem chama de mestre, por ter criado vinhos excelentes acreditando sempre na expansão da produção com qualidade, o que teria elevado o nível do consumidor. Mondavi, inventor também do turismo vinícola de massa, seria, segundo Gaja, o professor de todo o novo mundo do vinho. O que não é pouca coisa.

Polêmico, desde 1996 mudou a apelação de todos os seus Barolo e Barbaresco de single vineyard para Langhe Nebbiolo D.O.C. por acreditar que as colinas de Langhe seriam um terroir destacado. Desde então vem plantando também castas estrangeiras nestas terras.

Entre arquitetura, preservacionismo, política trabalhista e piadas, Angelo Gaja cumpriu sua palavra de não falar de aromas e sabores, deixando esta tarefa para nós, apreciadores. Só nos resta, portanto, cumprir nossa parte.

Começamos com o Alteni di Brassica Langhe Sauvignon Blanc 2008 (Mistral, U$ 197,50). Um vinho macio e denso, com a madeira muito bem trabalhada. Corpo e acidez muito equilibrados. Um dos melhores desta casta que já provei.

Ca’Marcanda DOC Bolgueri 2006 (Mistral, U$ 269,50) 50% merlot, 40% cabernet sauvignon e 10% cabernet franc. Este supertoscano de minúscula produção traz fruta, ótimo corpo, equilíbrio e persistência. Dois vinhos superlativos e ainda não chegamos na sua especialidade, a uva nebbiolo.

Mas aqui está ela. Barbaresco 2005 (Mistral, U$ 390,45) é um ícone da casta na região. Aroma complexo, rico de frutas do bosque, alcatrão e com paladar muito vivo. Elegante, potente e com os taninos vibrantes. Persistente e deve evoluir muito ainda.

Sperss Langhe Nebbiolo 2005 (Mistral, U$ 525,90) com 94% de nebbiolo e 6% de barbera, é um single vineyard da região de Barolo. Seu aroma é profundo e lembra, além de frutas vermelhas, algo mineral. Ótima estrutura e taninos maduros muito agradáveis.

Brunello di Montalcino Sugarille 2000 (Mistral, U$ 329,50). Se algo pode ser dito sobre este vinho, é que demonstra elegância e classe. Uma verdadeira redenção em meio à oferta de Burnello de alto preço e qualidade duvidosa. Este é um puro-sangue. Complexo e estruturado, é sedoso e macio na boca. E pode evoluir.

Angelo Gaja promete ter sido esta sua última viagem profissional ao Brasil, algo compreensível para uma pessoa de sua idade, apesar de sua vitalidade ser assombrosa. Gaja jura que não vai se aposentar, apenas transferir a parte comercial a sua simpática filha Gaia, que já esteve no Brasil para representá-lo. Que assim seja. Ele cuida dos vinhos. E sua filha o representa. Mas sentiremos falta de sua verve e bom humor.

*publicado originalmente no portal terra magazine.

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Marco Pallanti é o enólogo responsável pelo delicioso Castelo di Ama Chianti Classico. Sua figura tranquila e bem-humorada esconde um apaixonado, meticuloso e algo rigoroso profissional. Lembro-me dele num evento há alguns anos, orgulhoso de seu filho pré-adolescente. Este servia taças aos presentes enquanto tecia comentários pertinentes sobre cada vinho. Impossível não se impressionar com o menino, tão animado, compenetrado em seu trabalho, sob o olhar carinhoso do pai.

Cito este episódio pois parece retratar um momento revelador. Um pai merecidamente orgulhoso de sua cria. E criar um filho, como criar um vinho, cada coisa a seu modo é tarefa desafiadora. Vários fatores podem levar ao sucesso ou à decepção. Pais e enólogos não têm controle absoluto sobre suas criações. Os mais comprometidos tentam dar as melhores condições para o desenvolvimento aos rebentos. Mas um clima ruim aqui, uma má companhia ali, qualquer coisa pode atrapalhar.

Pallanti tem muitos motivos para se orgulhar de seu filho e de seus vinhos. Ao chegar ao Castelo di Ama, no final dos anos 70, era um jovem agrônomo, numa propriedade com histórico centenário, mas que havia sido refundada como casa vinícola em 1972, por três famílias romanas: Carini, Sebasti e Tradico. Em alguns anos, seu talento foi amplamente reconhecido, seus vinhos, premiados e sua filosofia, vitoriosa.

Casado com Lorenza Sebasti, diretora da vinícola, Pallanti revelou-se pioneiro em várias posturas no Chianti. Foi o primeiro a introduzir o conceito de cru, com o Vigneto Bellavista, depois com o Vigneto San Lorenzo e finalmente com o Vigneto La Casuccia. São todos vinhos de terroir, excelentes e produzidos apenas em safras excepcionais. Foi também o primeiro a usar vinificação com temperatura controlada em tanques de aço. O primeiro a usar barricas pequenas de carvalho. Por estas e outras, conquistou o título de “Winemaker of the Year” do Guia Gambero Rosso, em 2003, e em 2006 foi eleito presidente do Consorzio del Vino Chianti Classico.

O seu carro-chefe, o Castelo di Ama Chianti Classico 2006 (Mistral U$ 89,50), é um dos ícones da nova enologia toscana. Não um reserva, mas uma seleção das melhores uvas sangiovese de vários vinhedos, vinificadas separadamente e depois misturadas para produzir um campeão. Coleciona “tre bichieri” do Gambero Rosso. Fato raro para um chianti não-reserva.

Seu aroma é rico, complexo. Traz camadas de frutas vermelhas, compotas, rosas, especiarias, tostados. Madeira discreta, dado o emprego de barricas de primeiro, segundo e terceiro uso. Taninos elegantes e boa persistência. Um vinho extremamente gastronômico. Aliás Marco Pallanti faz uma apologia do vinho para refeições. Critica o fato de a “comida ter virado arquitetura e o vinho ser imbebível. Verdadeiros Arnold Schwarzenegger…” Seu Chianti Classico é antes de mais nada um vinho equilibrado, elegante, harmônico.

Inconformado com um certo desprestigio dos chianti, Pallanti criou o que veio a ser seu vinho mais famoso: o L’Apparita. E novamente a metáfora pai-filho retorna. Este vinho é considerado um dos melhores merlot da Itália e, segundo a Wine Spectator, “deixa o Chateau Petrus a ver navios”. Uma maneira de dizer que é um dos melhores merlot do mundo. O enólogo confessa que o criou mais com o objetivo de chamar atenção da crítica para seus vinhos. Mas o sucesso foi tão grande que ele o encara um pouco como um filho rebelde. Bem-sucedido, mas rebelde.

O L’Apparita 2006 (Mistral U$348) é um vinho de cor densa, muito corpo, untuoso e potente. Na boca, é frutado e com taninos, diria, mais nervosos que seu irmão. Muito persistente. É um merlot de altitude, que deve evoluir muito bem.

Os seus cru são prova do potencial da sangiovese, esta uva difícil e cheia de personalidade, comparada por Pallanti a sua prima Borgonha, a pinot noir. O Vigneto Bellavista 2006 (U$ 348) leva uma pequena parcela de malvasia nera. Tem um aroma rico, com tostados e frutas vermelhas do bosque, mas na boca é que se destaca. Paradoxalmente de bom corpo, mas muito leve, com taninos suaves e muita persistência. O Vigneto La Casuccia traz 10% de merlot. Tem nariz potente, frutado e mineral. No palato é redondo, elegante e equilibrado, com uma acidez excelente para acompanhar comida. Muito persistente. Ambos os vinhos estão acima da média dos Sangiovese tradicionais. São de um perfil moderno. Vivo. Fruto do questionamento sobre o presente e o futuro, mas com os pés fincados na tradição.

Um espelho deste pensamento é o próprio Castelo di Ama, um imóvel do século XVIII, cuidadosamente restaurado, e que a cada ano, a cada nova safra, recebe uma obra de um renomado artista contemporâneo, num projeto ousado que inclui entre outros Anish Kapoor, Giulio Paolini, Ilya Kabakov, Louise Bourgeois, Chen Zhen. As obras se espalham por toda a propriedade, nos vinhedos, na adega, na entrada, integradas ao ambiente, ao terroir. Vinho e Arte, no ritmo da Natureza.”

*publicado originalmente no portal terra magazine

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