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Archive for the ‘vinho chileno’ Category

Degustação Ventisquero

Degustação Ventisquero

Criada em 1998 e comandada por uma equipe enológica jovem e talentosa, a chilena Viña Ventisquero tem se destacado pela criatividade agressiva de seus rótulos. A cara e “o” cara da Ventisqueiro é Felipe Tosso, um bem-humorado líder de equipe que, com simpatia e humildade, vem perpetrando ano após ano vinhos cada vez mais interessantes.

Pude provar recentemente 15 rótulos que só confirmam minha admiração.

Aqui vão minhas notas para alguns dos vinhos (*):

Queulat Sauvignon Blanc 2014
Leyda, Viñedo Las Terrazas
O Palha, reflexos amarelos.
N Leve cítrico, mato verde.
B Bem cítrico, bem seco, vegetal. Acidez alta, ótima estrutura.
Obs: solo argiloso de Casablanca.
Pts 90
Grey GCM 2014
Apalta
50% garnacha, 30% cariñeña, 20% mataro (monastrell ou mourvedre).
O Rubi com muitas lágrimas e borda translúcida.
N Fruta e chá.
B Frutado, especiado, longo e elegante.
Obs: solo diferente do resto de Apalta, com pedra e argila. Vinhedos de 10 anos.
Pts 91
Enclave 2011
Pique, Alto Maipo.
86% cabernet sauvignon, 7% petit verdot, 5% carmenere, 2% cabernet franc.
O Vermelho medianamente denso, borda rubi.
N Tabaco, chocolate, couro, tostado.
B Acidez elevada, muita fruta, boca viva e  ótima estrutura.
Obs: feito em parceria com o australiano John Duval, 50% do vinho usa leveduras naturais e passa por 22 meses em barrica de várias idades.
Pts 90
Tara Branco 2013
Vale de Huasco, Deserto de Atacama
100% chardonnay.
O Amarelo turvo quase marfim.
N Leve cítrico, fruta exótica.
B Untuoso, rico, suculento, bem cítrico, bem seco, vegetal. Acidez alta, ótima estrutura.
Obs: do clima extremo do deserto, num solo extremamente salino e com uma camada de apenas 10cm de argila, a uva se esforça entre a neblina matinal, o vento da tarde que enverga as parreiras e o frio da noite para produzir heróicos 300 ou 400 g de fruta por pé. O vinho passou dois anos em barrica de seis anos de uso. Nada de leveduras selecionadas e sem filtragem. Um vinho mágico.
Pts 91
Heru 2013
Casablanca, Viñedo Tapihue,
100% pinot noir
O Rubi translúcido.
N Morango.
B Corpo médio, acidez ótima, muita fruta. Agradabilíssimo.
Obs: solo de Casablanca com muita pedra.
Pts 93
(*)
= olho, aspecto visual.
= nariz, aspecto aromático.
= boca, paladar.
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Ao provar, recentemente, os vinhos chilenos de Errazuriz e Caliterra pudemos notar a força das ideias de um homem. Além de elegantes, gastronômicos e cheios de personalidade, trazem o nome de Eduardo Chadwick, o visionário proprietário das duas vinícolas, embutido nos seus rótulos.

 

Idealizador da Cata de Berlin, onde comparou às cegas seus vinhos com os que haviam sido ranqueados 100 pontos por Parker, como Margaux, Lafite e Latour da colheita 2000, Sassicaia, Solaia, Tignanello. Foi uma surpresa para os críticos eleger como os melhores os seus Chadwick 2000 e Seña 2001, este concebido em parceira com Robert Mondavi.

 

Herdeiro da tradicional Bodega Errazuriz, Eduardo lidera uma guinada na enologia chilena. Incluindo terroir, tecnologia e sustentabilidade na pauta chilena, vem transformando os vinhos e nossa percepção a respeito deles.

 

Fundada em 1870, a Errazuriz saiu da mão da família para ser retomada em 1983. Hoje possui uma bodega nova que funciona por gravidade. A mais jovem Caliterra produz seus tintos em 1850 hectares de Colchagua, abarcando vários solos e várias exposições solares. Os brancos vem de Leyda no litoral, fresco e com influência oceânica. Provei sete vinhos Errazuriz e seis da Caliterra, todos muito interessantes. Aqui vão as minhas impressões:

 

Max reserva sauvignon blanc 2013, Aconcagua. Tem 13% de álcool e passa 3 meses nas borras (U$43,90). Cor amarelo palha, nariz delicado de frutas brancas se abre em cítrico. Na boca é cremoso, delicado, seco, mineral e  tem acidez elegante.

 

Meu preferido foi o Chardonnay Aconcagua Costa 2013. (13,5% de álcool, 12 meses de madeira usada) Cor palha e aroma floral, silvestre. Leve, longo, de acidez delicada, toques de pessego, limão siciliano e um final quente. Corpo médio, elegante e quase europeu.

 

Max Reserva Pinot Noir 2012 (13,5% de álcool U$43,90) Boa cor. Aromas de fruta vermelhas levemente cozidas ou maduras demais. Boca leve, boa acidez, corpo fresco e suculento. Facil de beber.

 

Syrah Aconcagua Costa 2012 (13,5%) Este syrah de um solo de xisto passa 14 meses em barrica francesa usada. Tem cor densa rubi, aromas de especiarias, cânfora e algo animal. No palato é nervoso, tanino vivo, grande acidez, persistência e corpo medios, suculento e levemente frutado.

 

The Blend Collection Red 2008 (40% carmenere,  25% syrah, 14% petit verdot, 13% mourvedre, 8% cabernet  franc, 14,5% de álcool, passa 16 meses por  barrica francesa  60% novas,  U$69,90) Boa cor e um halo marron revelando sua maturidade. Nariz potente traz baunilha, chocolate, notas de  madeira e tostado. Na boca é elegante, potente e de boa estrutura. Completa com boa acidez. Um vinho suculento  e no seu ponto ideal.

 

Todo ano o corte do Blend Collecion muda para buscar a expressão máxima da colheita. A versão 2011 é um blend mediterraneo .

 

The Blend Collection Red 2011 (55% grenache,  28% mourvedre,  10% syrah,  5% carignan, 2% marsanne,14% de álcool, passa 16 meses por barricas francesas novas, U$69,90). Um vinho de cor densa e potente aroma de fruta fresca. No paladar é suculento, leve, frutado, de boa acidez, tanino elegante,  gastronômico. Não se sente a madeira sobressair e é facílimo de beber. Pode evoluir muito.

 

Don Maximiniano Founder’s Reserve 2009 (80% cabernet sauvignon, 10% carmenére, 5% petit verdot, 5% cabernet franc, 14,5%  de álcool, passa 22 meses em  barricas francesas novas,  U$189). Sua cor densa e fechada já promete a potência que o nariz reforça. Rico em fruta madura, balsâmico, tabaco e mentol. No paladar é estruturado, encorpado, tem tanino potente, carnudo e persistente. Sua acidez é ok e tem grande capacidade de evolução.

 

A prova de Caliterra trouxe o Tributo Sauvignon Blanc 2012 do Sul do Vale de Leyda. Um branco erbáceo com toques de maracujá, leve, floral, mineral, salino, com boca cremosa e acidez  delicada. Bom corpo e sem madeira. Muito agradavel.

 

Tributo Carmenere 2011, (14,5% de álcool, 91% carmenere, 6% cabernet franc, 3% syrah) O vinhedo fica no meio do vale de Colchagua, sobre um trecho de argila negra. Tem cor rubi transparente, nariz de especiarias, paladar picante, sápido e de corpo médio. Taninos bons, acidez idem. Muita fruta negra e sensação quente.

 

Tributo Cabernet Sauvignon 2011( 14,2% de álcool, 91% cabernet sauvignon, 6% petit verdot, 3% cabernet franc, R$88). Originário de um vinhedo numa colina com exposição norte, sua cor tem densidade média, traz um agradável nariz de chocolate, pimenta preta, frutas negras e caixa de charuto. Na boca tem muita fruta, taninos macios, acidez boa e  leve toque animal.

 

A interessante proposta da série Caliterra Edición Limitada traz tres cortes: A de andino, M de mediterráneo e B de bordalês. Todos com 14,5% de álcool.

 

Edición Limitada A 2010  (65% carmenère, 32% malbec, 3% petit verdot, R$ 162).

2010 foi um ano frio, o que ajudou no frescor dos vinhos. Nariz de especiarias, frutas negras, café e  tabaco. Na boca é macio, encorpado,  quente, rico de fruta negra, fez bem a malolática, tem a madeira presente. Longo e alcool explosivo.

 

Edición Limitada M  2010 ( 91% syrah, 6% viogner, 3% petit verdot). Escuro púrpura denso. Nariz potente de fruta madura, leve floral. Peca pelo excesso de álcoool, mas os taninos largos e o uso dosado de madeira nova, compensam. Promete.

 

Edición Limitada B 2011 ( 74% cabernet sauvignon, 9% merlot, 4% cabernet franc ). Cor rubi densa e borda violácea, tem um nariz cheio de especiarias e fruta vermelha. Na boca é macio e fácil. Taninos e acidez bem equilibrados com uma madeira bem integrada. Evoluirá muito bem e superará bons Bordeuax pelo caminho. O meu preferido da série.

 

Baixo um clipe de Necesito una Canción, de NaNo Stern. A música fala de renovação, de velho e novo, de transformação.  Chadwick ajudou a transformar o vinho chileno.

 

 

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O Chile é um dos dois países sul-americanos que não têm fronteira com o Brasil. Nem por isso deixa de ser a origem de uma parcela enorme dos vinhos que bebemos por aqui. Na verdade, exporta quase o dobro do segundo player, a Argentina. No primeiro semestre de 2014, registrou 48% de participação em volume e 40% em valor.

A tradição vitivinícola chilena é centenária e diversa. Iniciada pelos conquistadores espanhóis, mais tarde ganhou enorme influência francesa. Na fase heróica da expansão internacional do vinho chileno, a cabernet sauvignon foi a estrela. Seus vinhos potentes, frutados, com muita madeira e toque de pimentão, marcaram época. Depois veio a descoberta da carmenère e a tentativa de tranformá-la, através de estratégia de marketing, na sua casta-ícone, como a malbec na Argentina. Mas temos visto ultimamente que o Chile é muito mais do que isso.

A Wines of Chile, que há alguns anos organiza um encontro com palestras e degustações no Brasil, trouxe para esta edição 2014 o sommelier chileno Héctor Riquelme, que conduziu a masterclass “Os Extremos do Chile”.

Foram dez vinhos apresentados no painel. Todos oriundos de fora dos tradicionais vales da região mais central do país. Alguns praticamente no deserto de Atacama, ao norte, como o Tara Red Wine 1 Pinot Noir 2012, produzido no vale de Huasco pelo grupo Ventisquero. Outros, no extremo sul, em regiões frias e chuvosas, como o Lago Ranco Sauvignon Blanc 2013, da Casa Silva, provavelmente o vinho mais austral já produzido em escala comercial, diz o enólogo Mario Geisse.

A masterclass comprovou a incrível variedade geográfica, cobrindo mais de 1000 km de norte a sul, e trouxe grandes surpresas. Uma delas foi a presença de cinco vinhos do vale de Itata, ao sul. Esta região, palco de séculos de guerra entre os conquistadores europeus e os nativos mapuche, cultiva a videira há 500 anos. Sem um histórico de vinhos de grande qualidade, vem sendo, porém, redescoberta pelos especialistas.

São de lá, por exemplo, o Outer Limits Old Roots Cinsault 2013 da Viña Montes, um vinho opulento e saboroso. Aqui, a Cinsault tem um toque de 15% de mourvédre para encorpar. Apesar do corte típico do sul da França, este Outer Limits tem um caráter totalmente distinto. Nada do sol mediterrânico. Tem o calor e a intimidade das lareiras.

A gigante vinícola São Pedro fez em Itata uma experiência radical. Produziu apenas 300 garrafas de um vinho da uva país, uma cepa crioula, típica do Chile. O resultado é algo selvagem, com taninos de certa rusticidade. Mas de boa acidez, frutado, longo. Interessante e provavelmente grande companhia para um cozido de carnes típico da região.

A ótima De Martino trouxe o Gallardía del Itata Cinsault 2013. A curiosidade é a boa acidez, não muito típica desta uva, resultante do clima chuvoso e da colheita antecipada. Encontramos um vinho agradável, fácil, elegante e leve. Os taninos são finos e a nota carbônica dá uma vivacidade surpreendente. Um vinho nervoso, mas facílimo de beber.

Mais por curiosidade, vale citar El Insolente Carignan 2010 da Rogue Vine, um vinho de garagem, sem aditivos e com leveduras nativas. São 807 garrafas vinificadas de uvas carignan oriundas de um vinhedo de 60 anos. No nariz, lembrou um francês com fruta madura e toque mineral. Na boca me trouxe à memória alguns vinhos do norte da Espanha. Vinhos com tensão, acidez, tanino potente, com especiarias, fresco e levemente adocicado.

E para fechar temos o Los Patricios Chardonnay 2010, da Pandolfi Price. Esta jovem bodega tem a consultoria de François Massoc, dos premiados vinhos Aristos e Clos de Fou. Los Patricios é um chardonnay feito com leveduras selvagens, proveniente de um solo vulcânico assentado sobre materiais argilosos glaciais. Tem um aroma interessantíssimo, complexo, frutado e mineral. Um pouco de flores brancas também se mostra aqui. No palato é vivo, profundo, elegante e persistente. Um toque cremoso e a boa acidez apontam para futuro de guarda promissor. Muito diferente dos chardonnays típicos do novo mundo. Tem um caráter próprio. Sem a pretensão de ser um Borgonha.

Ao final de uma degustação como esta, com dez taças na frente, é normal voltar a provar cada vinho para checar a evolução no copo. Em nove entre dez provas, o aroma dos restos de copo dos tintos traz um toque de café, caramelo ou algum tostado. Em geral, proveniente de uso de madeira. Não é defeito. É um sinal. E às vezes até bem agradável. Mas muito comum.

Chamou-me a atenção que neste painel nenhuma taça evoluiu para estas características. Prova do pouco ou quase nulo uso de barricas para corrigir, mascarar ou empetecar os vinhos. Os que declaram o uso mencionam apenas barricas de terceiro e até quinto usos. Isto é, que não aportam mais aquelas características de baunilha, café, chocolate, etc., típicas de carvalho novo.

São vinhos sinceros. Retratos do terreno e do clima. Sem imitações ou busca de agradar um consumidor imaginário.

Esta é a marca deste outro Chile que está sendo descoberto e que encanta.

E aqui uma amostra de um outro Chile musical. O clipe, road movie da canção“Lo Que Quieras” do Duo Denver mostra várias das paisagens produtoras de vinho. Aviso aos mais sensíveis: tem um pouco de violência.

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O Chile é aquele fenomenal país com 4.630 quilômetros de norte a sul, cheio de sol, montanhas, desertos, vulcões e lagos espremidos numa faixa que não passa de 430 quilômetros em seu ponto mais largo de leste a oeste. Seus vales e subvales estão repletos de opções geográficas para diferentes tipos de vinhos. Mas nós brasileiros nos acostumamos a pensar em seu cabernet sauvignon potente, com muito álcool e extração, excessos de sabores como pimentão, gordos! Ou ainda nos seus chardonnay super encorpados e com muita madeira. Isto, mesmo antes do advento dos vinhos carmenere, a marca registrada do país.

Claro que sempre houve vinhos fantásticos. Mas mesmo estes tendiam um pouco ao excesso. Tal perfil fez e faz ainda muito sucesso em degustações mundo afora. Aos apreciadores de boa gastronomia, contudo, são sinônimo de desequilíbrio com pratos mais delicados ou sofisticados.

O Chile evoluiu, sim. Há alguns anos Felipe Tosso, enólogo chefe da Ventisqueira, comentava aos pés de um vinhedo em Apalta como havia mudado seu jeito de fazer vinho. Desfilava motivos para colher a fruta mais cedo, preocupado com o excesso de madurez da fruta. Buscava mais acidez e menos açúcar.

Há pouco mais de um ano ouvi de Pedro Parra, o grande especialista em terroir, consultor e agora também produtor dos maravilhosos Clos de Fou, a preocupação com o avanço lento da enologia chilena. Tentava ele sensibilizar o cônsul de seu país em São Paulo. Parra é um globetrotter. Conhece tudo e todos no mundo do vinho. E tem um a personalidade inquieta.

O fato é que há mostras significativas desta evolução. Recentemente seus produtores se reuniram para expor uma nova classificação de territórios, separando os vinhos dos Andes daqueles do vale Entre Cordilheiras e da Costa, com o objetivo de esclarecer melhor ao consumidor o que esperar de cada vinho. Simplificar. Pois nem todos estão dispostos a decorar a lista enorme de nomes de vales produtores.

Agora, em outro ótimo evento da Wines of Chile, tivemos a oportunidade de provar grandes vinhos chilenos comparando safras recentes (2010) com seus irmãos em torno de dez anos mais velhos.

Percebe-se uma tendência clara no sentido de vinhos mais preocupados em expressar a fruta e o terroir. Vinhos que enfatizam a individualidade e um caráter preciso. São mais autênticos e limpos do que muitos dos seus irmãos mais velhos. Sem desmerecer estes últimos, que, em sua maioria, estavam excelentes mas algo homogêneos.

Os mais recentes, em parte por pertencerem a safras mais frias, denotam vivacidade e acidez maiores. São potentes sem serem gordos. Mais leves. Se vão evoluir tão bem? Só o futuro dirá. Minha aposta é que sim.

Aqui vai a lista dos vinhos provados:

Errazuriz Don Maximiano Founders Reserve, safras 2000 e 2010

Concha y Toro Don Melchor, safras 1996 e 2010

Santa Rita Casa Real, safras 2002 e 2010

Altaïr, safras 2002 e 2010

Casa Lapostolle Clos Apalta, safras 2002 e 2010

Montes Folly Syrah, safras 2000 e 2010

Aproveitei para entrevistar Patricio Tápia, do prestigioso guia “Descorchados”, que nos expõe sua opinião sobre esta evolução, e Suzana Gómez, da vinícola Altair, que chama a atenção para o fato de o novo mundo ter, sim, história. Vejam aqui eaqui no canal winevloggers do youtube.

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Há cinco meses à frente da loja de vinhos Epicerie, uma jovem empresa de vendas on line com um posicionamento de descontos agressivos, promoções relâmpago e baixo mark up, Ari Gorestein, Co-CEO e Co-Founder da empresa, se posiciona contra a arbitrária decisão do Governo de quase dobrar os impostos sobre a comercialização do vinho.

Assim como outros jovens empreendedores do mundo do vinho no Brasil, Ari trabalha com a ideia de tornar a bebida acessível a uma maior parte da população. Basta lembrar da imutável cifra de 2 litros per capta/ano para imaginar o potencial deste mercado.  Porém, assim como todos nós, foi recentemente surpreendido pela notícia do aumento do IVA-ST, que levará a taxação do vinho para quase o de 14,23% para 27,40% na venda para pessoa jurídica em São Paulo. Isso, além de onerar comerciantes e prejudicar consumidores, praticamente acaba com as chances de empresas como sua Epicerie de tornar o vinho uma bebida mais democrática. Já é bem conhecida a sanha tributária e burocrática de nossos governos. No caso do vinho, tais tributos nos obrigam a pagar preços entre os mais caros do mundo. Seja para produto importado ou nacional.

Ari pede a união do setor contra tal medida. Tal união, pregada insistentemente por colegas como Didu Russo no seu grupo de trabalho junto à Fecomercio, é ainda tão distante da realidade que me reservo o direito de dar esta pequena contribuição aqui. Não é do feitio deste blog publicar releases,  cartas ou opiniões de produtores, importadores ou quem seja. Mas o escândalo é tal que passo a palavra a Ari. Abaixo a carta na íntegra.

 Carta aberta contra o aumento do IVA-ST

Caros amigos consumidores e amantes de vinho,

Há pouco mais de um mês, em 29 de junho de 2013, a publicação da Portaria CAT 63 estabeleceu um aumento no Índice de Valor Adicionado Setorial (IVA-ST) que rege o cálculo da Substituição Tributária do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS-ST) incidente sobre bebidas alcoólicas, com exceção de cerveja e chope.

Basicamente, o mecanismo de arrecadação do ICMS-ST antecipa para o primeiro elo da cadeia de distribuição os impostos que incidiriam sobre todos os intermediários que comercializam um item desde sua origem até o consumidor final. Para antecipar o recolhimento do ICMS, o Estado define qual o mark-up (taxa de marcação de preço) médio aplicado pelos comerciantes de um determinado setor.

No caso específico dos vinhos importados, atualmente em São Paulo o IVA-ST da categoria é de 56,91%. Tal coeficiente implica no recolhimento de 14,23% sobre o valor da Nota Fiscal quando uma empresa vende à outra com propósito de revenda (ambas dentro do estado). A portaria CAT 63 estabelece que, a partir de 1º de Setembro, o IVA-ST passará a 109,63%. Este aumento substancial significa que, nas operações de venda entre empresas, o recolhimento passará a 27,40% (quase o dobro do atual).

Ainda não há clareza quanto às drásticas proporções do incremento sobre o imposto, já que as entidades de defesa do setor (notadamente a ABBA) apresentaram à Secretaria da Fazenda estudos de preço de instituto de pesquisa idôneo (FIPE) na tentativa de reverter o quadro.

A lógica que sustenta a sistemática de cálculo do ICMS-ST pressupõe que os mark-ups aplicados pelos diferentes comerciantes em um setor sejam semelhantes. Ora, no caso do vinho, bem se sabe que os preços e margens aplicados nos diversos estabelecimentos variam enormemente. A utilização de um mark-up médio onera aqueles que aplicam margens módicas – que beneficiam o acesso do consumidor ao produto – e favorece aqueles que abusam do bolso de seus clientes.

Face ao possível aumento do IVA-ST, vemo-nos na obrigação de nos manifestar contra a medida. A Epicerie está presente no mercado há cerca de cinco meses e tem como propósito maior democratizar o consumo de vinhos e difundir a cultura desta bebida social e historicamente tão rica ao público brasileiro. Para tanto, desde seu lançamento, a empresa tem concedido aos seus clientes descontos agressivos. Ironicamente, abrindo mão de rentabilidade na venda, vê-se impactada pela mesma alíquota de ICMS-ST de seus concorrentes. Pressupor que o mark-up aplicado pela Epicerie seja de 109,63% – quando de fato é muitíssimo inferior – penaliza gravemente nosso cliente ávido por vinhos acessíveis.

Na esperança de que o setor e os consumidores se mobilizem contra tal aumento draconiano,

Ari Gorenstein

Co-CEO e Co-Founder da Epicerie (www.epicerie.com.br)

E depois não querem que o povo se revolte…

Com a palavra Rage Against The Machine:

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Da esquerda para a direita, os vinhos: Ocio 2009; 1865 Limited Edition Syrah- Cabernet Sauvignon 2007; Coyam 2009
Mauricio Tagliari
De São Paulo

No esforço de consolidar e ampliar as participações no mercado brasileiro de vinho, os chilenos, secundados pelos portugueses foram, neste ano de 2011, os mais ativos divulgadores de sua produção. Inúmeras degustações, apresentações e feiras trouxeram uma grande variedade de rótulos, produtores, novidades, palestras, informações, atestando a riqueza, a variedade e a qualidade da vitivinicultura nestes dois países. Além de estar na moda como escoadouro dos produtos do capitalismo em crise, o Brasil está entre os três principais mercados de exportação dos produtores chilenos. Vou me concentrar aqui em uma das recentes provas de vinhos chilenos que tive a oportunidade de participar.

A Wines Of Chile organizou, há poucas semanas, uma degustação conduzida pelo grande Carlos Cabral no Restaurante Fasano com vinte grandes tintos. Um painel interessantíssimo, que deixou claro o potencial destes vinhos, quase todos ícones de suas casas produtoras. Passeou-se por cepas como malbec, pinot noir, petit verdot, syrah, além das tradicionais carmenere e da dominante cabernet sauvignon. Senti falta da carignan, que vem demonstrando muita qualidade recentemente nos vales chilenos. Acredito ser questão de tempo termos um top chileno desta cepa.

Separei dos vinte, os dez que mais se destacaram, sem ordem de preferência.

Ocio 2009 da Cono Sur é um pinot noir ultrapremium que contrariando a regra é tão elegante quanto seus irmãos mais famosos da Borgonha. Com cor rubi-vermelho intensa, aroma frutado, com notas de cereja e framboesa, toques florais, boca agradável, elegante, de bom corpo, acidez correta e final longo. 14,6% de álcool. Um pinot do novo mundo sem o adocicado exagerado ou excesso de potência. Aposto que vai melhorar em uns 3 ou 4 anos.

Viu 1, 2008 é um daqueles malbecs chilenos para desbancar os vizinhos argentinos. Na verdade é um dos primeiros malbec chileno. Proveniente de vinhedos de 90 anos, de solo aluvial arenoso do vale de Colchagua, produzido pela Viu Manent, tem cor violeta densa, aroma de coco, baunilha e frutas vermelhas, Na boca é macio, fresco, ótima acidez, taninos excelentes, aveludados. Muito persistente. Seus 14,7% de álcool são perceptíveis ao final.

O famoso Pangea 2007, da Viña Ventisqueiro é um tinto de excepcional potencial de guarda. Com 14,5% de álcool, oriundo da prestigiosa região de Apalta, no vale Colchagua, tem enorme concentração de cor, aromas complexos e elegantes de pimenta-do-reino, chocolate e mineral. Na boca é muito macio e equilibrado, num estilo europeu.

A grande surpresa, ao menos para mim, foi este Viña Falernia Syrah Reserva 2007. Passa por maceração a frio, e fermentação malolática completa. Tem 14% de álcool, cor densa e brilhante, aroma floral excelente, com notas de especiarias, chocolate. Na boca é elegante e equilibrado, com grande tipicidade da casta. Corpo médio, taninos macios, frutado e presistência média. Muito bom.

Provando que quem já foi rei nunca perde a magestade, o Dom Melchor 2007, da Concha y Toro (14,5% de álcool) não decepcionou. Um corte de 98% de cabernet sauvignon e 2% de cabernet franc, cor vermelho rubi intensa. Nariz erbáceo, e notas de tabaco, baunilha, couro, floral e fruta. Na boca é macio e elegante. Quente e persistente.

Casa Real 2007, da Santa Rita, 100% cabernet sauvignon e 14,5% de álcool, é um pioneiro entre os grandes do Chile, uma espécie de Barca Velha para os chilenos. E admiravelmente, vem mantendo assombrosa regularidade através dos anos. Vermelho rubi intenso, aromas complexos de frutas vermelhas e negras, toques de tostados e baunilha. Boca ótima, ataque vivo e elegante. Taninos macios, ótima acidez e persistência. Tudo que se espera de um grande tinto.

Zavala 2008 da Viña Tarapacá, um corte de 41% cabernet franc, 31% cabernet sauvignon e 28% syrah, com 15% de álcool, tem cor púrpura de média densidade, nariz frutado e exuberante, bom ataque de boca, taninos macios, quase doces. Sua ótima acidez equilibra muito bem com a grande quantidade de álcool. Bom potencial de guarda.

A Emiliana Organic & Vineyards, considerada a maior vinícola orgâncica do mundo, apresentou seu Coyam 2009, um corte de 12% cabernet sauvignon, 17% carmenere, 3% malbec, 31% merlot, 3% mourvedre e 34% syrah, com 14,9% de álcool. Cor rubi com reflexos púrpura, nariz frutado, toques de chocolate, baunilha, mineral, defumados. Complexo e nada enjoativo. Na boca, boa acidez, corpo médio, elegante, frutado, limpo e de persistência média. Um grande vinho. Tão rico e equilibrado que o álcool elevado não se destaca. E numa faixa de preço convidativa.

Don 2008, da Santa Helena, um corte 85% cabernet sauvignon e 15% petit verdot, é um vinho complexo e de ótima estrutura. Aromas de baunilha, coco, fruta, tostado, boca macia, grande potência e boa acidez. Taninos elegantes, notas de goiaba e frutas vermelhas. Muito bom exemplar.

Fechamos com o 1865 Limited Edition Syrah- Cabernet Sauvignon 2007 da San Pedro, a segunda maior exportadora de vinhos do Chile. Corte de 55% cabernet sauvignon e 45% de syrah, com cor densa, nariz potente, frutado, com toques de couro, tostados, coco, mineral, tabaco e especiarias. Paladar ótimo, macio, equilibradíssimo e elegante. Taninos vivos, agradáveis. 14,5% de álcool.

Os dez vinhos acima são representantes orgulhosos de uma tradição de gigantes que inclui Almaviva e Clos Apalta. Falarei destes em outra oportunidade.

*publicado no terra magazine SÁBADO, 3 DE DEZEMBRO DE 2011, 07H57

e esta vem do chile:

 

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É normal um interlocutor me devolver ironia ao ouvir que estou atrasado e tenho um compromisso com uma degustação. Frases como “ê vida boa” ou “preciso achar um trabalho assim” são lugares-comuns. Evite-as, colega! Não que eu não esteja acostumado com elas. Afinal, trabalho também com música. Todo músico, não importa a idade, sempre escuta daquele velho tio num casamento ou velório: “Mas trabalho, mesmo, você trabalha com o quê?”

Ginecologistas, atores pornô ou fotógrafos da revista Playboy também são alvo desta inveja meio inocente e meio ignorante em rodas masculinas. Para estes invejosos, há o velho ditado mineiro: “Você vê as pingas que tomo, mas não os tombos que eu levo”.

Tudo isso me vem à mente por conta do lançamento do livro Ao Ponto, de Anthony Bourdain (Companhia Das Letras). Desde Cozinha Confidencial, a prosa desbocada, auto-irônica e direta deste ex-chef vem desvendando os mistérios de uma subcultura gastronômica americana. Sua série de TV a cabo Sem Reservas é um sucesso entre foodies do mundo todo. Para quem não conhece, é uma viagem pela culinária mundial, de Hanói até a Sardenha, de Seul até São Paulo, transitando da comida de rua à familiar sem deixar de lado as tradições ou a alta gastronomia.

Por essas e outras, não resisti e mergulhei com avidez no seu novo trabalho. E o que encontrei foi um escritor meio entediado. Ainda com a verve habitual, mas sem a paixão de outros textos ou mesmo distante do tipo brincalhão que encarna no show de TV.

Em certos momentos, isto fica evidente, como ao citar o suposto sofrimento de Ferran Adriá ao girar o mundo e ser obrigado a jantar menus moleculares de vinte pratos em sua homenagem, criados por admiradores medíocres. Ele se projeta em Adriá. E eu até entendo.

Não deixa de ser uma sensação familiar. Nos anos 90, rodei o Brasil tocando com uma banda chamada Nouvelle Cuisine. Sempre fui um interessado em comidas exóticas e regionais. Mas não importava em que cidade do interior do Brasil nos apresentássemos, o jantar/homenagem após o show era invariavelmente no restaurante francês da cidade. E o prato? Linguado à Belle Meuniére. O melhor era a quantidade colecionável de variações ortográficas: alla bela munier, ala bella meunier, a bellle meuner…

Voltando ao tédio, caro leitor e doce leitora, não zombe ou acuse de snob, portanto, o pobre coitado que numa tarde degusta 80 ou 90 rótulos com o objetivo de garimpar algum achado para o consumidor. Basta lembrar que ele tem de enfrentar muito vinho abaixo da crítica (metalinguagem…) e, quando passa por um vinho soberbo, muitas vezes se vê obrigado a cuspir, da mesma maneira que lançou no balde a zurrapa, abrindo mão do prazer em nome da consciência crítica. Só apaixonados persistem nesta lida. Muitos não confessam, mas seguem entediados.

Além disso, escrever sobre bebidas e mais especificamente sobre vinhos é um desafio e tanto. Há quem descreva as coisas ao leitor com poesia quase sempre sem sentido, há quem seja extremamente técnico, falando de acidez, tanino, polifenóis, etc. Quem está mais certo? O leitor que decida. Outra questão que paira é: devemos falar de vinhos acessíveis apenas a milionários, vinhos sem dúvida fantásticos mas com preços estratosféricos, ou apenas responder à eterna demanda do leitor e dos amigos pela dica do vinho bom de R$ 30?

Pessoalmente, opto pelo caminho do meio. Busco sempre dar outras informações além das técnicas, mas sem me perder em devaneios subjetivos. Também procuro citar um rótulo de bom custo-benefício, mas não abro mão de informar o apreciador sobre as qualidades de um super vinho. Vai que ele ganhe na loteria ou receba uma herança…

Eu era um iniciante (dentro da hierarquia dos críticos do ramo, ainda não deixei de sê-lo), mas já assíduo frequentador das degustações de vinho, quando um decano muito simpático me questionou se eu tinha ideia de quantos rótulos já havíamos provado naquele ano. Era mês de junho. Diante de minha expressão de dúvida, ele atirou: uns 2.500! Feitas as contas, calculo que eu tivesse menos da metade da marca dele. Mas mais de mil rótulos em seis meses é um trabalho duro!

Só com tanto esforço e sem se entediar, é possível apresentar ao leitor alternativas interessantes. Vamos aqui falar de opções de grandes chardonnay, por exemplo. Se você é fã de Chablis, a Winebrands traz um maravilhoso Chablis Gran Cru Moutonne Monopole 2006, de Albert Bischot. 25% do vinho faz fermentação alcoólica e malolática em madeira. De cor amarelo-palha esverdeado, aroma floral e de frutas brancas, tem um corpo intenso, potente, untuoso e um final de persistância ótima. Um vinho superlativo que custa R$ 510. Claro que impostos atrapalham. Mas é um vinho caro mesmo na França.

Se você quiser ter uma experiência diferente, porém tão boa quanto, pode tentar o Calyptra Chardonnay Gran Reserva 2007 (wine.com.br). Sua cor dourada e aromas complexos de fruta e tostados combinam perfeitamente com o paladar sedoso, untuoso, com manteiga, mel e algo mineral que de início camufla toda a potência de sua maravilhosa acidez. Muito, muito gastronômico. Grande representante do chileno Vale do Cachoapal alto. Um magnífico terroir que tem gerado vinhos premiadíssimos. E você paga R$ 90 por ele. Aqui, no caso, uma pechincha.

publicado originalmente em 10 DE SETEMBRO DE 2011, 08H02

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