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Archive for the ‘vinhos’ Category

 

Uma noite mal dormida e uma ressaca não seriam bons presságios para uma segunda-feira de manhã. Mas eu tinha uma degustação de Brunello di Montalcino no Restaurante Cantaloup prevista e isto animaria qualquer mortal que gostasse de vinhos. Seriam dois flights de 11 vinhos cada. Rosso  e Brunello. Coisa séria. Degustação feita, explanações, colegas de alto nível, serviço impecável, opiniões divergentes, alguns amando e outros decepcionados.

Safras de 2011 dos Brunello. Um ano não tão perfeito. Bem, todos tinham um pouco de razão. Alguns exemplares deixaram a desejar. Infanticídios foram cometidos. Mas não se pode negar que também havia uma ou outra joia. O principal é notar uma mudança no perfil dos vinhos da região. Buscam ser consumidos mais cedo. Estar mais prontos. Nem sempre acertam. Alguns ficam no meio do caminho em busca de um perfil novomundista que o novo mundo anda abandonando. Mas todos trazem a coloração translúcida bem clara, aromas frutados, paladar com boa acidez e taninos cheios de personalidade. Boas expressões do clone da Sangiovese da região. A maioria dos vinhos não está no mercado brasileiro, ao menos não esta safra.

De lá fui experimentar as novidades da Vinícola Aurora, no Figueira Rubayat. E que alegria ver a constante evolução do vinho brasileiro. O lançamento mais destacado é espumante brut feito com método tradicional que passa 24 meses em contato com as leveduras. Insisto que este tipo de vinho é a vocação do Brasil. Espumante de alta qualidade com preço bem competitivo. A linha Pequenas Partilhas traz um cabernet franc e um tannat de se beber cheio de certezas no potencial do vinho brasileiro!

Mas o melhor do dia foi a noite. Para quem gosta de jazz, ou melhor, de free jazz, não poderia haver lugar mais certo para se estar do que no Jazz B, no centro de São Paulo. O quarteto do saxofonista Thiago França simplesmente inebriou, com a ajuda de uns goles de cerveja IPA artesanal, a plateia.

Formado por Thiago no sax alto, tenor e flauta, Amilcar Rodrigues no flugel e trompete, Marcelo Cabral no baixo acústico e Mariá Portugal na bateria, o quarteto fez dois sets com um intervalo de meia hora. Música fluindo do jeito que eu gosto. Todos se ouvindo e interagindo. Deu vontade de estar lá tocando junto. Esperando a deixa.

Preparem-se. Tenho de avisar ao mundo que Mariá Portugal, do Quarta B, está pegando o gosto pelo freejazz! E sai de baixo. Vejo shows de jazz há uns quarenta anos. Mariá é provavelmente a baterista mais criativa, espontânea e original que já vi. Seu sorriso contagiante, sua energia, humildade e simpatia são bônus.

A inventividade, o fluxo de ideias musicais, a precisão, o repertório, a entrega são cativantes. Um show à parte. Sei que vou me arrepender de ficar escrevendo assim, pois vai ficar cada vez mais difícil contar com a requisitadíssima Mariá para os meus projetos, mas que posso fazer? Que segunda-feira inesquecível.

 

 

 

 

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um ótimo anselmo mendes

um ótimo anselmo mendes

Os europeus, principalmente franceses, mas também alemães, espanhóis, portugueses e italianos, são considerados os patriarcas do negócio moderno de vinhos. As regulamentações, as denominações de origem, os critérios técnicos mais exigentes e os rótulos paradigmáticos surgiram nesta parte do velho mundo. São resultado de pelo menos 2 mil anos de produção e evolução técnica consistentes.

O resto do mundo produtor, Américas, África do Sul, Austrália e companhia, incluindo a China, começou a se organizar mais tarde. África do Sul e Chile já produziam vinho no século XVI. Mas sua presença no mercado mundial é de fato recente. Por conta disso, o produtor do novo mundo tem certa liberdade.

Um produtor da Borgonha tem de usar uvas pinot noir e chardonnay. Quando muito, uma aligoté. Já o produtor do novo mundo planta e vinifica o que quiser, basicamente. Ele procura apenas o vinho que lhe agrade e que obtenha a aprovação dos consumidores.

Hoje se desenha um movimento contrário. A maioria dos produtores mais sérios de Argentina, Chile e até mesmo Brasil busca a identificação com seu terroir. Quer solidificar os melhores resultados através de um leque restrito de castas, descrevendo cada parcela de vinhedo com precisão científica. Ou seja, acelerar o  processo de séculos que levou o velho mundo para criar suas regulamentações.

A curiosidade é que o “velho mundo” do vinho também tem suas surpresas e quer se libertar.

Veja Portugal, por exemplo. A mais antiga zona demarcada do mundo foi a do Vinho do Porto. Nem por isso a burocracia enológica engessou completamente o resto do país. Experimentações cada vez mais interessantes surgem aqui e ali. Depois da revolução dos vinhos da Bairrada, capitaneada por Luís Pato, da entrada em alto estilo do Douro no mercado dos vinhos tranquilos de alta gama, com os Douro Boys, e toda a avalanche novidadeira do Alentejo, chega a vez dos Vinhos Verdes.

Antes de mais nada, vamos esclarecer que Vinho Verde não é verde. É o nome de uma região do Minho, extremo norte de Portugal, que tem uma vegetação exuberante. Daí a nomenclatura. O Vinho Verde pode ser tinto ou branco.

No passado até recente, era visto como um vinho simples e barato. A verdade é que sua grande maioria ainda o é. São vinhos que trazem a chamada agulha, um leve frisante, devido a um residual de gás carbônico na fermentação. Os brancos, geralmente das uvas alvarinho, loureiro e avesso, são leves, pouco alcoólicos e simples. Os tintos, baseados principalmente na casta vinhão, apresentam-se selvagens e agressivos.

Já ouvi de críticos renomados que o Vinho Verde é um gosto adquirido. Exagero. Mas foi preciso que um enólogo mais ousado e inquieto liderasse seus pares a um novo patamar. Seu nome é Anselmo Mendes.

Metodicamente, Anselmo iniciou há uns vinte anos sua pequena revolução particular. Desde o princípio seu objetivo nada modesto foi o de produzir Vinhos Verdes do nível dos melhores Borgonha. Primeiro, melhorou os vinhedos. Segundo passo, caprichou na seleção das uvas e na vinificação. Experimentou com madeiras novas e usadas.

Sua recompensa chegou. Os brancos por ele apresentados em sua última passagem por São Paulo comprovam a qualidade dos resultados alcançados. Alguns varietais, outros de  cortes tradicionais, mas todos com uma ótima acidez, muito equilíbrio, elegância, complexidade e sutileza. Perfeitos para acompanhar peixes e frutos do mar.

Um toque cítrico é sempre presente. Floral, frutado e mineral se revezam. Ora flor de laranjeira, ora grapefruit, a depender da varietal. Mas o que chama a atenção é a persistência e a estrutura dos vinhos. Anselmo afirma que os seus devem ser guardados entre cinco e dez anos para evoluírem bem. Arrisco dizer que alguns podem esperar mais um pouco. Quinze ou vinte anos. Uma façanha para brancos em geral e anos-luz da fama do Vinho Verde.

O vinho que mais me agradou foi o Alvarinho Parcela Única 2013, fermentado em barricas usadas em contato com as borras por nove meses. Tem cor palha límpida com reflexos verdes. É o caráter mais mineral de toda a linha. Sápido, gordo, equilibrado, leve cítrico, herbáceo e austero. Surpreendentemente, um certo petrolato fez lembrar um grande riesling alemão.

Se Portugal tem suas chicanas e caminhos alternativos, como faria um francês para experimentar?

Bem, antes de tudo, tem de fugir da Borgonha e de Bordeaux. O Languedoc, no sudoeste francês, entre os Pirineus, o Mediterrâneo e o Atlântico, foi a porta de entrada da cultura romana dos vinhos. Historicamente, é um importante produtor. Mas acabou desbancado pelas regiões mais famosas. Ali cultivam-se syrah, caringnan, grenache, mourvédre e viogner, entre outras. O perfil é mais latino e mediterrânico. Um pouco espanhol, um pouco mais anárquico e mais livre que no resto da França.

O tradicional Domaine Paul Mas se modernizou nos últimos doze anos e hoje produz 2 milhões de caixas. O grupo começou com uma vinícola e hoje tem nove. A história recente começa quando do boicote americano a produtos franceses devido à recusa destes em participar da Guerra do Golfo.

Esses franceses irreverentes apostaram numa piada e criaram uma linha de vinhos chamada Arrogant Frog. Assumiram o ancestral apelido “frog” (sapo) dado pelos ingleses e, melhor ainda, riram de sua fama mundial de arrogância ao adotar um nome em inglês no rótulo de um vinho francês. Coisa típica de novo mundo.

o humor francês do arrogant frog

o humor francês do arrogant frog

Não poderiam ter feito melhor. A linha hoje vende 5 milhões de garrafas/ano e responde por 25% das vendas. A razão para tamanha aceitação, claro, está em ser um vinho com qualidade consistente e preço bastante acessível, R$ 79. Para se ter uma ideia, é o terceiro rótulo francês mais vendido nos supermercados brasileiros. Com certeza, muito melhor que os dois líderes.

Outros rótulos de Paul Mas que me agradaram muito foram seu Mas de Mas Picpoul de Pinet 2013 (R$ 99), um branco sem madeira que passa quatro meses sobre as leveduras, e o ótimo Mas de Mas Terrasses Larzac 2010 (R$ 177). Este último é um corte de 40% syrah, 35% mourvédre, 20% carignan e 5% grenache que passa oito meses em um mix de barricas francesas novas, de segundo e terceiro usos. Sua cor rubi encanta e o nariz sedutor lembra a garrigue, aquela vegetação arbustiva típica do sul da França, recheada de aromas florais e herbáceos, ressecada e intensa. Seus taninos são macios e têm uma persistência excelente.

Paul Mas consegue produzir vinhos com caráter francês bebíveis por quem está acostumado aos vinhos chilenos e argentinos.  O velho mundo se arrisca e brinca de novo mundo.

 

* vinhos importados pela Decanter 

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Masterclass é um termo algo desgastado entre aqueles que acompanham os movimentos do vinho no Brasil. Toda semana, parece que há uma nova dessas sessões sobre um assunto qualquer. Nem sempre foi assim. Lembro-me de umas das primeiras a que assisti e que, sim, fizeram a diferença sobre como aprecio e entendo os vinhos. Foi a primeira vez em que Pedro Parra, o geólogo chileno especialista em terroir, apresentou-se por estas bandas. Ele abriu meus horizontes no quesito importância do solo para o vinho. Vieram outras masterclasses. Algumas bem interessantes, outras mais ou menos.
Recentemente, contudo, o termo adquiriu um novo vigor. A Wines Of Argentina proporcionou mais que uma degustação, um verdadeiro aprofundamento no pensamento atual da enologia do novo mundo. Ouvir Alejandro Vigil falar de suas descobertas, Daniel Pi descrever vinhos premiados e Sebastian Zuccardi mostrar seu entusiasmo com o futuro dos vinhos argentinos foi uma oportunidade rica e prazerosa.
É ótimo saber que o gradiente de temperatura de Gaultallary é semelhante ao da Borgonha, puxando mais para o frio. Que Agrello lembra mais Bordeaux e Napa em seu clima temperado. E que Lulunta emula a Côte du Rhône, mais quente.
Alejandro Vigil comentou sobre as 2 mil microvinificações-teste em andamento na Catena e explorou as possibilidades de chardonnay e cabernet franc. Deixou claro que a Argentina ainda tem muito tempo de malbec pela frente, mas não deve se ater somente a esta cepa. O momento é de descobrir mais a geografia e outros fatores. Dado positivo, outros winemakers pensam igual. Há muito o que fazer.
Nesta busca, elegeram a altitude, entusiasmados com o gradiente de temperatura, mas descobriram que a insolação UV é um fator mais importante. A combinação de temperatura X solo X altitude X rendimento cria possibilidades ótimas para a chardonnay, por exemplo.
Para provar suas teses, Vigil mostrou três brancos de três alturas distintas que usam a mesma vinificação e a mesma madeira. Mudam apenas as datas de colheita, em busca de um grau alcoólico máximo de 13,5%. Ainda não engarrafados, foram trazidos especialmente para a ocasião. O primeiro, de solo calcáreo cultivado a 1.450m, é mineral, seco, fresco e com cara de limonada. Tem um leve floral. O segundo, de solo pedregoso a 1.100m, sofre stress hídrico e é mais gordo. O terceiro vem de solo argiloso profundo, a 800m. Tem mais tostado, é mais amargo e pesado, com aroma frutado.
Completou a demonstração com quatro cabernet franc 2010 que trouxe de gualtallary (1500m) de solos diferentes, mas muito próximos (60m de distância). Todos foram vinificados em barris novos e colocados seis meses em fudres velhos.

A diversidade do terreno se mostrou assim:
Vinho 1. De solo argiloso profundo e boa umidade. Tem aroma de fruta, pimenta (piracina), na boca taninos  firmes, acidez clara e agradável.
O segundo, de terreno com pedras aluvionais e calcáreo, tem nariz mineral e na boca muita fruta, taninos macios e acidez ok.
O terceiro, de solo pouco profundo, com apenas  25 cm (uma capa de pedra impede a raiz de passar), apresenta nariz de chocolate, floral, rico, parece ter mais madeira e lembra algo do loire. A boca traz  tanino doce, acidez ok.
O quarto, de solo calcáreo, exibia café no aroma. Na boca é sápido e de boa acidez, com corpo médio.Foi uma aula de diversidade. Vinhos tão diferentes, feitos com a mesma uva, da mesma maneira e de vinhedos tão próximos, comportam-se diferentemente e com altíssimo nível.

Sebastian Zuccardi, por sua vez, tratou com autoridade do tema da latitude. Ele defende que os argentinos são vinhos de montanha, pois clima, solo e água dependem da cordilheira. Mendoza é um deserto em altura. Pouca água e muita luz. Dos terroirs de Mendoza, só 3% são cultiváveis, pois falta água. Sebastian trouxe bonardas e malbecs de várias regiões para demonstrar as diferenças de latitude. Esses vinhos não vão para o mercado da forma como os provamos. São usados em cortes da Zuccardi. Portanto, uma oportunidade única de comparar as regiões de Mendoza.
Partindo de vinificações iguais, em tanques de cimento sem revestimento de epoxi (safra 2013), usando  boa parte das uvas com razimos inteiros pra trazer taninos, Sebastian empregou apenas barrica de terceiro e quarto usos. Seu desafio, sabiamente, é diminuir dulçor.  Aqui, bem resumidamente, descrevo as diferenças.
Bonardas
Santa Rosa.  650m, solo mais profundo, sem pedras, 13,5% de álcool. No nariz mais fruta, na boca sobressai o álcool e o tanino é potente.
Altamira. 1.100m, solos aluvionais, muitas pedras com carbonato de cálcio, 13% de álcool. Nariz tem tostado e na boca, bom corpo e fruta potente
San Jose. 1.400m, solo aluvional, pedras menores, sem carbonato, 12,5% de álcool. Nariz elegante e palato com boa acidez, fruta e leveza
Malbec
La Consulta 2013. 900m. Cor intensa, nariz elegante, complexo, floral, mineral, frutas negras. Macio na boca, taninos doces, acidez ótima, corpo médio, persistente, muito potencial.
Vista Flores 2013. 1.100m. De terreno pedregoso. Cor intensa. Aroma floral, de fruta negra, mineral, especiaria, rosa e no palato é macio, com tanino doce, ótima acidez, equilibrado e longo.
Altamira 2013. Sul do vale de Uco, num terreno com muito carbonato. Nariz potente e rico, tanino macio, doce e bom corpo.
Gualtallary 2013. Norte de Uco, região também com muito carbonato. Sebastian exibiu fotos onde se vê que a raiz da videira abraça  a pedra de uma forma interessante. Aromas de tomate, taninos doces, acidez limpa e agradável, clara, corpo leve, fresco e mais curto que os outros.
Em um próximo post, comento a degustação dos vinhos do Argentina Premium Tasting.

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Recentemente, fomos premiados com a apresentação de duas escolas de enologia de Portugal, de certo modo tão diversas entre si que quase seria possível imaginá-las originadas de diferentes povos.

De um lado, a jovem Denominação de Origem dos Vinhos do Tejo (leia sobre eles nesta coluna do ano passado), que, com esforço notável, tenta ocupar um merecido espaço no mercado mundial e no brasileiro em particular. Para isso, mudaram o nome de DOC Ribatejo para DOC Tejo, investiram em qualidade, tecnologia e, claro, em marketing. São produtores honestos, algumas vinícolas familiares e, no trato pessoal, guardam ainda um ar provinciano que tem seu charme. Circunspectos, quase paroquiais, porém acolhedores.

Com tais modos tímidos, já desembarcam em terras brasileiras 400 mil litros (dados de 2010), produzidos nos 285 mil hectares de uma região de solo basicamente arenoso e argilo-calcáreo, cortada pelo rio Tejo e por três serras, Aires, Candieiros e Montejunto, com grande influência marítima. Classificam-se três terroirs: Bairro na margem direita do rio, Charneca na margem esquerda e Lezíria, adjacente ao rio e com solo de aluvião.

Paradoxalmente, oriundos da mais antiga Denominação de Origem do mundo, o DOC do Porto, vieram os Douro Boys, um grupo de produtores formado por João Ferreira (Quinta do Vallado), José Teles (Niepoort), Tomás Roquette (Quinta do Crasto), Cristiano van Zeller (Quinta do Vale D. Maria) e Francisco Olazabal (Quinta do Vale Meão). Douro Boys porque apostaram na produção de vinhos tranquilos de uvas oriundas das encostas do rio Douro, antes destinadas somente, ou principalmente, para a produção de Vinhos do Porto.

Os Douro Boys são cosmopolitas, poliglotas, expansivos, ousados e oriundos de famílias afluentes, influentes e atuantes no mundo do vinho há séculos. Produzem vinhos que são verdadeiros ícones e já fazem parte da moderna história do vinho português. Seu masterclass se transforma numa mescla de degustação e stand up comedy, tal a desenvoltura do grupo. Nada mais contrastante do que a comparação com o povo do DOC Tejo.

Os vinhos, porém, mostram outras características. Se em cada uma das regiões cultivam-se até cinquenta das trezentas castas presentes em Portugal, no Douro as variedades tintas se destacam. Seus vinhos são potentes, cheios de fruta, longevos, digamos, mais senhores de si. Muitos de seus vinhos são tributários de vinhas velhas onde às vezes há uma variedade de até 40 castas misturadas, sistema utilizado no passado para manter a média de produção.

Provamos 22 rótulos, e meus destaques são estes:

Redoma Reserva Branco 2009 (Cantu 11 95792805), de vinhas velhas, tem castas como rabigato e viosinho. Traz aroma de flores brancas, mineral e leve mentolado.

Quinta do Vale Meão 2008 (Mistral 11 33723415) traz touriga nacional, touriga franca e outras cepas. Nariz potente, complexo, faz a pisa a pé e fermentação malolática em barrica. Oriundo de vinha fornecedora do mítico Barca Velha.

Quinta do Vallado Reserva Field Blend 2008 (Cantu 11 95792805), vinhas velhas e mescladas. Um gigante, elegante, com aromas leves de fruta, complexidade no nariz e na boca. Taninos suaves e acidez perfeita. Longo e delicado.

Quinta do Crasto Touriga Nacional 2009 (Qualimpor 11 51814492). Produzido só em anos excepcionais. Aroma potente, floral, frutado. Acidez e taninos irrepreensíveis. Na boca, frutas negras e vermelhas. Persistência média.

Niepoort Charme 2007 (Mistral 11 33723415) lembra um borgonha. Com leves tostados, floral, equilíbrio e um ótimo final. Muito gastronômico.

Já os goles do Tejo são muito variados. Podem ser brancos estruturados mas com ótima acidez, rosés quase tintos porém extremamente divertidos, e muitos elogiáveis tintos. Aventuram-se pelos espumantes sem fazer feio, também.

Meus velhos conhecidos Oceanus e Ikon, da Casa Fiuza, (Vinea 11 3059-5200) citados na coluna do ano passado não decepcionaram. Cada um em sua faixa, são excelentes.

A descoberta foram os vinhos da Quinta da Lapa (Azavini 21 22748819). Seu Reserva 2008 venceu o luso Concurso Nacional de Vinhos Engarrafados na edição 2010. Mas meu preferido foi seu Branco Colheita Selecionada 2010, com notas cítricas, estruturado, agradável e persistente.

Outro achado, o Terra Silvestre 2010 Branco, tem um corte de arinto e fernão pires, cor de palha com reflexos esverdeados. Aroma sutil e, na boca, muita maciez e ótimo frescor. Seu irmão Terra Silvestre 2009 Tinto também demonstra enorme personalidade.

Os últimos dois vinhos ainda não são importados para o Brasil. Mas, pela sua qualidade, a espera não deve ser grande.

O Douro, contido em suas margens sólidas e íngremes, ou o Tejo, se espalhando e inundando as planícies transmitem , sem sombra de dúvida, são metáforas das características e da personalidade de seus vinhos. Tamanha variedade só vem reforçar a posição lusa no ranking das importações brasileiras, ultrapassando os vinhos italianos e ficando atrás apenas de argentinos e chilenos.

*publicado originalmente no terra magazine em 30 DE JULHO DE 2011, 08H15

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Os vinhos portugueses Montaria 2010, Porta da Calada 2010 e Baron de B branco 2009

A ViniPortugal promove anualmente um concorrido evento chamado Vinhos de Portugal. Quase perdi o deste ano. Emails não recebidos, chuva e ventos acima da média, trânsito titânico e lá estava eu chegando ao local com apenas mais uma hora para desfrutar as maravilhas das terras lusas.

Pouco tempo, fila para estacionar, muvuca e muitas opções de produtores e importadores. Que fazer? Apesar das usuais dicas de colegas de que tal vinho “é imperdível”, aquele outro “ganhou 200 pontos do Parker” , “este é o vencedor do teste de hoje, etc.”, minha opção foi o que se pode chamar de impressionista/oportunista.

Os produtores com menos fila, mais desconhecidos, me chamam à aventura. E quase sempre a aposta é recompensada. Há alguns anos, foi assim que conheci um dos vinhos portugueses de que mais gosto, ainda sem importador no Brasil, o Marka da Durham-Agrellos.

E da mesma maneira provei alguns grandes vinhos nesta semana. Alguns mais pretensiosos e caros. Outros mais “realistas”. Entre estes me chamaram a atenção os vinhos trazidos por uma pequena e jovem importadora. Diria uma “importadora de garagem”: Adega dos 3 (www.adegados3.com), formada por duas brasileiras e um português, que se propõe a importar apenas “achados” de qualidade oriundos de pequenos produtores e ficar numa faixa de preço de até R$ 100. Enfim, o sonho de muito consumidor.

Os vinhos que provei são três alentejanos:

Montaria 2010, da zona de Estremoz, este corte de trincadeira, aragonez e alicante bouschet, que não passa em madeira, tem cor rubi translúcida, aroma de frutas intenso e notas de tabaco. É muito agradável na boca, com taninos muito bons. Cai bem tanto num bate-papo quanto numa refeição descompromissada. Deve custar aproximadamente R$ 24,00.

Outro tinto interessante é o Porta da Calada 2010. Leva aragonês, trincadeira e syrah. Cor vermelho vivo, aromas de ameixas e especiarias. Boca equilibrada, com bom corpo e acidez. Taninos domados, apesar da juventude. Sai por ótimos R$ 28,00.

O vinho mais interessante, porém, é Baron de B branco 2009, produzido com a casta antão vaz. Um reserva fermentado em barricas novas de carvalho francês e que passa por 8 meses de battônage. Sua bela cor âmbar claro, com reflexos verdes e amarelos, promete já um vinho especial. Mas seus aromas é que realmente nos surpreendem. Com toques de cravo e frutas brancas, na boca tem o corpo e a untuosidade de grandes brancos do novo mundo. O que pode não agradar um apreciador de leves europeus. Apesar disso, mantém frescor, elegância e uma complexidade importante. O preço um pouquinho mais salgado do que os outros: R$ 85,00. Mas não é definitivamente um vinho de entrada e sim de uma gama superior. É para harmonizar com um prato mais, digamos, complexo. Os três vinhos devem estar disponíveis no mercado brasileiro em outubro. Aguardemos os resultados da Adega dos 3.

Outra novidade é a Tambuladeira (www.tambuladeira.com), outra empresa, desta vez portuguesa, com uma proposta parecida para exportação, mas uma gama maior de vinhos e de regiões representadas. Não tenho os preços nem previsão de estreia no mercado nacional.

Destaco deles uma curiosidade do Douro, o Bétula, um corte de sauvignon blanc e viogner. Muito interessante, com ótimo frescor e aromas provenientes da sauvignon blanc, somados ao corpo e força da viogner. Um vinho no mínimo diferente.

Outro vinho que agradou foi o rosado Rovisco Garcia 2009, do Alentejo. Um corte de aragonez, syrah e touriga nacional, com cor salmão, aroma frutado e um paladar muito fresco. Escapando ao padrão de rosés do novo mundo e península ibérica, geralmente mais encorpados e de sabor muito forte, este é delicado, elegante e lembra o estilo do sul da França.

Mais uma vez, Portugal prova que ainda guarda um enorme potencial de surpresas. Que aportem por aqui.

*publicado originalmente no portal terra magazine

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O vinho brasileiro – 2

Na semana passada, comentei sobre os progressos do vinho brasileiro, mas fiquei devendo discorrer sobre a D.O. Vale dos Vinhedos. O conceito de Denominação de Origem é consequência direta da ideia de Indicação Geográfica, que por sua vez se baseia no fato de que vinhos de diferentes regiões, elaborados com a mesma tecnologia, apresentam-se distintos, com características próprias.

Some-se a isso a experiência continuada que mostra as cepas mais adequadas, as que valorizam as peculiaridades das diferentes regiões de cultivo e a experiência humana, traduzida em técnicas de plantio, manuseio, colheita e vinificação. Uma D.O. exige mais do produtor. É, em tese, um diferencial de qualidade.

O Vale dos Vinhedos obteve em 2002 o reconhecimento como Indicação Geográfica e será também a primeira região com Denominação de Origem (DO) de vinhos no País.

A partir de 2011, após ultrapassados alguns detalhes burocráticos, com o reconhecimento do Vale como Denominação de Origem (DO), alguns dos produtos deverão obedecer a regras mais específicas em relação à produção da uva e à elaboração do vinho.

Sua norma estabelece que 100% da produção de uvas e o processamento da bebida sejam realizados na região delimitada do Vale dos Vinhedos. Localizado na Serra Gaúcha e inserido no encontro dos municípios de Bento Gonçalves, Garibaldi e Monte Belo do Sul, reúne o legado cultural e gastronômico dos imigrantes italianos veneto-trentinos, que chegaram à região em 1875.

Muitas serão as exigências. A DO também apresenta regras de cultivo, produtividade máxima, gradação alcoólica e de processamento mais restritas que as estabelecidas para a Indicação de Procedência (IP), em vigor até a obtenção do registro da DO, outorgado pelo INPI em 2011. A colheita será obrigatoriamente feita manualmente.

As castas autorizadas são apenas Merlot, Cabernet Sauvignon, Cabernet Franc e Tannat, Chardonnay , Riesling Itálico e Pinot Noir. Esta última para espumantes.

Foto: Gustavo Kauffman

Os tintos varietais devem ter um mínimo de 85% de merlot, a cepa que vem se notabilizando ultimamente pelos resultados de alta qualidade na região. Em blends, o percentual mínimo de merlot cai para 60%. A comercialização somente poderá ser realizada após um período de 12 meses de envelhecimento.

Os brancos varietais serão 85% chardonnay e os blends devem ter 65% desta cepa. Os espumantes de chardonnay ou pinot (mínimo de 60%) devem ser elaborados pelo método tradicional com segunda fermentação em garrafa, que deverá constar no rótulo principal, nas classificações nature, extra-brut e brut.

Há quem critique a iniciativa, pois, por se tratar de uma região relativamente jovem para os padrões enológicos, seria muito cedo para definir regras tão restritivas. Haveria muito ainda a explorar. Cepas e técnicas. Ouvi de muitos produtores europeus que adorariam não ter tantos limites como os impostos por suas DOC. Seria uma troca da liberdade e criatividade pela camisa de força de regras nem sempre úteis ou benéficas. Como colocar um adolescente numa escola militar!

Exageros à parte, o fato é que ninguém é obrigado a fazer todos os seus vinhos dentro da DO vale dos vinhedos. Os produtores podem testar as vantagens e desvantagens da DO com alguns vinhos, impor-se este desafio e ainda experimentar fora da DO. Vejam o exemplo radical do Pizzato Egiodola Reserva 2004. Feito com esta rara uva francesa, cruzamento das cepas Fer Servadou e Arbouriu. Um vinho bem diferente, muito tânico, que revela um potencial interessante de guarda.


Foto: Gustavo Kauffman

Mas para quem está cansado deste assunto burocrático, a boa notícia é que, no jantar/degustação oferecido na vinícola Pizzato, a impressão deixada pelos vinhos da DO foi excelente. Os espumantes dispensam comentários. Faria um destaque aqui justamente para os menos conhecidos: Peculiare Merlot 2009 e Terragnolo Merlot 2009. Este último, de uma minúscula vinícola, artesanal e familiar.

Foto: Gustavo Kauffman

Foto: Gustavo Kauffman

Ambos são vinhos de excelente qualidade, com estrutura e aromas ótimos. Elegantes e agradáveis. Não tive acesso ao preço. Mas sabemos que a famigerada substituição tributária no estado de São Paulo maltrata o produtor e o bolso do consumidor. Imagino que chegarão, se chegarem, à faixa dos R$ 90. Mas vale arriscar.

A lista dos outros vinhos (todos muito bons) aptos a serem classificados como DO Vale dos vinhedos é:

Almaúnica Reserva Merlot 2009
Casa Valduga Chardonnay Gran Reserva 2009
Dom Cândido Documento Merlot 2009
Don Laurindo Reserva Merlot 2009
Miolo Cuvée Giuseppe Merlot/Cabernet Sauvigon 2009
Miolo Cuvée Giuseppe Chardonnay 2009
Espumante Brut Miolo Millésime 2009
Espumante Pizzato Brut
Pizzato Chardonnay 2009

Um detalhe importante para o consumidor é que os vinhos com D.O possuem identificação gráfica impressa no rótulo frontal e no contrarrótulo. Numa próxima vez, falarei de outros vinhos raros brasileiros.

* publicado originalmente no portal terra magazine

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Angelo Gaja é, além de um gigante do vinho mundial, um grande entertainer. Quem esperaria, em 2011, que uma degustação começasse com um balanço de prós e contras dos sistemas comunista e capitalista? Quem imaginaria uma palestra de quase duas horas na qual o grande produtor dissesse logo de cara estar cansado de enfiar o nariz no copo e preferir falar de história? Ou que comparasse cabernet sauvignon a John Wayne e nebbiolo, a Marcello Mastroianni?

Pois foi o que aconteceu no encontro comemorativo dos cinquenta anos de carreira deste profissional que é uma verdadeira lenda da enologia. Provavelmente o mais renomado produtor italiano, único quatro estrelas do guia Gambero Rosso, Gaja esbanja carisma ao lidar com seus interlocutores. É um depositário de histórias e testemunha da grande transformação ocorrida nestes anos num mercado que está entre os mais dinâmicos e globalizados.

Ao assumir a propriedade da família em 1961, aos 21 anos, herdou já uma rica tradição de qualidade. A família Gaja começa a produção vinícola no Piemonte em 1859. Por volta de 1905, inicia uma filosofia de só engarrafar vinhos de alta gama, inspirada na avó de Angelo, Clotilde Rey, de cultura mais elevada num meio camponês. Com isso, logo cedo a marca Gaja torna-se muito respeitada.

Angelo estudou Economia na Itália e Enologia, na Itália e na França. Introduziu inovações tecnológicas importantes e se tornou um paladino da uva nebbiolo. Foi dos primeiros a produzir Barolo de vinhedos únicos. Seus Barolos e Barbarescos elevaram esta casta piemontesa a níveis nunca alcançados antes. Foi também o responsável por levar os vinhos da casa para fora da Itália.

Não satisfeito, em 1994 expandiu sua área de ação para a Toscana, explorando primeiro a sangiovese em Montalcino, com seus Brunellos, e finalmente, em 1996, o terroir dos supertoscanos, Bolgheri, onde planta cabernet sauvignon, merlot e cabernet franc.

Defensor da artesania do vinho, ao mesmo tempo elogia (não sem uma ponta de ironia, a meu ver) Robert Mondavi, a quem chama de mestre, por ter criado vinhos excelentes acreditando sempre na expansão da produção com qualidade, o que teria elevado o nível do consumidor. Mondavi, inventor também do turismo vinícola de massa, seria, segundo Gaja, o professor de todo o novo mundo do vinho. O que não é pouca coisa.

Polêmico, desde 1996 mudou a apelação de todos os seus Barolo e Barbaresco de single vineyard para Langhe Nebbiolo D.O.C. por acreditar que as colinas de Langhe seriam um terroir destacado. Desde então vem plantando também castas estrangeiras nestas terras.

Entre arquitetura, preservacionismo, política trabalhista e piadas, Angelo Gaja cumpriu sua palavra de não falar de aromas e sabores, deixando esta tarefa para nós, apreciadores. Só nos resta, portanto, cumprir nossa parte.

Começamos com o Alteni di Brassica Langhe Sauvignon Blanc 2008 (Mistral, U$ 197,50). Um vinho macio e denso, com a madeira muito bem trabalhada. Corpo e acidez muito equilibrados. Um dos melhores desta casta que já provei.

Ca’Marcanda DOC Bolgueri 2006 (Mistral, U$ 269,50) 50% merlot, 40% cabernet sauvignon e 10% cabernet franc. Este supertoscano de minúscula produção traz fruta, ótimo corpo, equilíbrio e persistência. Dois vinhos superlativos e ainda não chegamos na sua especialidade, a uva nebbiolo.

Mas aqui está ela. Barbaresco 2005 (Mistral, U$ 390,45) é um ícone da casta na região. Aroma complexo, rico de frutas do bosque, alcatrão e com paladar muito vivo. Elegante, potente e com os taninos vibrantes. Persistente e deve evoluir muito ainda.

Sperss Langhe Nebbiolo 2005 (Mistral, U$ 525,90) com 94% de nebbiolo e 6% de barbera, é um single vineyard da região de Barolo. Seu aroma é profundo e lembra, além de frutas vermelhas, algo mineral. Ótima estrutura e taninos maduros muito agradáveis.

Brunello di Montalcino Sugarille 2000 (Mistral, U$ 329,50). Se algo pode ser dito sobre este vinho, é que demonstra elegância e classe. Uma verdadeira redenção em meio à oferta de Burnello de alto preço e qualidade duvidosa. Este é um puro-sangue. Complexo e estruturado, é sedoso e macio na boca. E pode evoluir.

Angelo Gaja promete ter sido esta sua última viagem profissional ao Brasil, algo compreensível para uma pessoa de sua idade, apesar de sua vitalidade ser assombrosa. Gaja jura que não vai se aposentar, apenas transferir a parte comercial a sua simpática filha Gaia, que já esteve no Brasil para representá-lo. Que assim seja. Ele cuida dos vinhos. E sua filha o representa. Mas sentiremos falta de sua verve e bom humor.

*publicado originalmente no portal terra magazine.

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