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Espumante Salton Paradoxo, um charmat da Campanha Gaúcha.

Espumante Salton Paradoxo, um charmat da Campanha Gaúcha.

A Vinícola Salton completa 105 anos. Não muitos se comparados aos de alguns produtores do velho mundo, mas uma marca e tanto quando se pensa em uma história brasileira de adversidades. Junto com Miolo, Valduga e Aurora, a Salton representa a herança dos primeiros colonos italianos a se estabelecerem na Serra Gaúcha.

Seu início com o “conhaque” Presidente e depois com a popular linha Chalise foi turbinado pela força do rádio. Presidente patrocinou o futebol da Bandeirantes por anos a fio. E os engraçadíssimos jingles de Chalise devem ter conquistado fãs pelo Brasil todo.

A produção de vinhos iniciou-se ainda nos anos 1930. E desde os anos 1990 a empresa familiar vem guinando incansavelmente e com sucesso para a seara dos vinhos finos. A participação do conhaque Presidente ainda rende, pasmem, 30% do faturamento. O Chalise recolhe-se para seus 10%. Mas a linha de espumantes, aposta que começou mais seriamente nos anos 2000, já chega a 35%.

Hoje a empresa é comandada por uma nova geração que inclui as irmãs Luciana, Estela e Julia. A busca de inovação, respeitando os valores do passado familiar, é evidente em todos os produtos da Salton.

Seus vinhos de mais alta gama, da série Gerações, são homenagens a antepassados queridos, historicamente envolvidos com o crescimento da empresa.

O Salton Gerações Antonio “Nini” Salton (R$ 120) é um corte de cabernet sauvignon, merlot, cabernet franc e malbec repleto de especiarias, frutas vermelhas, chocolate, tabaco, mentol e um leve tostado. Passa 12 meses em barricas francesas novas e tem persistência e elegância dignos de homenagear o primeiro enólogo da casa. Foram produzida apenas 13.000 unidades.

O Salton Lucia Canei Espumante Rosé  Brut (R$ 130) feito de pinot noir é o tributo à “nonna”. São 5.000 garrafas de um espumante produzido pelo método tradicional com ótima acidez, um toque de frutas cítricas, outro tanto de frutas vermelhas, miolo de pão, tostados. Boa perlage e bom corpo.

A grande novidade da Salton vem, porém, da região da Campanha Gaúcha, fronteira com o Uruguai. Sua linha Paradoxo tem uma proposta ousada. Será encontrada apenas em restaurantes pelo preço sugerido de R$ 60, o que fará dela uma excelente opção nestes tempos bicudos.

Destaco seu Gewürztraminer 2014, um vinho macio, cremoso, especiado e com acidez delicada. Cor amarelo-palha e notas florais, muita lichia. Um vinho sem passagem por barricas e muito fácil de beber.

O Salton Paradoxo Pinot Noir 2014 também surpreende pela leveza, boa acidez. O sabor frutado (framboesa, morango, amoras) lembra vagamente a uva gamay, usado em Beaujolais. Um vinho versátil que pode ser bebido de maneira descompromissada ou acompanhar alguma refeição leve. Uma relação de preço e qualidade rara num pinot noir.

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Ela, pele branca, tatuagem bonita, sapato baixinho de design, camiseta com estampa I love LA, cabelo curto e com sotaque mineiro belo horizontino classe média alta. Ele, magro, hirsuto sem ser lumber jack, óculos de aro grosso, camisa xadrez, bermudas, quase um hipster. Sentados na espera da sessão de cinema em plena temporada pré-oscar. No papo, unilateral, a moça explica que não come pão de queijo em São Paulo. Aqui é muita farinha e pouco queijo. Concordo. Mas logo o assunto muda para a revista Piauí. “Uma revista da Abril, que não é feita por jornalistas, sabe? São autores. Autores que escrevem. E não tem notícias, tem assuntos. Tipo bastidores.” Achei curioso.

Neste momento, num pequeno silêncio desconcertado, ela relê: “bastidores… O que será esta palavra?” Confesso não ter entendido a dúvida. Pensei em etimologia, filosofia. Algo realmente profundo. Uma dúvida real. Afinal a palavra é realmente diferente. Viria do latim? Do grego? Ou do francês? Mas a dúvida durou pouco. E não foi o rapaz a lhe dar a resposta. Ele se contentou com a mudez e uma certa expressão vazia que quem é menos inteligente do que tenta aparentar. A solução veio pronta do smartphone, via google. “Backstage! Ah!…”

Entre atônito e perplexo (adoro esta expressão) percebi que aquelas pessoas bem alimentadas e leitoras da Piauí simplesmente não conheciam a palavra “bastidor” e precisavam do auxílio de uma palavrinha inglesa provavelmente mais comum no mundo deles de festas, shows, baladas.

Provavelmente são pessoas que também não saibam a diferença entre municipal, estadual e federal. Ou ainda executivo, judiciário e legislativo. Desanimado resolvi pedir uma cerveja. Mas só tinha da ambev. Fui de água. Coisa fina.

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oriundi 2011

oriundi 2011


Todo grande vinho tem uma boa história. A do Oriundi, pode-se dizer que começa em fins do século XIX, quando da grande imigração italiana para o Brasil. Mas seu início pode ter ocorrido bem antes, no momento em que os romanos decidiram produzir vinhos nas terras mais frias e úmidas ao norte da península italiana e criaram truques para consegui-los mais concentrados e interessantes.

A maior parte dos produtores de vinhos do mundo se gaba da pouca intervenção humana em seu produto, de ser a expressão da terra e da uva, mesmo quando isto nem é tão verdadeiro. O vinho honesto seria apenas suco de boa uva, fermentado e engarrafado sem truques, e as exceções principais residiriam nas delícias de Champagne, de Jerez e do Porto. Nestes três casos, a técnica, o trabalho paciente de armazenamento e as decisões de especialistas sobre mescla de safras têm um peso enorme no resultado final.

Há um outro exemplo de estilo de vinho em que a intervenção humana é fundamental. O italiano Amarone. Nele se usa oapassimento.  Deixam-se os cachos de uva em esteiras de bambu após a colheita durante os meses de inverno. Com isto, as uvas desidratam e ganham concentração, dando origem a vinhos mais encorpados, intensos, ricos em aromas e sabores. Oappassimento, tradicional da zona de Valpolicella, existe desde o tempo dos romanos e é usado na elaboração de vinhos de estilo único no mundo. Esta técnica tem sido aperfeiçoada ao longo da últimas décadas pelos Boscaini, fundadores da Agricola Masi no final do século XVIII e conhecidos como os “reis do Amarone”.

Sandro Boscaini é um visionário. Sob seu comando surgiu o chamado Ripasso, em que se acrescentam ao vinho-base comum as cascas das uvas usadas na produção do Amarone, estimulando uma nova fermentação a reforçar a cor, os aromas e os sabores. O resultado é um tinto entre a elegância do Valpolicella e a potência  do Amarone.

Não satisfeito em ser referência na Itália, Sandro partiu com sucesso para uma empreitada argentina e não se contentou em produzir um malbec de qualidade. Seus dois principais vinhos em Tupungato, Mendoza, são encontros de uvas tradicionais da Argentina com velhas conhecidas italianas. O Passo Bianco combina pinot grigio e torrontés, enquanto o Passo Doble casa amalbec com a corvina. Ambos são vinhos marcantes e interessantes. Nada óbvios.

O que mais poderia inventar o senhor Boscaini? Que tal tentar fazer o melhor vinho brasileiro? Bem, antes foi preciso que um velho amigo religioso, Don Ivo Pasa, o fizesse interessar-se pela população descendente de vênetos concentrada na região de Bento Gonçalves, no Rio Grande do Sul.

A identidade cultural foi um fator preponderante. O encontro, em 2007, com Luis Henrique Zanini, enólogo brasileiro responsável pelos ótimos vinhos da Vallontano, foi fundamental e de rara felicidade para o projeto.

Zanini, de personalidade afável mas apaixonada e uma abordagem técnica precisa, com viés humanista, deu a contrapartida perfeita para a aventura. Profundo conhecedor do Vale dos Vinhedos e sua cultura, vem desde então dividindo a responsabilidade na elaboração de Oriundi, um vinho feito comapassimento no Brasil.

Várias tentativas e experiências se sucederam até o Oriundi 2011. Foi testada e abandonada a principal cepa do Veneto, acorvina, que junto à  rondinella e à molinara integra praticamente todos os cortes de daquela região, seja nos Classico ou nos Amarone. Segundo Andrea Dal Cin, enólogo da Masi, a cepa não deu os resultados esperados no solo ácido da Serra Gaúcha. Várias outras cepas também não passaram no teste doapassimento.

Zanini e Andrea Dal Cin, enólogo da Masi.

 

Em compensação, a descoberta, na região de Caminhos de Pedra (parte da serra onde a vitivinicultura não se modernizou e não houve reconversão das cepas antigas por outras mais em voga), de pés de castas originárias do Vêneto e hoje raríssimas ou extintas por lá, deu um toque de originalidade ao Oriundi.

As principais castas usadas no corte são tannat e teroldego. Mas de vinhedos pergolagos dos Caminhos de Pedra vêm castas raras como recantina, corbina e turchetta para “temperar” o blend. As vinhas têm entre 15 e 50 anos. Seus frutos passaram 30 dias em caixa de madeira em temperatura ambiente, no outono, durante a fase do apassimento. Cada casta foi vinificada separadamente e enfrentou maturação de 18 meses em barricas de carvalho francês. A produção é de apenas 10 mil garrafas.

O resultado é um vinho vermelho rubi intenso. Aromas de frutas negras e especiarias. Tem grande complexidade olfativa. Deixado no copo, trouxe cacau, alcaçuz e, mais tarde, café, menta, tostados e bálsamo. Na boca é de grande estrutura, ótimo corpo, macio e persistente. Muito agradável. De acidez delicada e álcool muito equilibrado.

A safra 2011 está pronta, mas pode resistir até 20 anos, na minha opinião. Pouca gente sabe, mas os melhores vinhos brasileiros já provaram ter grande potencial de guarda. E o Oriundi vem para confirmar a regra. Está entre os melhores vinhos brasileiros que já provei. Mais do que isso: é de classe internacional, não deve nada a ninguém.

Une a expressão do terroir da Serra Gaúcha à técnica e à cultura vênetas. Ao mesmo tempo uma homenagem ao passado, à tradição e à história do povo vêneto no Brasil e uma porta aberta para o futuro do vinho brasileiro. Um vinho completo, portanto. Qualidade, história, originalidade. Um marco. O que se pode querer mais?

Na Mistral, por R$ 127.

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Há cinco meses à frente da loja de vinhos Epicerie, uma jovem empresa de vendas on line com um posicionamento de descontos agressivos, promoções relâmpago e baixo mark up, Ari Gorestein, Co-CEO e Co-Founder da empresa, se posiciona contra a arbitrária decisão do Governo de quase dobrar os impostos sobre a comercialização do vinho.

Assim como outros jovens empreendedores do mundo do vinho no Brasil, Ari trabalha com a ideia de tornar a bebida acessível a uma maior parte da população. Basta lembrar da imutável cifra de 2 litros per capta/ano para imaginar o potencial deste mercado.  Porém, assim como todos nós, foi recentemente surpreendido pela notícia do aumento do IVA-ST, que levará a taxação do vinho para quase o de 14,23% para 27,40% na venda para pessoa jurídica em São Paulo. Isso, além de onerar comerciantes e prejudicar consumidores, praticamente acaba com as chances de empresas como sua Epicerie de tornar o vinho uma bebida mais democrática. Já é bem conhecida a sanha tributária e burocrática de nossos governos. No caso do vinho, tais tributos nos obrigam a pagar preços entre os mais caros do mundo. Seja para produto importado ou nacional.

Ari pede a união do setor contra tal medida. Tal união, pregada insistentemente por colegas como Didu Russo no seu grupo de trabalho junto à Fecomercio, é ainda tão distante da realidade que me reservo o direito de dar esta pequena contribuição aqui. Não é do feitio deste blog publicar releases,  cartas ou opiniões de produtores, importadores ou quem seja. Mas o escândalo é tal que passo a palavra a Ari. Abaixo a carta na íntegra.

 Carta aberta contra o aumento do IVA-ST

Caros amigos consumidores e amantes de vinho,

Há pouco mais de um mês, em 29 de junho de 2013, a publicação da Portaria CAT 63 estabeleceu um aumento no Índice de Valor Adicionado Setorial (IVA-ST) que rege o cálculo da Substituição Tributária do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS-ST) incidente sobre bebidas alcoólicas, com exceção de cerveja e chope.

Basicamente, o mecanismo de arrecadação do ICMS-ST antecipa para o primeiro elo da cadeia de distribuição os impostos que incidiriam sobre todos os intermediários que comercializam um item desde sua origem até o consumidor final. Para antecipar o recolhimento do ICMS, o Estado define qual o mark-up (taxa de marcação de preço) médio aplicado pelos comerciantes de um determinado setor.

No caso específico dos vinhos importados, atualmente em São Paulo o IVA-ST da categoria é de 56,91%. Tal coeficiente implica no recolhimento de 14,23% sobre o valor da Nota Fiscal quando uma empresa vende à outra com propósito de revenda (ambas dentro do estado). A portaria CAT 63 estabelece que, a partir de 1º de Setembro, o IVA-ST passará a 109,63%. Este aumento substancial significa que, nas operações de venda entre empresas, o recolhimento passará a 27,40% (quase o dobro do atual).

Ainda não há clareza quanto às drásticas proporções do incremento sobre o imposto, já que as entidades de defesa do setor (notadamente a ABBA) apresentaram à Secretaria da Fazenda estudos de preço de instituto de pesquisa idôneo (FIPE) na tentativa de reverter o quadro.

A lógica que sustenta a sistemática de cálculo do ICMS-ST pressupõe que os mark-ups aplicados pelos diferentes comerciantes em um setor sejam semelhantes. Ora, no caso do vinho, bem se sabe que os preços e margens aplicados nos diversos estabelecimentos variam enormemente. A utilização de um mark-up médio onera aqueles que aplicam margens módicas – que beneficiam o acesso do consumidor ao produto – e favorece aqueles que abusam do bolso de seus clientes.

Face ao possível aumento do IVA-ST, vemo-nos na obrigação de nos manifestar contra a medida. A Epicerie está presente no mercado há cerca de cinco meses e tem como propósito maior democratizar o consumo de vinhos e difundir a cultura desta bebida social e historicamente tão rica ao público brasileiro. Para tanto, desde seu lançamento, a empresa tem concedido aos seus clientes descontos agressivos. Ironicamente, abrindo mão de rentabilidade na venda, vê-se impactada pela mesma alíquota de ICMS-ST de seus concorrentes. Pressupor que o mark-up aplicado pela Epicerie seja de 109,63% – quando de fato é muitíssimo inferior – penaliza gravemente nosso cliente ávido por vinhos acessíveis.

Na esperança de que o setor e os consumidores se mobilizem contra tal aumento draconiano,

Ari Gorenstein

Co-CEO e Co-Founder da Epicerie (www.epicerie.com.br)

E depois não querem que o povo se revolte…

Com a palavra Rage Against The Machine:

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Organizada por Gustavo Kauffman do blog Enoleigos. Em breve os resultados.

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preciosidade.

Está ficando difícil acompanhar o ritmo do vinho brasileiro. Seja por iniciativas privadas, eventos promovidos por blogs, premiações internacionais ou pelas atividades do Ibravin, uma coluna semanal não é mais suficiente. Por conta disso, deixei passar sem comentários um evento relevante acontecido no dia 23 de setembro, na Dal pizzol, em Bento Gonçalves. Já havia participado, durante a mais recente Expovinis, de uma degustação de vinhos brasileiros de safras antigas, dirigida por José Luiz Pagliari.

Mas em setembro, para um grupo menor, e com a presença dos produtores, pudemos apreciar e constatar a longevidade de certos vinhos da Serra Gaúcha. Quase todos, infelizmente, fora do mercado. Os produtores selecionados foram Dal Pizzol, Dom Laurindo, Pizzato, Maximo Boschi e Cave Geisse. Cada um pôde apresentar dois rótulos. O vinho mais novo era de 2000. Mas havia representantes de 1991, ou seja, mais de vinte anos. Algo impensável em termos de vinho brasileiro até há pouco tempo. Só me resta transcrever minhas notas, sem muita firula, por ordem de degustação, e afirmar: caro leitor e amabilíssima leitora, dá, sim, para guardar vinho tupiniquim!

Abrimos os trabalhos com Dal Pizzol Assemblage. Um ótimo corte das safras de 1995, 1998 e 1999, usando cabernet sauvignon, cabernet franc, merlot e tannat, de 12% de álcool. A maior parte do corte foi de 1995 e a tannat é de 1999. Foram engarrafadas apenas 2 mil garrafas jeroboam (3 litros). Sabe-se que o amadurecimento de um vinho é beneficiado numa garrafa maior e aqui não foi diferente. Cor granada e reflexos atijolados, muito limpo, aroma complexo, muitos terciários, balsâmico, etc. Oxidação no ponto ideal. No palato, corpo médio, boa estrutura, frutas, chocolate, muito elegante, equilibrado e persistente. Taninos polimerizados, portanto macios, sem nenhum amargor. E o mais importante: vivo, muito vivo. Um dos melhores brasileiros que já provei.

O segundo, também da Dal Pizzol, um Merlot 1991. Cor rubi atijolado e límpido, de vinhedos de latada aberta. 11,7% de álcool, sem madeira. Aroma de marmelada, couro e tabaco. Ainda vivo e algo tânico. Corpo médio. O mais antigo da lista e ainda pode seguir mais um tempo.

A Dom Laurindo se apresentou com um Cabernet Sauvignon 1994, 11% de álcool, sem madeira e nem filtragem. Coloração rubi escura, aroma mentolado, floral leve e refrescante. Na boca, fantástica, certa marmelada, bala de laranja, acidez leve e tanino adocicado. Muito elegante. Para fechar seu show, a Dom Laurindo apresentou um Tannat 1996, com 13% de álcool, sem filtragem. Trazia algum depósito em suspensão. Aroma frutado e sabor quente, redondo, com taninos muito macios.

Flávio Pizzato trouxe seu legendário Pizzato Merlot 99, o vinho que virou a cabeça de muita gente e elevou sua vinícola a categoria de boutique. Com 12,5% de álcool, proveniente de vinhedos plantados entre 84 e 88, foi a primeira vinificação da Pizzato. Tem cor vermelho vivo brilhante e aromas terciários, couro, tabaco. No palato é macio e de boa acidez, com toques de laranja, goiabada, bombom de chocolate com frutas e especiarias. Segundo Flávio, partiu-se de uvas excepcionais, de uma grande safra e estagiou apenas 5 meses em barricas de carvalho novo americano. Depois de tamanho acerto na primeira vinificação, a Pizzato, com longo histórico no plantio de vinhedos, tinha de provar que não teve sorte de principiante. E provou, logo no ano seguinte, com o Pizzato Cabernet Sauvignon 2000. Com 12,5% de álcool e 6 meses de barrica nova americana, é vermelho com reflexos atijolados, aroma complexo que mescla café, humus, floresta depois da chuva. Tem corpo médio, elegante, bom equilíbrio e persistência média.

Um surpreendente projeto é o da Maximo Boschi. Eles não participam de nenhum concurso e só produzem em bons anos. Porém, mais do que isso, somente comercializam vinhos devidamente amadurecidos. Portanto, estes são vinhos “encontráveis”. Seu Merlot 2000 com 12,8% de álcool e 8 meses de passagem em barricas de carvalho francês é evoluído, com cor escura, aroma rico, caramelado. Tem corpo médio, elegante, taninos firmes, acidez viva e álcool um pouco presente demais. Um vinho desses por R$ 60 ou R$ 70 é uma pechincha. O Cabernet Sauvignon 2000 é vermelho rubi escuro com uma bela borda translúcida. Na boca, corpo médio, tanino de médio para fino, acidez delicada e persistência média. Na mesma faixa de preço. Uma descoberta.

Esta espetacular degustação encerrou-se com um espumante digno de destaque: Cave Geisse Brut 1998, um vinho selecionado para a ¿Cata Magistral¿ que a Master of Wine Jancis Robinson conduzirá no WineFuture Hong Kong 11, organizado pela Academia do Vinho da Espanha. Fique claro que este é o primeiro vinho brasileiro selecionado para degustação num evento internacional deste porte. Até hoje, o Brasil nem era cogitado nas mais importantes publicações sobre vinhos como tendo alguma região capaz de produzir algo de qualidade. O aval da principal crítica de vinhos da atualidade coloca o Brasil como um produtor de espumantes de padrão internacional. Jancis deu 18,5 pontos, a mais alta nota para um espumante de fora de Champagne.

E não é para menos. Foi um vinho pensado para a virada do milênio e feito com 70% de chardonnay e 30% de pinot noir. Este espumante fez uma fermentação por 180 dias e ainda está na cave em autólise, isto é, em contato com as borras. O degorgement (processo de retirada das borras e enrolhamento definitivo) é feito somente mediante a encomenda pelo site. É um líquido amarelo-dourado com perlage delicada, persistente e excelente. Aromas de mel, tostados, frutas secas, amêndoas e biscoito. Na boca, rica, explode com mel, cítricos, bom corpo, persistência e muita cremosidade. Ainda há 280 garrafas. Pela módica quantia de R$ 600 cada garrafa magnum (1,5 litros).

Foi uma manhã chuvosa e fria. Mas a calorosa recepção de apaixonados produtores e as provas de sua dedicação e trabalho nos deixaram com a alma cheia de esperanças em vida longa para conferir esta evolução. Muito bonito, também, foi ouvir Ademir Brandelli, da Dom Laurindo, no passado enólogo da Dal Pizzol, dizer que, “naquele tempo, não sabíamos metade do que sabemos hoje, plantávamos em latada, não em espaldeira, nem tínhamos barricas de carvalho francês”. E disparar na sequência: “Imagina nossos vinhos feitos hoje daqui a dez, vinte anos!?” Imagino, Ademir. Agora eu imagino. E depois de provar, numa sessão especial em sua cave, aquele 1991, seu primeiro vinho, acompanhado de Pedro Hermeto (Restaurante Aprazível) e Deise Novakoski, imagino e acredito. Longa vida ao vinho brasileiro.

*publicado originalmente no terra magazine SÁBADO, 29 DE OUTUBRO DE 2011, 09H04
** antes da atual polêmica sobre as salvaguardas.

Mauricio Tagliari
De São Paulo

 

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Jantar harmonizado com vinhos Bettú, na presença do próprio, acontece no restaurante carioca Aprazível, do meu amigo Pedro Hermeto. Se morasse no Rio de Janeiro não perderia por nada. Confira:

só repassando aos amigos cariocas esta dica.
vale, pois a ocasião é rara e o preço está excelente.

O Aprazível, em rara oportunidade,tem o prazer de oferecer um jantar com degustação de vinhos do cultuado produtor Vilmar Bettú.
Será uma experiência única de bater um papo com o aclamado vinhateiro e descobrir novidades.
O evento acontecerá no dia 14 de novembro, segunda-feira, véspera de feriado, às 20h.
Sobre os vinhos Bettú:
O vitivinicultor Vilmar Bettú tem sua propriedade localizada no município gaúcho de Garibaldi, na região da Serra Gaúcha, onde produz vinhos artesanais que são verdadeiras relíquias, seguindo uma filosofia muito particular, com micro vinificações que fogem totalmente ao padrão do mercado. Sua produção é limitadíssima e, dependendo da uva, chega a apenas 10 litros por safra…

Os seguintes vinhos serão degustados:
Gewurzstraminer 2010
Merlot Rose 2010
Merlot 2006
Corte Bordalês 2002
Tannat 2003/04
Cabernet Sauvignon 2002
Malvasia de Candia Licoroso 2005

O menu servido no jantar será o seguinte:

Couvert:
Da Casa
(pães artesanais, pão de queijo, pizza branca,
vinagrete de sarnambi, berinjela agridoce e manteiga).
Entradas:
Casquinha de caranguejo
(carne catada, refogada, coberta com
farofa de mandioca)
ou
Escondidinho de Carne Seca
(purê de batata barôa, carne seca desfiada,
queijo fundido e parmesão gratinado)
Pratos:
Delicioso Cabrito
(assado no vinho tinto, acompanham purê de inhame, cebola caramelada, cogumelo Paris e brócolis)
ou
Medalhão
(em molho de vinho do Porto, acompanham batata Aprazível e banana gratinada com creme de espinafre)
Sobremesas:
Banana Santa Teresa
(grelhada com canela e açúcar, servida com sorvete de creme,
calda quente de chocolate e amêndoas picadas)
ou
Morango do Amor
(morangos flambados com suco de laranja e cointreau derramados sobre sorvete de morango, suspiro e creme de leite batido)

Valor: 180 reais por pessoa (serviço incluso)

Reservas com Andréa Setúbal, do Departamento de Eventos:
Telefones: 2508-9174 / 2507-7334 (digite 6)
O Aprazível fica na Rua Aprazível 62, em Santa Teresa.
Para informações sobre como chegar, acesse:
http://www.aprazivel.com.br.

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