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Utopia. Do grego ou (“não” ou prefixo de negação) e topos (lugar), tem como significado secundário um lugar que não é no agora, mas que pode ser construído no futuro.

Retrô. Um estilo cultural desatualizado ou velho, uma tendência, hábito ou moda do passado que com o tempo volta a se tornar aceitável.
Em 2015, achei um caderno de música com anotações e temas que escrevi entre os 15 e 25 anos de idade, meus tempos de estudo musical a sério. Olhei com atenção e ali encontrei coisas interessantes, ideias das quais eu me esquecera totalmente. Por trás de uma variedade de ritmos e estilos de harmonia, havia em comum uma ligação meio ingênua com alguns dos ícones tortos do jazz. Charles Mingus, Thelonious Monk, Django Reinhardt ou Bix Beiderbecke não eram os nomes mais cotados numa época em que o jazz fusion reinava absoluto.

Contudo, a renascença do jazz tomou lugar e tudo mudou. Fiz parte de uma banda de jazz que se poderia dizer pós-moderna: Nouvelle Cuisine. Aprendi muito nessa fase. Tornei-me um produtor musical e trabalhei com dezenas de artistas, além de ter criado centenas de trilhas de filmes.

Ao dedilhar algumas das melodias do caderno me ocorreu um sentimento não de nostalgia, mas de espanto. Cada uma das partituras que escrevi sob a inspiração do jazz, a música da minha adolescência, trazia um estado de espírito impregnado de esperanças no futuro plural, mais livre e sofisticado. A ditadura desmoronava. Nascia o Hip Hop. Existiam já o punk, o reggae e a música eletrônica. Mas a matriz afro-blues do jazz me parecia mais aberta. Menos dogmática. Mais promissora. Aquele era um mundo que poderia ter sido e não foi, como se uma bifurcação do tempo nos levasse para outra dimensão, utópica.

Mas onde estão as utopias? Vivemos a era das distopias. Quando penso que, adolescente,  descobri Julio Cortázar em uma revista Nova na sala de espera do dentista e Vladimir Nabokov, em uma Playboy do barbeiro, que ouvi Hermeto Pascoal numa escadaria de rua de São Paulo, que comprei discos autografados num pós-show diretamente das mãos dos músicos do Art Ensemble of Chicago e vi filmes clássicos em telas gigantes de cinema, o que experimento não é nostalgia. Eu me sinto algo decepcionado com a acomodação que o capitalismo neoliberal nos impôs.

Tive vontade de percorrer aquele outro caminho. Aquela utopia. Daí me veio o nome do projeto: Utopia Retrô.

Utopia Retrô é uma fantasia sonora jazzística baseada em cenas arquetípicas do cinema mundial. Sua sonoridade e seus temas remetem a um tempo em que os problemas eram como os de hoje, mas a esperança em várias utopias parecia maior. Um mundo onde o jazz e a música improvisada e sofisticada eram consumidos e fruídos com leveza e despretensão por qualquer ouvinte nas rádios, bares e em LPs.

Uma das recompensas ao realizar tal fantasia foi tocar com um parceiro musical que trilhou de perto essa trajetória desde minha adolescência, o reservado e genial Luca Raele. Um tesouro que só os iniciados sabem apreciar. A outra alegria esteve em encontrar dois parceiros de geração muito diferente da nossa, mas donos da musicalidade que transcende a vivência, a experiência e a teoria. Sou muito grato a Danilo Penteado e Carlos Mazzoni. Danilo, um jovem e gigantesco talento, integrou a sessão com o baixo acústico. O melódico e contido Mazzoni, com sua bateria sutil.

Apenas entramos no estúdio, mostrei os temas, quase sempre resumidos a uma página de compassos. Tocamos uma vez para reconhecimento, algumas ideias nos ocorreram e gravamos a segunda passada. No máximo, duas tomadas. Entendimento imediato.

Os arranjos, que por momentos podem parecer combinados, são totalmente espontâneos. Remetem a gestos e ideias do repertório cool jazz, mas com a liberdade e alegria de um free jazz despretensioso. Se fosse classificar, esse material soaria natural dentro do movimento Third Stream, surgido em fins da década de 1950. Lembra algo de Jimmy Giuffre, expoente da tendência, mas muito pouco do Modern Jazz Quartet, outro grupo-símbolo do Third Stream. Ou seja, utópico e das antigas.

Todas as faixas foram gravadas em certo dia de 2016 e guardadas preguiçosamente até que fossem mixadas em outro certo dia de 2017. Simples assim. Entre duas gerações, naquele dia, compartilhamos concepções de jazz quase opostas: a contenção do cool jazz e a improvisação arriscada do free jazz. Sem ensaios, sem combinações de arranjo, sem edição, sem overdubs. Uma fotografia sonora. As imperfeições eram esperadas e apreciadas. Em sua maioria, as músicas sugerem suavidade. Se o disco tocar baixinho, engana fácil como música de fundo, calmante e amiga do seu bem-estar.

Mas justamente essa característica, somada a algumas estranhezas sutis, pode ser causa de certo desconforto mental. Estamos acostumados a uma música potente, anestesiante, catártica, sons comprimidos, pouca sutileza, sempre dentro de padrões impostos. Assim como deixamos de nos alimentar saudavelmente, esquecendo os amargos e os sabores estranhos e nos satisfazemos com junk food, doce ou salgada, comida congelada e padronizada, não temos mais ouvido para música com dinâmica. Tudo tem de ser intenso, gritado, potente. A rebeldia aqui, contudo, é ser suave, gentil e natural.

Um pouco depois de nosso encontro musical, li uma das últimas entrevistas concedidas pelo filósofo Zygmunt Bauman, morto em janeiro de 2017, na qual ele alertava: “Estamos involuindo de uma crença tola no futuro para a mistificação infantil do passado.” Soube que seria lançado um livro póstumo de sua autoria intitulado Retrotopia, discutindo justamente este assunto.

Vejo em Retrotopia e Utopia Retrô coisas diferentes, mas muito parecidas. O reconhecimento do fracasso de uma utopia não é necessariamente uma derrota, porque o ser humano passa a buscar as coisas boas do passado. Em um mundo tão cruel, frio, competitivo e sem esperança como este vivido por nós, uma música que deseja ser divertida, suave, gentil e natural significa um desvio na estrada do tempo e pode constituir um fiapo de prazer. Pode-se conhecê-la em qualquer parte do mundo via streaming. Se alguém vai ouvi-la é um outro assunto. As mensagens na garrafa são lançadas ao mar.

A banda

Danilo Penteado, multiinstrumentista formado em Música Popular na Unicamp, em 2004, fundou o grupo Quatro a Zero em 2001 (Prêmio Visa de Música Brasileira de 2004). Gravou com grandes nomes, como Joel Nascimento, Nailor Proveta, Maurício Carrilho e Oscar Bolão. Desde 2009 integra a Orquestra Mundana de Carlinhos Antunes tocando piano, cavaquinho e acordeon. Acompanhou a orquestra em festivais na França, Burkina Faso, Guiné e Bolívia. Integrou, com Natalia Mallo e Mariá Portugal, a banda Sinamantes, que lançou seu disco autoral em 2013, produzido por John Ulhoa, da banda Pato Fu. Com a Sinamantes excursionou pelos Estados Unidos, Portugal e Inglaterra.

Além de cantar e tocar baixo acústico no Compay Tumbao desde 2006, numa duradoura pesquisa em torno da música cubana, tem gravado trilhas para teatro e cinema e acompanhado nomes como Elza Soares e Mariana Aydar.

Carlinhos Mazzoni nasceu em 27 de agosto de 1981. Neto da pianista erudita Joana Elias, teve contato com a música desde cedo. Iniciou seus estudos como baterista aos 11 anos.

Carlinhos Mazzoni é baterista e compositor, iniciou seus estudos aos 11 anos. Atualmente, integra o Carlinhos Mazzoni Trio; Stephane Fernandez Trio(França), junto com o baixista Michael Pipoquinha; o Quarteto Instrumental Culto ao Rim e o Adriano de Carvalho Jazz Sexteto, além de acompanhar o pianista Daniel Szafran. Já tocou com o compositor Bruno Serroni, a cantora Blubell, a cantora Silvia Tape e o guitarrista e compositor Edgard Escandurra.

Maurício Tagliari, compositor, guitarrista, produtor (Nação Zumbi, Trio Mocotó, Nina Becker e Blubell, entre outros) e diretor musical do selo ybmusic (mais de cem CDs lançados e vários prêmios recebidos, Sharp, APCA, Prêmio da Música Brasileira), foi um dos fundadores do grupo Nouvelle Cuisine e da Univesral Mauricio Orchestra. Ex-presidente da Aprosom, diretor da ABMI e da BM&A,  membro da Academia Brasileira de Gastronomia e autor do Dicionário do Vinho – Tagliari & Campos, cria e produz trilhas sonoras para longa-metragens e séries de TV.

Luca Raele, clarinetista, compositor e arranjador formado pela ECA-USP, com passagens pelas orquestras Sinfônica Municipal e Jazz Sinfônica, fez parte do grupo Nouvelle Cuisine e da Heartbreakers Orquestra. É fundador do premiado quinteto de clarinetes Sujeito a Guincho e sócio-diretor da ybmusic.

Ouça https://open.spotify.com/album/44vY7z6rgegGBauq5BJShV?si=0c2gMsj1TMS3IyWKSXWdBg

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Uma noite mal dormida e uma ressaca não seriam bons presságios para uma segunda-feira de manhã. Mas eu tinha uma degustação de Brunello di Montalcino no Restaurante Cantaloup prevista e isto animaria qualquer mortal que gostasse de vinhos. Seriam dois flights de 11 vinhos cada. Rosso  e Brunello. Coisa séria. Degustação feita, explanações, colegas de alto nível, serviço impecável, opiniões divergentes, alguns amando e outros decepcionados.

Safras de 2011 dos Brunello. Um ano não tão perfeito. Bem, todos tinham um pouco de razão. Alguns exemplares deixaram a desejar. Infanticídios foram cometidos. Mas não se pode negar que também havia uma ou outra joia. O principal é notar uma mudança no perfil dos vinhos da região. Buscam ser consumidos mais cedo. Estar mais prontos. Nem sempre acertam. Alguns ficam no meio do caminho em busca de um perfil novomundista que o novo mundo anda abandonando. Mas todos trazem a coloração translúcida bem clara, aromas frutados, paladar com boa acidez e taninos cheios de personalidade. Boas expressões do clone da Sangiovese da região. A maioria dos vinhos não está no mercado brasileiro, ao menos não esta safra.

De lá fui experimentar as novidades da Vinícola Aurora, no Figueira Rubayat. E que alegria ver a constante evolução do vinho brasileiro. O lançamento mais destacado é espumante brut feito com método tradicional que passa 24 meses em contato com as leveduras. Insisto que este tipo de vinho é a vocação do Brasil. Espumante de alta qualidade com preço bem competitivo. A linha Pequenas Partilhas traz um cabernet franc e um tannat de se beber cheio de certezas no potencial do vinho brasileiro!

Mas o melhor do dia foi a noite. Para quem gosta de jazz, ou melhor, de free jazz, não poderia haver lugar mais certo para se estar do que no Jazz B, no centro de São Paulo. O quarteto do saxofonista Thiago França simplesmente inebriou, com a ajuda de uns goles de cerveja IPA artesanal, a plateia.

Formado por Thiago no sax alto, tenor e flauta, Amilcar Rodrigues no flugel e trompete, Marcelo Cabral no baixo acústico e Mariá Portugal na bateria, o quarteto fez dois sets com um intervalo de meia hora. Música fluindo do jeito que eu gosto. Todos se ouvindo e interagindo. Deu vontade de estar lá tocando junto. Esperando a deixa.

Preparem-se. Tenho de avisar ao mundo que Mariá Portugal, do Quarta B, está pegando o gosto pelo freejazz! E sai de baixo. Vejo shows de jazz há uns quarenta anos. Mariá é provavelmente a baterista mais criativa, espontânea e original que já vi. Seu sorriso contagiante, sua energia, humildade e simpatia são bônus.

A inventividade, o fluxo de ideias musicais, a precisão, o repertório, a entrega são cativantes. Um show à parte. Sei que vou me arrepender de ficar escrevendo assim, pois vai ficar cada vez mais difícil contar com a requisitadíssima Mariá para os meus projetos, mas que posso fazer? Que segunda-feira inesquecível.

 

 

 

 

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No inicio dos anos 70, os adolescentes urbanos brasileiros, em sua maioria,  escutavam música brasileira nas rádios e compravam LPs de rock de bandas internacionais que saiam com mais ou menos um ano de atraso por aqui. Quando alguém conseguia um “importado” era festa. Fila de gente para fazer cópias em K7.

Voce que tem menos de 30 nem deve fazer ideia do que seja isso. Nesta época, eu era um principiante no violão. Acordes dissonantes de bossa nova, solos de Dilermando Reis e alguns temas do rock.

O blues nos chegava indiretamente, via bandas inglesas. O jazz ainda era um mistério pra mim. Bem, continua sendo , de certa forma. Eu tinha 13 anos e concordava em passar alguns domingos ensolarados com a familia na casa de um amigo de meu pai onde hoje fica a Granja Viana, bairro suburbano chic aqui em São Paulo. Naquele tempo uma aventura campestre.

O mico de passar o dia com a família era compensado pelo churrasco, a piscina, as filhas do amigo de meu pai, mas principalmente por um tesouro que descobri na sala de estar.

O tal amigo, o simpático sr. Lauro, era funcionário do consulado americano. Uma estante de livros de fotografia e outra de LPs, tudo trazido via malote diplomático, tudo novidade, tudo descoberta me despertaram para o blues.

E o primeiro disco que me chamou a atenção foi Indianola Mississipi Seeds. A capa, uma obra-prima que ainda hoje lista entre as melhores de todos os tempos era uma guitarra feita de melancia. Um album de capa dupla, com vinil de 180 gramas, a ficha técnica completa. Um delírio. E a contra-capa era a guitarra-melancia destruída, devorada.

Indianola Mississipi Seeds - B. B. King

A ousadia que me chamou atenção no visual não foi nada perto da alegria de ter escutado aquilo pela primeira vez. Eu ainda não bebia mas me embriaguei de música.

A experiência de se ouvir música era muito diferente de hoje. Nada da ligeireza de baixar da internet e ouvir num fonezinho ou no falante do computador. Escutar uma ou duas vezes e correr para descobrir outra novidade. Não. A gente escutava os discos até “furar”, como se dizia antigamente sobre o atrito da agulha no vinil.

Um ótimo toca-disco, amplicadores e caixas de qualidade eram o sonho de todo mundo que amava música. Não existia nada que se comparasse. Nenhum I-Phone no mundo seria mais desejável.

Desde o primeiro murmúrio acompanhado de um piano de armário meio desafinado  até os inesperados arranjos de cordas,  o disco inteiro foi uma surpresa pra mim. A sonoridade não era “tosca”, pelo contrário. Era sofisticada. A gravação não era um registro antropológico como outros de blues que eu conhecia e ainda amo.

B.B. King abriu uma brecha na música popular americana ao gravar com músicos brancos e em ótimas condições técnicas. A sua “Lucille” cantava suave e sensual. O cara estava tranquilo e comunicava em vários estilos de blues. E transformava qualquer canção em blues! Se fosse comparar eu diria que B.B King era a cabernet sauvignon do blues. Potente, versátil, resistente e se dá bem em todo canto!

Bem, levei anos até comprar este LP numa edição nacional e depois comprei de novo em CD, e depois no Itunes…

Vi B.B.King ao vivo umas duas vezes. Um monstro, um entertainer, um músico genial, bandleader e um som de guitarra único. Mas até hoje a impressão da primeira audição do Indianola é indelével pra mim.

Hoje B.B. King se foi. Mas a melancia está aí para ser devorada. Se voce tiver tempo, ponha o seu melhor fone de ouvido e ouça inteiro o album, à moda antiga, parado, de olhos fechados e tente chegar perto do que foi o despertar do blues para um moleque branco, brasileiro, nos anos 70. Depois me conta.

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