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Masterclass é um termo algo desgastado entre aqueles que acompanham os movimentos do vinho no Brasil. Toda semana, parece que há uma nova dessas sessões sobre um assunto qualquer. Nem sempre foi assim. Lembro-me de umas das primeiras a que assisti e que, sim, fizeram a diferença sobre como aprecio e entendo os vinhos. Foi a primeira vez em que Pedro Parra, o geólogo chileno especialista em terroir, apresentou-se por estas bandas. Ele abriu meus horizontes no quesito importância do solo para o vinho. Vieram outras masterclasses. Algumas bem interessantes, outras mais ou menos.
Recentemente, contudo, o termo adquiriu um novo vigor. A Wines Of Argentina proporcionou mais que uma degustação, um verdadeiro aprofundamento no pensamento atual da enologia do novo mundo. Ouvir Alejandro Vigil falar de suas descobertas, Daniel Pi descrever vinhos premiados e Sebastian Zuccardi mostrar seu entusiasmo com o futuro dos vinhos argentinos foi uma oportunidade rica e prazerosa.
É ótimo saber que o gradiente de temperatura de Gaultallary é semelhante ao da Borgonha, puxando mais para o frio. Que Agrello lembra mais Bordeaux e Napa em seu clima temperado. E que Lulunta emula a Côte du Rhône, mais quente.
Alejandro Vigil comentou sobre as 2 mil microvinificações-teste em andamento na Catena e explorou as possibilidades de chardonnay e cabernet franc. Deixou claro que a Argentina ainda tem muito tempo de malbec pela frente, mas não deve se ater somente a esta cepa. O momento é de descobrir mais a geografia e outros fatores. Dado positivo, outros winemakers pensam igual. Há muito o que fazer.
Nesta busca, elegeram a altitude, entusiasmados com o gradiente de temperatura, mas descobriram que a insolação UV é um fator mais importante. A combinação de temperatura X solo X altitude X rendimento cria possibilidades ótimas para a chardonnay, por exemplo.
Para provar suas teses, Vigil mostrou três brancos de três alturas distintas que usam a mesma vinificação e a mesma madeira. Mudam apenas as datas de colheita, em busca de um grau alcoólico máximo de 13,5%. Ainda não engarrafados, foram trazidos especialmente para a ocasião. O primeiro, de solo calcáreo cultivado a 1.450m, é mineral, seco, fresco e com cara de limonada. Tem um leve floral. O segundo, de solo pedregoso a 1.100m, sofre stress hídrico e é mais gordo. O terceiro vem de solo argiloso profundo, a 800m. Tem mais tostado, é mais amargo e pesado, com aroma frutado.
Completou a demonstração com quatro cabernet franc 2010 que trouxe de gualtallary (1500m) de solos diferentes, mas muito próximos (60m de distância). Todos foram vinificados em barris novos e colocados seis meses em fudres velhos.

A diversidade do terreno se mostrou assim:
Vinho 1. De solo argiloso profundo e boa umidade. Tem aroma de fruta, pimenta (piracina), na boca taninos  firmes, acidez clara e agradável.
O segundo, de terreno com pedras aluvionais e calcáreo, tem nariz mineral e na boca muita fruta, taninos macios e acidez ok.
O terceiro, de solo pouco profundo, com apenas  25 cm (uma capa de pedra impede a raiz de passar), apresenta nariz de chocolate, floral, rico, parece ter mais madeira e lembra algo do loire. A boca traz  tanino doce, acidez ok.
O quarto, de solo calcáreo, exibia café no aroma. Na boca é sápido e de boa acidez, com corpo médio.Foi uma aula de diversidade. Vinhos tão diferentes, feitos com a mesma uva, da mesma maneira e de vinhedos tão próximos, comportam-se diferentemente e com altíssimo nível.

Sebastian Zuccardi, por sua vez, tratou com autoridade do tema da latitude. Ele defende que os argentinos são vinhos de montanha, pois clima, solo e água dependem da cordilheira. Mendoza é um deserto em altura. Pouca água e muita luz. Dos terroirs de Mendoza, só 3% são cultiváveis, pois falta água. Sebastian trouxe bonardas e malbecs de várias regiões para demonstrar as diferenças de latitude. Esses vinhos não vão para o mercado da forma como os provamos. São usados em cortes da Zuccardi. Portanto, uma oportunidade única de comparar as regiões de Mendoza.
Partindo de vinificações iguais, em tanques de cimento sem revestimento de epoxi (safra 2013), usando  boa parte das uvas com razimos inteiros pra trazer taninos, Sebastian empregou apenas barrica de terceiro e quarto usos. Seu desafio, sabiamente, é diminuir dulçor.  Aqui, bem resumidamente, descrevo as diferenças.
Bonardas
Santa Rosa.  650m, solo mais profundo, sem pedras, 13,5% de álcool. No nariz mais fruta, na boca sobressai o álcool e o tanino é potente.
Altamira. 1.100m, solos aluvionais, muitas pedras com carbonato de cálcio, 13% de álcool. Nariz tem tostado e na boca, bom corpo e fruta potente
San Jose. 1.400m, solo aluvional, pedras menores, sem carbonato, 12,5% de álcool. Nariz elegante e palato com boa acidez, fruta e leveza
Malbec
La Consulta 2013. 900m. Cor intensa, nariz elegante, complexo, floral, mineral, frutas negras. Macio na boca, taninos doces, acidez ótima, corpo médio, persistente, muito potencial.
Vista Flores 2013. 1.100m. De terreno pedregoso. Cor intensa. Aroma floral, de fruta negra, mineral, especiaria, rosa e no palato é macio, com tanino doce, ótima acidez, equilibrado e longo.
Altamira 2013. Sul do vale de Uco, num terreno com muito carbonato. Nariz potente e rico, tanino macio, doce e bom corpo.
Gualtallary 2013. Norte de Uco, região também com muito carbonato. Sebastian exibiu fotos onde se vê que a raiz da videira abraça  a pedra de uma forma interessante. Aromas de tomate, taninos doces, acidez limpa e agradável, clara, corpo leve, fresco e mais curto que os outros.
Em um próximo post, comento a degustação dos vinhos do Argentina Premium Tasting.

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Aqui…

 

 

E este som para acompanhar.

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O Chile é um dos dois países sul-americanos que não têm fronteira com o Brasil. Nem por isso deixa de ser a origem de uma parcela enorme dos vinhos que bebemos por aqui. Na verdade, exporta quase o dobro do segundo player, a Argentina. No primeiro semestre de 2014, registrou 48% de participação em volume e 40% em valor.

A tradição vitivinícola chilena é centenária e diversa. Iniciada pelos conquistadores espanhóis, mais tarde ganhou enorme influência francesa. Na fase heróica da expansão internacional do vinho chileno, a cabernet sauvignon foi a estrela. Seus vinhos potentes, frutados, com muita madeira e toque de pimentão, marcaram época. Depois veio a descoberta da carmenère e a tentativa de tranformá-la, através de estratégia de marketing, na sua casta-ícone, como a malbec na Argentina. Mas temos visto ultimamente que o Chile é muito mais do que isso.

A Wines of Chile, que há alguns anos organiza um encontro com palestras e degustações no Brasil, trouxe para esta edição 2014 o sommelier chileno Héctor Riquelme, que conduziu a masterclass “Os Extremos do Chile”.

Foram dez vinhos apresentados no painel. Todos oriundos de fora dos tradicionais vales da região mais central do país. Alguns praticamente no deserto de Atacama, ao norte, como o Tara Red Wine 1 Pinot Noir 2012, produzido no vale de Huasco pelo grupo Ventisquero. Outros, no extremo sul, em regiões frias e chuvosas, como o Lago Ranco Sauvignon Blanc 2013, da Casa Silva, provavelmente o vinho mais austral já produzido em escala comercial, diz o enólogo Mario Geisse.

A masterclass comprovou a incrível variedade geográfica, cobrindo mais de 1000 km de norte a sul, e trouxe grandes surpresas. Uma delas foi a presença de cinco vinhos do vale de Itata, ao sul. Esta região, palco de séculos de guerra entre os conquistadores europeus e os nativos mapuche, cultiva a videira há 500 anos. Sem um histórico de vinhos de grande qualidade, vem sendo, porém, redescoberta pelos especialistas.

São de lá, por exemplo, o Outer Limits Old Roots Cinsault 2013 da Viña Montes, um vinho opulento e saboroso. Aqui, a Cinsault tem um toque de 15% de mourvédre para encorpar. Apesar do corte típico do sul da França, este Outer Limits tem um caráter totalmente distinto. Nada do sol mediterrânico. Tem o calor e a intimidade das lareiras.

A gigante vinícola São Pedro fez em Itata uma experiência radical. Produziu apenas 300 garrafas de um vinho da uva país, uma cepa crioula, típica do Chile. O resultado é algo selvagem, com taninos de certa rusticidade. Mas de boa acidez, frutado, longo. Interessante e provavelmente grande companhia para um cozido de carnes típico da região.

A ótima De Martino trouxe o Gallardía del Itata Cinsault 2013. A curiosidade é a boa acidez, não muito típica desta uva, resultante do clima chuvoso e da colheita antecipada. Encontramos um vinho agradável, fácil, elegante e leve. Os taninos são finos e a nota carbônica dá uma vivacidade surpreendente. Um vinho nervoso, mas facílimo de beber.

Mais por curiosidade, vale citar El Insolente Carignan 2010 da Rogue Vine, um vinho de garagem, sem aditivos e com leveduras nativas. São 807 garrafas vinificadas de uvas carignan oriundas de um vinhedo de 60 anos. No nariz, lembrou um francês com fruta madura e toque mineral. Na boca me trouxe à memória alguns vinhos do norte da Espanha. Vinhos com tensão, acidez, tanino potente, com especiarias, fresco e levemente adocicado.

E para fechar temos o Los Patricios Chardonnay 2010, da Pandolfi Price. Esta jovem bodega tem a consultoria de François Massoc, dos premiados vinhos Aristos e Clos de Fou. Los Patricios é um chardonnay feito com leveduras selvagens, proveniente de um solo vulcânico assentado sobre materiais argilosos glaciais. Tem um aroma interessantíssimo, complexo, frutado e mineral. Um pouco de flores brancas também se mostra aqui. No palato é vivo, profundo, elegante e persistente. Um toque cremoso e a boa acidez apontam para futuro de guarda promissor. Muito diferente dos chardonnays típicos do novo mundo. Tem um caráter próprio. Sem a pretensão de ser um Borgonha.

Ao final de uma degustação como esta, com dez taças na frente, é normal voltar a provar cada vinho para checar a evolução no copo. Em nove entre dez provas, o aroma dos restos de copo dos tintos traz um toque de café, caramelo ou algum tostado. Em geral, proveniente de uso de madeira. Não é defeito. É um sinal. E às vezes até bem agradável. Mas muito comum.

Chamou-me a atenção que neste painel nenhuma taça evoluiu para estas características. Prova do pouco ou quase nulo uso de barricas para corrigir, mascarar ou empetecar os vinhos. Os que declaram o uso mencionam apenas barricas de terceiro e até quinto usos. Isto é, que não aportam mais aquelas características de baunilha, café, chocolate, etc., típicas de carvalho novo.

São vinhos sinceros. Retratos do terreno e do clima. Sem imitações ou busca de agradar um consumidor imaginário.

Esta é a marca deste outro Chile que está sendo descoberto e que encanta.

E aqui uma amostra de um outro Chile musical. O clipe, road movie da canção“Lo Que Quieras” do Duo Denver mostra várias das paisagens produtoras de vinho. Aviso aos mais sensíveis: tem um pouco de violência.

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Quem assiste a seriados como Mad Men deve pensar que os americanos já beberam muito mais do que hoje. Copos nada modestos de uísque, gim e vodca são tragados desde o café da manhã até o serão, em plena madrugada. Nada de cerveja ou vinho. A tradição vem de longe. Todo western que se preze tem a cena, seja do mocinho ou do bandido, no balcão do saloon virando um ou mais shots puros, que aqui no Brasil ganharam o apelido de cowboy. Faulkner dizia que a civilização começou com a destilação.

Enquanto o uísque escocês pode ser dividido basicamente entre blend e single malt  classificados por região, o destilado americano é um emaranhado de regras e nomes. Bourbon, Kentucky Whiskey, Tennessee Whiskey, American Whiskey, Rye Whisky, Corn Whiskey, etc. Cada um tem origem, ingredientes e legislação específica.

Sua história começa nos estados do leste da América do Norte. E remonta o heróico passado da independência. Aparece inicialmente à base de centeio (rye whisky). George Washington foi proprietário de uma destilaria de rye whisky. Nada surpreendente para quem também plantou e defendeu a cultura de hemp (cânhamo, maconha). Ao se deslocar para o oeste, a bebida vai se transformando e adotando outros cereais até incorporar o milho.

O Conselho de Bebidas Destiladas dos Estados Unidos trouxe Jeff Arnett, master distiller da Jack Daniel’s, para um seminário sobre o assunto. Acompanhado por alguns produtores independentes, Arnett apresentou um painel interessantíssimo sobre o assunto e coordenou uma degustação inédita no Brasil. Dos oito apresentados, incluindo os conhecidos Jack Daniel’s, Jim Beam e Wild Turkey, destaco três.

Maker’s Mark ( www.makersmark.com) é um bourbon do Kentucky cujo malt é feito de milho, cevada e trigo vermelho. De cor âmbar, tem aroma de mel, menta, tabaco, tostados e na boca é suave, elegante, longo e de bom corpo. Muito equilibrado.

Jack Daniel’s Single Barrel Tennesse Whiskey é mais escuro, marrom-alaranjado. Aromas claros de madeira, baunilha e toffee que preparam a boca para algo cítrico, frutado e levemente salgado.

Bulleit Bourbon leva 68% de milho, 28% de centeio e 4% de cevada maltada. Uma linda cor marrom-dourada escura e aroma complexo com toques de laranja, mel, pimenta e caixa de charutos são suas características principais. No palato é potente, abaunilhado, encorpado, elegante e com especiarias várias a se apresentar.

Mas nem só de uísque vive o americano. Vodcas e brandies também marcaram presença. Entre os pequenos, ainda sem importadores, destaco a Osocalis Distillery e Catoctin Creek Distilling Co.

A Osocalis (www.osocalis.com) foi fundada no início dos anos 1990 em Soquel, na Califórnia. A marca usa um pequeno alambique tradicional Charental, importado de Cognac, para produzir ótimos brandies com uvas e maçãs das regiões mais frias da costa da Califórnia.

A Catoctin Creek Distilling Co. (www.catoctincreekdistilling.com), fundada pelo casal Becky (engenheira química) e Scott Harris ( engenheiro de TI) em 2009, é a primeira destilaria legal em Loudoun County, Virginia, desde a Lei Seca. Produzem destilados orgânicos e kosher de alta qualidade. Deles provei, entre outros, o Mosby’s Spirit, um white dog, outro apelido para um moonshine, aquele uísque branco que não passa por madeira nem leva corantes.

O termo moonshine se origina da atividade ilegal feita sob o manto da noite e testemunhada apenas pela luz da lua. Mosby’s Spirit, longe de suas congêneres, muitas vezes perigosas, intoxicantes e mortais, é uma refinada versão do uísque ilegal, que fugia das taxas e driblava a Prohibition.

Este que provei tinha o centeio bem presente, toques cítricos e uma doçura sutil. Não testei, mas imagino que seria ótimo ingrediente para coquetéis e em nada lembra personagens desvalidos de Bob Dylan ou Jack London vagando clandestinamente pelas estradas de ferro da América. Está mais para um episódio de House of Cards. Moderno, sofisticado e surpreendente. Mas perigoso, ainda assim.Imagem

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este é um blog sobre bebidas. não sobre transporte. mas imagine poder viajar mais rapidamente e bebendo um bom vinho, uma cervejinha, sem se preocupar com polícia rodoviária, bafômetro, lei seca, multas, etc…

blog da Raquel Rolnik

Mais uma vez a volta do feriado exigiu muita paciência dos paulistanos. Muita gente ficou horas parada no trânsito para conseguir voltar pra casa. Um amigo levou 10 horas para fazer um trajeto entre o litoral e a capital que normalmente dura 3 horas. Imagine só… você passa quatro dias descansando, mas chega em casa totalmente estressado depois desta agradabilíssima viagem de volta…

Já está mais do que claro que duplicação de rodovias, construção de novas pistas, túneis e viadutos não resolvem esse problema. Além de não darem conta da demanda – que só aumenta à medida que se abre mais espaço para veículos passarem –, as consequências ambientais são sempre grandes e raramente mitigáveis. Destruímos serras para chegar mais rápido e usufruir… das próprias serras…

Antigamente era possível ir de trem até Santos e até mesmo para o Guarujá. Lembro que íamos de trem para o Rio, para Minas…

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A simpática Christina Boutari fala dos vinhos gregos e das castas autóctones no evento da importadora Vinci 2013. Veja a imperdível e exclusiva aula de pronúncia em grego.

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