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Posts Tagged ‘vinho português’

Brigadeiro.
Seja para acompanhar um bolinho de bacalhau ou um pastel de Belém, seja para encarar uma coxinha ou um brigadeiro, vai ser fácil encontrar um vinho que satisfaça entre a enorme linha e as 8 milhoes de garrafas produzidas pelo grupo João Portugal Ramos, importado pela Casa Flora.
Presente nas principais regiões vitivinícolas de Portugal, o grupo, um dos maiores daquele país, produz meio milhão só no Douro. Mas veja bem, é capaz de cometer preciosidades como só produzir em torno de 5000 garrafas de um Porto Vintage maravilhoso.
Abaixo algumas notas (*) de vinhos de tres regiões distintas.
Região Vinho verde
JPR loureiro 2014 – 12% de álcool
uvas 85%loureiro 15%alvarinho
O palha.
N fresco, leve erbaceo e flor branca.
B acidez ok, equilibrado, fresco, fruta branca, citrico.
Obs. excelente para o calor, e para acompanhar peixes, ovos, saladas, aperitivos, incluindo a coxinha citada acima.
Pts 86
R$47
vinho verde JPR
Região do Alentejo
Marques de Borba Reserva tinto  2013 13.5% de álcool
uvas Aragones, trincadeira, alicante bouchet e cabernet sauvignon ( corte não revelado)
O denso, granada intenso.
N fruta negra, compotas
B tanino potente, fino mas novo, acidez  ok e ótimo equilibrio. ótimo corpo e maciez.
Obs. 12 meses barrica nova. Vai evoluir bem. Seu auge será entre 10 a 20 anos mas em 5 já estará estupendo.
Pts 92
R$315
Marquês de Borba Reserva 2011
Região Douro Superior
Duorum Colheita Douro DOC 2011 – 13,5%
uvas 40%touriga nacional 40%touriga franca 20% tinta roriz
O vermelho rubi denso.
N fruta vermelha e escura ( ameixa), especiarias.
B bom corpo, taninos finissimos, acidez  equilibrada, aveludado.
Obs solo xistoso, colheita manual, 6 meses barrica carvalho frances segundo e terceiro uso.
Pts 90
R$83
Duorum 2013 JPR
Douro
Duorum Porto Vintage 2007 – 20% de álcool
O vermelho escuro, quase negro e impenetravel.
N menta, chocolate, frutas vermelhas, balsâmico.
B potente, tanino e acidez maravilhosos. Elegante.
Obs ótima estrutura. Casa perfeitamente com um bom brigadeiro brasileiro. Mas queijos e a doçaria portuguesa o esperam com avidez.
Pts 90
R$250
Porto Vintage 2007 JPR
(*)
O= olho, aspecto visual.
N= nariz, aspecto aromâtico
B= boca, paladar
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Há cinco meses à frente da loja de vinhos Epicerie, uma jovem empresa de vendas on line com um posicionamento de descontos agressivos, promoções relâmpago e baixo mark up, Ari Gorestein, Co-CEO e Co-Founder da empresa, se posiciona contra a arbitrária decisão do Governo de quase dobrar os impostos sobre a comercialização do vinho.

Assim como outros jovens empreendedores do mundo do vinho no Brasil, Ari trabalha com a ideia de tornar a bebida acessível a uma maior parte da população. Basta lembrar da imutável cifra de 2 litros per capta/ano para imaginar o potencial deste mercado.  Porém, assim como todos nós, foi recentemente surpreendido pela notícia do aumento do IVA-ST, que levará a taxação do vinho para quase o de 14,23% para 27,40% na venda para pessoa jurídica em São Paulo. Isso, além de onerar comerciantes e prejudicar consumidores, praticamente acaba com as chances de empresas como sua Epicerie de tornar o vinho uma bebida mais democrática. Já é bem conhecida a sanha tributária e burocrática de nossos governos. No caso do vinho, tais tributos nos obrigam a pagar preços entre os mais caros do mundo. Seja para produto importado ou nacional.

Ari pede a união do setor contra tal medida. Tal união, pregada insistentemente por colegas como Didu Russo no seu grupo de trabalho junto à Fecomercio, é ainda tão distante da realidade que me reservo o direito de dar esta pequena contribuição aqui. Não é do feitio deste blog publicar releases,  cartas ou opiniões de produtores, importadores ou quem seja. Mas o escândalo é tal que passo a palavra a Ari. Abaixo a carta na íntegra.

 Carta aberta contra o aumento do IVA-ST

Caros amigos consumidores e amantes de vinho,

Há pouco mais de um mês, em 29 de junho de 2013, a publicação da Portaria CAT 63 estabeleceu um aumento no Índice de Valor Adicionado Setorial (IVA-ST) que rege o cálculo da Substituição Tributária do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS-ST) incidente sobre bebidas alcoólicas, com exceção de cerveja e chope.

Basicamente, o mecanismo de arrecadação do ICMS-ST antecipa para o primeiro elo da cadeia de distribuição os impostos que incidiriam sobre todos os intermediários que comercializam um item desde sua origem até o consumidor final. Para antecipar o recolhimento do ICMS, o Estado define qual o mark-up (taxa de marcação de preço) médio aplicado pelos comerciantes de um determinado setor.

No caso específico dos vinhos importados, atualmente em São Paulo o IVA-ST da categoria é de 56,91%. Tal coeficiente implica no recolhimento de 14,23% sobre o valor da Nota Fiscal quando uma empresa vende à outra com propósito de revenda (ambas dentro do estado). A portaria CAT 63 estabelece que, a partir de 1º de Setembro, o IVA-ST passará a 109,63%. Este aumento substancial significa que, nas operações de venda entre empresas, o recolhimento passará a 27,40% (quase o dobro do atual).

Ainda não há clareza quanto às drásticas proporções do incremento sobre o imposto, já que as entidades de defesa do setor (notadamente a ABBA) apresentaram à Secretaria da Fazenda estudos de preço de instituto de pesquisa idôneo (FIPE) na tentativa de reverter o quadro.

A lógica que sustenta a sistemática de cálculo do ICMS-ST pressupõe que os mark-ups aplicados pelos diferentes comerciantes em um setor sejam semelhantes. Ora, no caso do vinho, bem se sabe que os preços e margens aplicados nos diversos estabelecimentos variam enormemente. A utilização de um mark-up médio onera aqueles que aplicam margens módicas – que beneficiam o acesso do consumidor ao produto – e favorece aqueles que abusam do bolso de seus clientes.

Face ao possível aumento do IVA-ST, vemo-nos na obrigação de nos manifestar contra a medida. A Epicerie está presente no mercado há cerca de cinco meses e tem como propósito maior democratizar o consumo de vinhos e difundir a cultura desta bebida social e historicamente tão rica ao público brasileiro. Para tanto, desde seu lançamento, a empresa tem concedido aos seus clientes descontos agressivos. Ironicamente, abrindo mão de rentabilidade na venda, vê-se impactada pela mesma alíquota de ICMS-ST de seus concorrentes. Pressupor que o mark-up aplicado pela Epicerie seja de 109,63% – quando de fato é muitíssimo inferior – penaliza gravemente nosso cliente ávido por vinhos acessíveis.

Na esperança de que o setor e os consumidores se mobilizem contra tal aumento draconiano,

Ari Gorenstein

Co-CEO e Co-Founder da Epicerie (www.epicerie.com.br)

E depois não querem que o povo se revolte…

Com a palavra Rage Against The Machine:

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Recentemente, fomos premiados com a apresentação de duas escolas de enologia de Portugal, de certo modo tão diversas entre si que quase seria possível imaginá-las originadas de diferentes povos.

De um lado, a jovem Denominação de Origem dos Vinhos do Tejo (leia sobre eles nesta coluna do ano passado), que, com esforço notável, tenta ocupar um merecido espaço no mercado mundial e no brasileiro em particular. Para isso, mudaram o nome de DOC Ribatejo para DOC Tejo, investiram em qualidade, tecnologia e, claro, em marketing. São produtores honestos, algumas vinícolas familiares e, no trato pessoal, guardam ainda um ar provinciano que tem seu charme. Circunspectos, quase paroquiais, porém acolhedores.

Com tais modos tímidos, já desembarcam em terras brasileiras 400 mil litros (dados de 2010), produzidos nos 285 mil hectares de uma região de solo basicamente arenoso e argilo-calcáreo, cortada pelo rio Tejo e por três serras, Aires, Candieiros e Montejunto, com grande influência marítima. Classificam-se três terroirs: Bairro na margem direita do rio, Charneca na margem esquerda e Lezíria, adjacente ao rio e com solo de aluvião.

Paradoxalmente, oriundos da mais antiga Denominação de Origem do mundo, o DOC do Porto, vieram os Douro Boys, um grupo de produtores formado por João Ferreira (Quinta do Vallado), José Teles (Niepoort), Tomás Roquette (Quinta do Crasto), Cristiano van Zeller (Quinta do Vale D. Maria) e Francisco Olazabal (Quinta do Vale Meão). Douro Boys porque apostaram na produção de vinhos tranquilos de uvas oriundas das encostas do rio Douro, antes destinadas somente, ou principalmente, para a produção de Vinhos do Porto.

Os Douro Boys são cosmopolitas, poliglotas, expansivos, ousados e oriundos de famílias afluentes, influentes e atuantes no mundo do vinho há séculos. Produzem vinhos que são verdadeiros ícones e já fazem parte da moderna história do vinho português. Seu masterclass se transforma numa mescla de degustação e stand up comedy, tal a desenvoltura do grupo. Nada mais contrastante do que a comparação com o povo do DOC Tejo.

Os vinhos, porém, mostram outras características. Se em cada uma das regiões cultivam-se até cinquenta das trezentas castas presentes em Portugal, no Douro as variedades tintas se destacam. Seus vinhos são potentes, cheios de fruta, longevos, digamos, mais senhores de si. Muitos de seus vinhos são tributários de vinhas velhas onde às vezes há uma variedade de até 40 castas misturadas, sistema utilizado no passado para manter a média de produção.

Provamos 22 rótulos, e meus destaques são estes:

Redoma Reserva Branco 2009 (Cantu 11 95792805), de vinhas velhas, tem castas como rabigato e viosinho. Traz aroma de flores brancas, mineral e leve mentolado.

Quinta do Vale Meão 2008 (Mistral 11 33723415) traz touriga nacional, touriga franca e outras cepas. Nariz potente, complexo, faz a pisa a pé e fermentação malolática em barrica. Oriundo de vinha fornecedora do mítico Barca Velha.

Quinta do Vallado Reserva Field Blend 2008 (Cantu 11 95792805), vinhas velhas e mescladas. Um gigante, elegante, com aromas leves de fruta, complexidade no nariz e na boca. Taninos suaves e acidez perfeita. Longo e delicado.

Quinta do Crasto Touriga Nacional 2009 (Qualimpor 11 51814492). Produzido só em anos excepcionais. Aroma potente, floral, frutado. Acidez e taninos irrepreensíveis. Na boca, frutas negras e vermelhas. Persistência média.

Niepoort Charme 2007 (Mistral 11 33723415) lembra um borgonha. Com leves tostados, floral, equilíbrio e um ótimo final. Muito gastronômico.

Já os goles do Tejo são muito variados. Podem ser brancos estruturados mas com ótima acidez, rosés quase tintos porém extremamente divertidos, e muitos elogiáveis tintos. Aventuram-se pelos espumantes sem fazer feio, também.

Meus velhos conhecidos Oceanus e Ikon, da Casa Fiuza, (Vinea 11 3059-5200) citados na coluna do ano passado não decepcionaram. Cada um em sua faixa, são excelentes.

A descoberta foram os vinhos da Quinta da Lapa (Azavini 21 22748819). Seu Reserva 2008 venceu o luso Concurso Nacional de Vinhos Engarrafados na edição 2010. Mas meu preferido foi seu Branco Colheita Selecionada 2010, com notas cítricas, estruturado, agradável e persistente.

Outro achado, o Terra Silvestre 2010 Branco, tem um corte de arinto e fernão pires, cor de palha com reflexos esverdeados. Aroma sutil e, na boca, muita maciez e ótimo frescor. Seu irmão Terra Silvestre 2009 Tinto também demonstra enorme personalidade.

Os últimos dois vinhos ainda não são importados para o Brasil. Mas, pela sua qualidade, a espera não deve ser grande.

O Douro, contido em suas margens sólidas e íngremes, ou o Tejo, se espalhando e inundando as planícies transmitem , sem sombra de dúvida, são metáforas das características e da personalidade de seus vinhos. Tamanha variedade só vem reforçar a posição lusa no ranking das importações brasileiras, ultrapassando os vinhos italianos e ficando atrás apenas de argentinos e chilenos.

*publicado originalmente no terra magazine em 30 DE JULHO DE 2011, 08H15

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Os vinhos portugueses Montaria 2010, Porta da Calada 2010 e Baron de B branco 2009

A ViniPortugal promove anualmente um concorrido evento chamado Vinhos de Portugal. Quase perdi o deste ano. Emails não recebidos, chuva e ventos acima da média, trânsito titânico e lá estava eu chegando ao local com apenas mais uma hora para desfrutar as maravilhas das terras lusas.

Pouco tempo, fila para estacionar, muvuca e muitas opções de produtores e importadores. Que fazer? Apesar das usuais dicas de colegas de que tal vinho “é imperdível”, aquele outro “ganhou 200 pontos do Parker” , “este é o vencedor do teste de hoje, etc.”, minha opção foi o que se pode chamar de impressionista/oportunista.

Os produtores com menos fila, mais desconhecidos, me chamam à aventura. E quase sempre a aposta é recompensada. Há alguns anos, foi assim que conheci um dos vinhos portugueses de que mais gosto, ainda sem importador no Brasil, o Marka da Durham-Agrellos.

E da mesma maneira provei alguns grandes vinhos nesta semana. Alguns mais pretensiosos e caros. Outros mais “realistas”. Entre estes me chamaram a atenção os vinhos trazidos por uma pequena e jovem importadora. Diria uma “importadora de garagem”: Adega dos 3 (www.adegados3.com), formada por duas brasileiras e um português, que se propõe a importar apenas “achados” de qualidade oriundos de pequenos produtores e ficar numa faixa de preço de até R$ 100. Enfim, o sonho de muito consumidor.

Os vinhos que provei são três alentejanos:

Montaria 2010, da zona de Estremoz, este corte de trincadeira, aragonez e alicante bouschet, que não passa em madeira, tem cor rubi translúcida, aroma de frutas intenso e notas de tabaco. É muito agradável na boca, com taninos muito bons. Cai bem tanto num bate-papo quanto numa refeição descompromissada. Deve custar aproximadamente R$ 24,00.

Outro tinto interessante é o Porta da Calada 2010. Leva aragonês, trincadeira e syrah. Cor vermelho vivo, aromas de ameixas e especiarias. Boca equilibrada, com bom corpo e acidez. Taninos domados, apesar da juventude. Sai por ótimos R$ 28,00.

O vinho mais interessante, porém, é Baron de B branco 2009, produzido com a casta antão vaz. Um reserva fermentado em barricas novas de carvalho francês e que passa por 8 meses de battônage. Sua bela cor âmbar claro, com reflexos verdes e amarelos, promete já um vinho especial. Mas seus aromas é que realmente nos surpreendem. Com toques de cravo e frutas brancas, na boca tem o corpo e a untuosidade de grandes brancos do novo mundo. O que pode não agradar um apreciador de leves europeus. Apesar disso, mantém frescor, elegância e uma complexidade importante. O preço um pouquinho mais salgado do que os outros: R$ 85,00. Mas não é definitivamente um vinho de entrada e sim de uma gama superior. É para harmonizar com um prato mais, digamos, complexo. Os três vinhos devem estar disponíveis no mercado brasileiro em outubro. Aguardemos os resultados da Adega dos 3.

Outra novidade é a Tambuladeira (www.tambuladeira.com), outra empresa, desta vez portuguesa, com uma proposta parecida para exportação, mas uma gama maior de vinhos e de regiões representadas. Não tenho os preços nem previsão de estreia no mercado nacional.

Destaco deles uma curiosidade do Douro, o Bétula, um corte de sauvignon blanc e viogner. Muito interessante, com ótimo frescor e aromas provenientes da sauvignon blanc, somados ao corpo e força da viogner. Um vinho no mínimo diferente.

Outro vinho que agradou foi o rosado Rovisco Garcia 2009, do Alentejo. Um corte de aragonez, syrah e touriga nacional, com cor salmão, aroma frutado e um paladar muito fresco. Escapando ao padrão de rosés do novo mundo e península ibérica, geralmente mais encorpados e de sabor muito forte, este é delicado, elegante e lembra o estilo do sul da França.

Mais uma vez, Portugal prova que ainda guarda um enorme potencial de surpresas. Que aportem por aqui.

*publicado originalmente no portal terra magazine

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Mauricio Tagliari
De São Paulo

O mundo do vinho português é paradoxal. Tão fincado em tradições, dono da denominação de origem mais antiga do mundo, o Porto, castas autóctones com nomes estranhos, poéticos e prosaicos, famílias há séculos na atividade e, ao mesmo tempo, tão novo mundo, aberto aos cortes exóticos com uvas francesas e legislação razoavelmente flexível. É um país em busca. Busca de visibilidade, reconhecimento, estratégias, sucesso, enfim.

Peguemos o caso do Ribatejo. Seu nome já é uma espécie de manifesto. Seria o oposto de Alentejo. Esta outra região, mais ao sul, tem sido a locomotiva da moderna enologia lusa. Sem descartar os classudos vinhos do Douro ou os emblemáticos da Bairrada ou do Dão, o Alentejo, com sua fama de região atrasada e de gente preguiçosa, vem, nos últimos anos, passando a perna, em termos mercadológicos, nos conterrâneos.

Já o Ribatejo, um DOC relativamente novo, na busca de sua identidade, acaba de mudar para DOC do Tejo, apenas. Faz sentido. O chamado Ribatejo vinícola era, de fato, tributário do terroir do famoso rio. Daí a mudança parecer um acerto.

Ao contrário de outras regiões, este DOC não tem uma casta dominante e tradicional, como a baga na Bairrada, o alvarinho no Minho ou a touriga nacional no Douro. Salvo a exceção da fernão pires, casta branca muito importante, mas existente também em outras partes.

Numa prova recente com vinhos de nove produtores da região, pode-se ver um pouco da evolução do DOC. Entre um punhado de vinhos tintos desinteressantes, com muita concentração mas sem sutileza, encotramos algunss mais leves, de cor menos profunda, mais frutados e elegantes. Algo mais encorpado do que um beaujolais e menos do que um chianti. Entre os brancos, o nível médio é mais alto. Mas não destaco nenhum grande com a uva fernão pires. Tratemos então, um pouco, dos vinhos.

Destaque para o Vale D’Algares “D” Branco 2008, a R$ 44, um alvarinho de adega moderna com nariz complexo, ótima acidez, toques cítricos, mineral, muito fresco e longo. É fermentado em barrica de carvalho francês e faz estágio de 14 meses em madeira. Detalhe: a battonage, isto é, a remexida no vinho guardado, é feita apenas em dias de lua cheia.

O Casal Branco Espumante Monge 2007 100% castelão, a R$ 80 (Dolivino), é muito interessante, com ótima acidez e perlage. Aroma de levedura e final longo.

Uma agradável surpresa foi Casa Cadaval Trincadeira Vinhas Velhas 2008, por R$ 80 (Mercovino). Este único varietal da casa é justamente feito com uma casta difícil e de vinhas mais antigas. Passa um ano por barricas. O resultado é excelente. Elegante, com tostados agradáveis e ótimo equilíbrio, acidez e taninos. Um orgulho para seu enólogo.

Da casa Fiuza, selecionamos dois. Os extremos de preço. Mas procure saber da gama intermediária, também muito boa. O Fiuza Oceanus 2008 , a R$ 29 (Vinea), um corte de touriga nacional e cabernet sauvignon, na faixa de preço é quase imbatível. Cor rubi, aromas de cassis, menta e tabaco. Corpo médio, acidez e taninos muito bem resolvidos, elegante e frutado. Boa persistência.

O top da casa é o Fiuza Ikon 2007, por R$ 184 (Vinea). 100% touriga nacional. Cor rubi profundo, aromas complexos de frutas vermelhas, ameixas e cerejas em compota. Encorpado, de boa estrutura e equilibrado. Notas de chocolate e caramelo. Muito longo.

Alguns dos melhores vinhos vieram do Pinhal da Torre: o Quinta do Alqueve Touriga Nacional Syrah 2003 (Worldwine), a R$ 182, destaca-se pelo que é: um blend muito redondo, de linda cor rubi intensa, quente e encorpado, que passa 12 meses em barrica mas mantém toda o caráter da fruta. E o Pinhal da Torre Quinta do Alqueve Tradicional (Worldwine), a R$ 56, porque, além de ser um corte com as castas tintas mais tradicionais de Portugal (touriga nacional, tinta roriz, touriga franca e trincadeira), com uma linda cor translúcida, corpo médio, acidez muito boa e taninos muito agradáveis, tem um preço muito honesto. Seu nome, Tradicional, faz jus ao resultado com todo o caráter típico dos grandes vinhos de uvas portuguesas.

Todos estes vinhos já estão no mercado brasileiro. Confira.
Alguns deles, e aí vai uma dica, devem estar à venda na Abravinis, uma feira que ocorrerá nos dias 23 a 25 de novembro, das 14 às 22h, no Clube Pinheiros, em São Paulo. Mais de 100 rótulos com preços especiais. O valor do convite é de R$ 60,00, com 50% revertidos em créditos a serem utilizados em compras no evento. Uma boa para as compras de fim de ano.

* publicado originalmente no terra magazine

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Dizia Vinícius de Morais que “a vida vem em ondas, como o mar”. Sim, acreditem, Lulu Santos (ou Nelson Motta) apenas citava o poetinha. E esta sabedoria zen se manifesta das mais diferentes formas. Pense, querido leitor, que nem sempre se tem assunto interessante para uma coluna de bebidas semanal. Há períodos de seca, real e metafórica. Nada de lançamentos, nada de efemérides, nada de nada. Mas eis que chegamos em uma determinada semana e os assuntos são tantos e tão maravilhosos que ficamos paralisados. Como que atônitos frente ao rugido de uma tsunami. Esta foi uma destas semanas. Como explicar e por onde começar? Ao menos cinco grande degustações vieram ao meu encontro e foi uma dura e prazerosa tarefa sobreviver à onda.

Logo na segunda-feira houve uma extremamente bem-vinda mostra de vinhos orgânicos e biodinâmicos. Que dizer deles?

Dos inúmeros produtores presentes, alguns já com representantes no Brasil e outros ainda não, podemos afirmar que produzem vinhos excelentes e de grande personalidade. Alguns muito diferentes. Nenhum mau vinho, porém.

Destaco três produtores e seus vinhos.

Os de Mas Estela, bodega do litoral norte da Catalunha, quase na França, apresentados pelo entusiástico herdeiro/proprietário, Dídac Soto Dalmau. Os legendários e simplesmente inesquecíveis austríacos de Nikolaihof Wachau, baseados na cepa local grüner veltiliner, mas também em riesling e até chardonnay. E finalmente os da Foradori, uma cantina nova, que explora muito bem o potencial da algo menos prestigiada cepa italiana teroldego, criando vinhos pungentes.

Mas o que são e o que almejam estes vinhos orgânicos, biodinâmicos ou seus congêneres? Acredito que o objetivo final seja um compromisso com a terra e com o homem. Em palavras mais prosaicas, com sustentabilidade e saúde. E isto se consegue com o respeito total ao tão falado e pouco entendido “terroir”.

Como um assunto leva ao outro, pulo outras degustacões excelentes, de vinhos portugueses e chilenos, para viajar diretamente ao, pode-se dizer, elitista mundo da PFV – Primum Familiae Vini, ou seja, o fechado e aristocrático grupo europeu de onze empresas familiares donas de vinhedos e vinícolas. Seus proprietários se envolvem pessoalmente com a produção e são líderes em suas respectivas regiões. A respeitável lista de membros inclui desde o Château Mouton Rothschild até Antinori e Vega Sicilia, passando pela champagne Pol Roger e o porto de Graham’s.

A PFV tem uma lista de princípios que incluem desde um cultivo tradicional, responsável e respeitoso ao terroir, atingindo patamares muito caros aos biodinâmicos (Vega Sicilia, por exemplo, não usa um herbicida há 30 anos, já), até ações de filantropia, sem descuidar do intercâmbio de conhecimentos e experiências em viticultura, enologia e todos os aspectos do negócio.

Chamou a atenção a frase de Miguel Torres sobre um de seus objetivos: “I’ll never go to stock market. If you go to stock market, you go to hell”. Defende, assim, que a qualidade de alta gama só seja possível, no mercado do vinho, através do negócio familiar. Sem preocupações de rentabilidade a curto prazo. E, para exemplificar, aponta seu colega de Vega Sicilia, que está plantando sobreiros, árvores de onde vem a cortiça da rolha. Elas só começam a produzir num prazo de 40 anos. Muito longo para investidores. Mas no horizonte dos netos dele.

É difícil descrever cada um desses produtos e seria injustiça deixar algum de fora. As palavras se mostram mudas diante de certos vinhos. A literatura se torna inútil. A poesia está imersa inteira no líquido. E explicar a poesia é matá-la um pouco. Cor, aroma, sabor e história se concentram em alguns vinhos excepcionais e mesmo bebedores experientes ficam impressionados.

Cada produtor apresentou duas safras de um mesmo vinho. A saber:

Pol Roger 2000 e 1990.
Beaune Clos de Mouches Blanc 2007 e 2002 (Joseph Drouhin).
Riesling Jubille 2007 e 1998 (Hugels & Fils).
Château de Beaucastel Châteauneuf Du Pape 2007 2004 (Perrin & Fils ).
Solaia 2007 e 2001(Antinori).
Sassicaia 2007 e 2000 (Tenuta de San Guido)
Torres Mas de Plana 2007 e 2001(Torres)
Vega Sicilia Unico 2000 e 1982.
Château Mouton Rothschild 2001 e 1986.
Scharzhofberger Auslese Golkapsel 2007 e 1990 (Egon Muller Scharzhof).
Graham’s Vintage Port 2007 e 1980.
Cada um destes vinhos merece uma resenha para si. E pretendo fazê-las aos poucos. Nas semanas de seca! Mas, para deixar um gostinho bom na boca, comentarei o Scharzhofberger Auslese Golkapsel 1990, de quem detém a menor propriedade e produção, nem por isso menos tradicional. A família mora no local e pratica vitivinicultura desde 1797.

Produzido com uvas em “pouriture noble”, isto é, botitrizadas, num terroir que remonta o tempo dos romanos, este vinho doce, de um dourado exuberante, tem aromas potentes, riquíssimos e complexos. Daria uma lista de ervas, cítricos, minerais, marmelo, flor de laranja, etc. Na boca é muito denso, elegante e persistente. Mas, acima de tudo, diferente. Muito diferente e surpreendente. Não deve nada ao melhor dos Sauternes. Ouvi de um renomado degustador sentado próximo que morreria afogado neste vinho com prazer. Foi sem dúvida o mais festejado do evento. Infelizmente, está esgotado. Daí o prazer potencializado pela saudade já presente.

Veja aqui ( by didu) Valeska Muller da Egon Scharzhof apresentando seus vinhos:

Uma degustação deste quilate não acontece todo dia. Foram muitos os elogios e agradecimentos nos pronunciamentos dos convidados eleitos. Mas poderíamos sintetizá-los com a frase de Ciro Lila, proprietário da Mistral e um dos nomes mais importantes do vinho no Brasil: “Obrigado, não por fazerem vinhos excelentes. Mas por fazerem vinhos excelentes tão diferentes”.
* originalmente publucado no terra magazine.

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publicado no terra magazine.

monte sainte victoire, inspiração de cézanne e grande terroir.

Procuramos muitas coisas no vinho. E felizmente é raro nos decepcionarmos. Há quem busque se inebriar, pura e simplesmente. Há quem deseje aroma e sabor. Outros estão em busca de história. E há aquele, pobrecito, atrás de status. Interessam-me, sem desprezar aroma, sabor e história, três outras coisas: originalidade, ousadia e autenticidade. A fuga da monotonia, enfim.

A autenticidade me veio esta semana através dos deliciosos rosés da Provence. O Conselho Interprofissional de Vinhos de Provence (CIVP) lança um website (www.vinhosdeprovence.com.br) direcionado ao mercado brasileiro e traz um sistema de busca e localização de mais de 70 vinícolas presentes ou interessadas no Brasil. Há descrição de vinhedos e fichas de vinhos, e também uma relação de mais 20 importadoras que já comercializam vinhos provençais por aqui. Uma ferramenta excelente e um exemplo para outras regiões produtoras no mundo.

O Brasil é um mercado óbvio para o rosé da Provence. Tipicamente um vinho seco e leve, de cor clara e límpida, em tons de salmão, pêssego ou cor de casca de cebola, com aromas delicados, frutados e florais, o rosé de Provence, seja como aperitivo de verão ou harmonizando com a comida, é uma opção extremamente versátil.

Além dos pratos da culinária provençal, como ratatouille, bouillabaisse, salada niçoise, este rosé é solução para o acompanhamento de delícias brasileiras, mexicanas e até orientais. Tente uma moqueca baiana ou um cuscuz marroquino. Pratos bem temperados, em geral. Mesmo receitas chinesas e thay têm muito a ganhar com este encontro. Eu gosto muito com pizza.

Estes rosés são vinhos que respeitam a comida. Não se impõem, antes acrescentam algo. São espontâneos, refrescantes, naturais e verdadeiros. Seu estilo único se deve em grande parte a seu método tradicional de elaboração. Diferentemente do processo de sangria, usado no resto do mundo, que gera vinhos mais encorpados, de cor mais intensa e algumas vezes um pouco cansativos, na Provence a maceração é bem mais curta. O que garante a cor, a delicadeza e o equilíbrio.

Destaco dois dos vinhos degustados quando do lançamento do site:

Chateau de Pourcieux 2009 (importado pela Cantu). Apresentado pelo simpaticíssimo proprietário, o Marquês Michel d’Espagnet, este corte de syrah, grenache e cinsault vem de uma propriedade familiar, que vinifica aos pés do Monte Sainte Victoire, imortalizado pelas várias pinturas de Cézanne, desde 1760. Não chega a ser um desconhecido por estas bandas. Foi o vencedor por três vezes do painel top 10, categoria rosados, da Expovinis, inclusive em 2010. Cor pêssego com leve tom salmão, nariz intenso de frutas vermelhas e rosa. Na boca é leve, muito elegante e longo.

Outro vinho interessante é o Cascaï 2009, do Château Ferry Lacombe. Uma promessa da Zahil para 2011. É outro filho do Monte Sainte Victoire. Este vinho, assemblage de grenache (60%), cinsault (20%) e syrah (20%), oriundo das vinhas mais antigas da propriedade, tem a cor rosa pálida, nariz intenso com notas florais, mas é na boca que se revela. Sua grande maciez e fineza trazem um surpreendente toque, que chega a lembrar algo de um grande Sauternes, sem a doçura deste. Provavelmente devido ao corte com mais grenache. Um vinho realmente original e autêntico.

Mas eu não poderia terminar sem comentar a outra alegria da semana. A prova dos vinhos de Carlos Campolargo, este premiado produtor da Bairrada, em Portugal. Não bebemos seu famoso Vinha do Putto, mas outros seis vinhos, incluindo seu Espumante Campolargo Bruto 2008 (U$ 39,50) feito pelo método tradicional com as uvas bical, arinto e cerceal.

Agradou-me bastante o Campolargo Arinto 2008 (U$ 59,90), um branco fermentado em barrica com maceração prolongada, muito intenso e concentrado, frutado e denso. Dos tintos, destaque para a ousadia do Diga? Petit Verdot 2006 e o Calda Bordaleza 2006.

Mas foi no Rol de Coisas Antigas 2007 (U$ 69,90) que reconheci a personalidade direta, criativa e marcante de Carlos Campolargo. Este vinho é uma experiência com um grande grupo de castas típicas da Bairrada (Baga, Castelão Nacional, Trincadeira da Bairrada, Bastardo, Souzão, Tinta Pinheira, Alfrocheiro e Bical), fermentadas juntas e maturadas em barricas de carvalho usadas por 12 meses. Um vinho potente, com 13,5% de álcool, boa acidez e corpo. Original, ousado e autêntico.

E também idiossincrático, como seu criador.

“roubado” do didu. grande didu!

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