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Posts Tagged ‘vinho’

um ótimo anselmo mendes

um ótimo anselmo mendes

Os europeus, principalmente franceses, mas também alemães, espanhóis, portugueses e italianos, são considerados os patriarcas do negócio moderno de vinhos. As regulamentações, as denominações de origem, os critérios técnicos mais exigentes e os rótulos paradigmáticos surgiram nesta parte do velho mundo. São resultado de pelo menos 2 mil anos de produção e evolução técnica consistentes.

O resto do mundo produtor, Américas, África do Sul, Austrália e companhia, incluindo a China, começou a se organizar mais tarde. África do Sul e Chile já produziam vinho no século XVI. Mas sua presença no mercado mundial é de fato recente. Por conta disso, o produtor do novo mundo tem certa liberdade.

Um produtor da Borgonha tem de usar uvas pinot noir e chardonnay. Quando muito, uma aligoté. Já o produtor do novo mundo planta e vinifica o que quiser, basicamente. Ele procura apenas o vinho que lhe agrade e que obtenha a aprovação dos consumidores.

Hoje se desenha um movimento contrário. A maioria dos produtores mais sérios de Argentina, Chile e até mesmo Brasil busca a identificação com seu terroir. Quer solidificar os melhores resultados através de um leque restrito de castas, descrevendo cada parcela de vinhedo com precisão científica. Ou seja, acelerar o  processo de séculos que levou o velho mundo para criar suas regulamentações.

A curiosidade é que o “velho mundo” do vinho também tem suas surpresas e quer se libertar.

Veja Portugal, por exemplo. A mais antiga zona demarcada do mundo foi a do Vinho do Porto. Nem por isso a burocracia enológica engessou completamente o resto do país. Experimentações cada vez mais interessantes surgem aqui e ali. Depois da revolução dos vinhos da Bairrada, capitaneada por Luís Pato, da entrada em alto estilo do Douro no mercado dos vinhos tranquilos de alta gama, com os Douro Boys, e toda a avalanche novidadeira do Alentejo, chega a vez dos Vinhos Verdes.

Antes de mais nada, vamos esclarecer que Vinho Verde não é verde. É o nome de uma região do Minho, extremo norte de Portugal, que tem uma vegetação exuberante. Daí a nomenclatura. O Vinho Verde pode ser tinto ou branco.

No passado até recente, era visto como um vinho simples e barato. A verdade é que sua grande maioria ainda o é. São vinhos que trazem a chamada agulha, um leve frisante, devido a um residual de gás carbônico na fermentação. Os brancos, geralmente das uvas alvarinho, loureiro e avesso, são leves, pouco alcoólicos e simples. Os tintos, baseados principalmente na casta vinhão, apresentam-se selvagens e agressivos.

Já ouvi de críticos renomados que o Vinho Verde é um gosto adquirido. Exagero. Mas foi preciso que um enólogo mais ousado e inquieto liderasse seus pares a um novo patamar. Seu nome é Anselmo Mendes.

Metodicamente, Anselmo iniciou há uns vinte anos sua pequena revolução particular. Desde o princípio seu objetivo nada modesto foi o de produzir Vinhos Verdes do nível dos melhores Borgonha. Primeiro, melhorou os vinhedos. Segundo passo, caprichou na seleção das uvas e na vinificação. Experimentou com madeiras novas e usadas.

Sua recompensa chegou. Os brancos por ele apresentados em sua última passagem por São Paulo comprovam a qualidade dos resultados alcançados. Alguns varietais, outros de  cortes tradicionais, mas todos com uma ótima acidez, muito equilíbrio, elegância, complexidade e sutileza. Perfeitos para acompanhar peixes e frutos do mar.

Um toque cítrico é sempre presente. Floral, frutado e mineral se revezam. Ora flor de laranjeira, ora grapefruit, a depender da varietal. Mas o que chama a atenção é a persistência e a estrutura dos vinhos. Anselmo afirma que os seus devem ser guardados entre cinco e dez anos para evoluírem bem. Arrisco dizer que alguns podem esperar mais um pouco. Quinze ou vinte anos. Uma façanha para brancos em geral e anos-luz da fama do Vinho Verde.

O vinho que mais me agradou foi o Alvarinho Parcela Única 2013, fermentado em barricas usadas em contato com as borras por nove meses. Tem cor palha límpida com reflexos verdes. É o caráter mais mineral de toda a linha. Sápido, gordo, equilibrado, leve cítrico, herbáceo e austero. Surpreendentemente, um certo petrolato fez lembrar um grande riesling alemão.

Se Portugal tem suas chicanas e caminhos alternativos, como faria um francês para experimentar?

Bem, antes de tudo, tem de fugir da Borgonha e de Bordeaux. O Languedoc, no sudoeste francês, entre os Pirineus, o Mediterrâneo e o Atlântico, foi a porta de entrada da cultura romana dos vinhos. Historicamente, é um importante produtor. Mas acabou desbancado pelas regiões mais famosas. Ali cultivam-se syrah, caringnan, grenache, mourvédre e viogner, entre outras. O perfil é mais latino e mediterrânico. Um pouco espanhol, um pouco mais anárquico e mais livre que no resto da França.

O tradicional Domaine Paul Mas se modernizou nos últimos doze anos e hoje produz 2 milhões de caixas. O grupo começou com uma vinícola e hoje tem nove. A história recente começa quando do boicote americano a produtos franceses devido à recusa destes em participar da Guerra do Golfo.

Esses franceses irreverentes apostaram numa piada e criaram uma linha de vinhos chamada Arrogant Frog. Assumiram o ancestral apelido “frog” (sapo) dado pelos ingleses e, melhor ainda, riram de sua fama mundial de arrogância ao adotar um nome em inglês no rótulo de um vinho francês. Coisa típica de novo mundo.

o humor francês do arrogant frog

o humor francês do arrogant frog

Não poderiam ter feito melhor. A linha hoje vende 5 milhões de garrafas/ano e responde por 25% das vendas. A razão para tamanha aceitação, claro, está em ser um vinho com qualidade consistente e preço bastante acessível, R$ 79. Para se ter uma ideia, é o terceiro rótulo francês mais vendido nos supermercados brasileiros. Com certeza, muito melhor que os dois líderes.

Outros rótulos de Paul Mas que me agradaram muito foram seu Mas de Mas Picpoul de Pinet 2013 (R$ 99), um branco sem madeira que passa quatro meses sobre as leveduras, e o ótimo Mas de Mas Terrasses Larzac 2010 (R$ 177). Este último é um corte de 40% syrah, 35% mourvédre, 20% carignan e 5% grenache que passa oito meses em um mix de barricas francesas novas, de segundo e terceiro usos. Sua cor rubi encanta e o nariz sedutor lembra a garrigue, aquela vegetação arbustiva típica do sul da França, recheada de aromas florais e herbáceos, ressecada e intensa. Seus taninos são macios e têm uma persistência excelente.

Paul Mas consegue produzir vinhos com caráter francês bebíveis por quem está acostumado aos vinhos chilenos e argentinos.  O velho mundo se arrisca e brinca de novo mundo.

 

* vinhos importados pela Decanter 

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Tem quem não leve o vinho branco muito à sério. Inocentes! Diga isto na Borgonha. Ou na Alsácia. Alguns dos mais deliciosos vinhos do mundo são brancos. Mas por outro lado o apelo à leveza e diversão é indiscutível em uma grande maioria deles. Em geral, com as óbvias excessões, são vinhos feitos para o consumo dentro de um ou dois anos. Com estrutura mais simples. Passando este prazo tendem a perder frescor e acidez. Alguns resistem mais e até evoluem. Mas na média, guardar vinho branco é arriscar beber algo em declínio.

Não é tão comum encontrá-los em quantidade nas cartas de restaurantes. Menos ainda as meia-garrafas. Por conta disso é festejo o ótimo design desta novidade trazida pela Mistral: o vinho Nano, o mais recente lançamento da vinícola neozelandesa Sileni Estates.

 O conteúdo já era conhecido do público brasileiro: o delicioso Cellar Selection Sauvignon Blanc de Sileni (US$ 10.90). Mas embalado em uma garrafinha pet de última geração – MLP PET (multi-layer pet) – com um copo ‘clip-on’ acoplado, que se encaixa na parte superior da garrafa. Uma belezinha.

Ótima opção para servir ao ar livre, na balada, em piscinas, piqueniques, festas. O volume, de 187ml, é uma dose exata e voce nem precisa de copo. Como escrito acima o design já resolveu este problema. Só não dá pra tirar da mochila e beber direto pois não está geladinho. Mas a tecnologia logo vai cuidar disso. O produtor afirma que a embalagem é 100% reciclável. A conferir. Eu “reciclei” a minha guardando junto com o squeeze que levo para a academia. Mania de quem guarda embalagens interessantes e garrafas de grandes vinhos. Sei que não estou sozinho nessa.

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Sou um ferrenho defensor das degustações às cegas. É o melhor antídoto para o preconceito e a melhor forma de um degustador manter a humildade..

O resultado do Top 5 da edição carioca do Encontro de Vinhos, evento itinerante organizado pelos blogueiro Beto Duarte e Daniel Perches, foi mais uma prova desta tese.

Numa amostra de 54 rótulos que estarão presentes no evento, o vinho mais votado foi o surpreendente Leopoldo 2007, um brasileiro de Santa Catarina, abaixo de R$50, batendo argentinos, portugueses, eslovenos, italianos, franceses, etc.

Ainda em terceiro lugar ficou o Guatambu Rastros do Pampa Cabernet Sauvignon 2013, da região da Campanha Gaúcha. O ranking foi completado com o 2º Lugar, Pera Grave 2007 do  Alentejo, 4º Lugar, Norton Reserva Malbec 2011 e 5º Lugar, Norton Privado 2011.

Vinhos do Top 5.

Vinhos do Top 5.

Há ainda um grande preconceito contra o vinho brasileiro e resultados como este servem para abalar algumas certezas do mundo do vinho. Não é a primeira vez que vejo vinho nacional bater ícones do novo e do velho mundo. Mas um vinho nesta faixa de preço é uma agradável surpresa.

Quem estiver pelo Rio poderá prová-lo e mais 300 rótulos de 40 expositores.

Serviço:

Encontro de Vinhos 2015| Rio de Janeiro
Data: 05/03 (quinta-feira)
Local: Clube Fluminense – http://www.fluminense.com.br

Rua Álvaro Chaves, 41

Horário: das 14h as 22h

Ingressos: R$ 80,00 na porta, R$70 para compra antecipada.
Condições especiais: Meia entrada para estudantes e terceira idade
Associados do clube pagam meia que será revertido em compras.

Convênio com o 99Taxis que dá um desconto de R$15

Site do evento: www.encontrodevinhos.com.br

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O consumidor brasileiro de vinhos amadureceu. Até outro dia, bebia de mal a medianamente. Hoje, a oferta para ele é gigantesca. E as opções de qualidade se expandiram enormemente. A curiosidade de quem bebe vinho leva a caminhos variados. Pula-se de “vinho bom é o francês” para “os chilenos não devem nada ao primeiro mundo”. Contudo, entre “vinho brasileiro não presta” e “vinho francês bom é muito caro”, o consumidor pode ter surpresas e destruir mitos.

Sim, muitos chilenos não devem nada para o primeiro mundo. Mas hoje há chilenos caríssimos também. Não, nem todo vinho brasileiro é ruim. A média melhorou muito. Há alguns fantásticos. E, finalmente, nos últimos anos alguns produtores importantes da França descobriram o Brasil. Uma grande quantidade de rótulos chega aqui por preços bem competitivos.

Alguns não dispõem de intermediários. Um membro do clã Rothschild, por exemplo, mudou-se de mala e cuia para São Paulo. Philippe de Nicolay Rothschild montou sua importadora, a PNR, e trouxe vários rótulos da família, de seu ícone Lafite até alguns blends abaixo de R$ 100, passando por seus ótimos champagne. Claro que os mais caros são muito caros. O Carruades de Lafite, o segundo vinho da Maison Lafite, por exemplo, sai por mais de R$ 2 mil a garrafa. Nem pergunte o preço do Chateaux Lafite. Mas, ainda assim, por não precisar de atravessadores, os vinhos estão chegando, em média, entre 10% a 20% mais em conta do que custariam.

Fugir de atravessadores, negociants, courtiers e importadores gananciosos vai baixar um pouco o preço. Mas também é claro que a sanha tributária brasileira não facilita.

Há quem aposte na compra en primeur, ou seja, negocia parte da produção assim que ela fica pronta, antes de passar pelo estágio de amadurecimento e afinamento que precede sua comercialização. E também antes de aparecerem as notas dos críticos e especialistas. Como comprar en primeur sempre representa um risco, o preço da safra é mais em conta.

A Castel Studio abriu escritórios no Brasil para vender os rótulos de grandes maisons. Ela negocia esses vinhos en primeur e mantém a maior parte de seu estoque principal em Bordeaux. Ou, no caso de uma encomenda, a garrafa sai direto do chateaux para  a casa do comprador. O transporte é feito por avião. Com isso, ela afirma conseguir, para rótulos de altíssima gama, preços de 30% a 60% abaixo do mercado. Presente em São Paulo e Porto Alegre, traz estrelas como Château Palmer, Château Margaux, Haut Brion e o Château Angelus. Uma parceria especial com o Château Angelus ainda garante a exclusividade na venda de certos rótulos da vinícola.

Por toda a América, apenas a Castel Studio tem o direito de vender o  N3 D’Angelus, vinho produzido com as mesmas uvas (blend de merlot, cabernet franc e cabernet sauvignon) e as mesmas barricas do Château Angelus, um vinho leve, com taninos delicados, fresco, toque de frutas negras e especiarias (por R$ 355,  uma fração do preço de seu primeiro vinho). A Castel Studio concentra seu catálogo também em vinhos de alta qualidade, em uma faixa de preço mais acessível.

Na América Latina, tem a representação exclusiva do Château Silver Bell (propriedade comprada recentemente pelo enólogo Hubert de Bouard, dono do Château Angelus). A safra 2009 é uma surpresa. Frutado e jovem, o vinho traz potência e elegância. Resta acompanhar sua evolução nas próximas safras sob a nova batuta.

O Château Lanessan, do Haut-Médoc, safra 2010, pede a guarda de mais alguns anos. Assim como o Silver Bell, custa R$ 179. Preço de muito vinho do novo mundo de menor qualidade.

Mas é ótimo saber que o Chateau Gloria 2010, um dos meus preferidos (um delicioso corte de cabernet sauvignon, merlot, cabernet franc e petit verdot), da comuna de Saint-Julien, no Médoc, de taninos suaves e muita fruta madura escura, como cassis e kirsch, e que levou  93 pontos de Robert Parker, custa aqui R$ 299!

Castel Studio

www.castelstudio.com

Philippe de Nicolay Rothschild

www.pnrimport.com.br

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Ao provar, recentemente, os vinhos chilenos de Errazuriz e Caliterra pudemos notar a força das ideias de um homem. Além de elegantes, gastronômicos e cheios de personalidade, trazem o nome de Eduardo Chadwick, o visionário proprietário das duas vinícolas, embutido nos seus rótulos.

 

Idealizador da Cata de Berlin, onde comparou às cegas seus vinhos com os que haviam sido ranqueados 100 pontos por Parker, como Margaux, Lafite e Latour da colheita 2000, Sassicaia, Solaia, Tignanello. Foi uma surpresa para os críticos eleger como os melhores os seus Chadwick 2000 e Seña 2001, este concebido em parceira com Robert Mondavi.

 

Herdeiro da tradicional Bodega Errazuriz, Eduardo lidera uma guinada na enologia chilena. Incluindo terroir, tecnologia e sustentabilidade na pauta chilena, vem transformando os vinhos e nossa percepção a respeito deles.

 

Fundada em 1870, a Errazuriz saiu da mão da família para ser retomada em 1983. Hoje possui uma bodega nova que funciona por gravidade. A mais jovem Caliterra produz seus tintos em 1850 hectares de Colchagua, abarcando vários solos e várias exposições solares. Os brancos vem de Leyda no litoral, fresco e com influência oceânica. Provei sete vinhos Errazuriz e seis da Caliterra, todos muito interessantes. Aqui vão as minhas impressões:

 

Max reserva sauvignon blanc 2013, Aconcagua. Tem 13% de álcool e passa 3 meses nas borras (U$43,90). Cor amarelo palha, nariz delicado de frutas brancas se abre em cítrico. Na boca é cremoso, delicado, seco, mineral e  tem acidez elegante.

 

Meu preferido foi o Chardonnay Aconcagua Costa 2013. (13,5% de álcool, 12 meses de madeira usada) Cor palha e aroma floral, silvestre. Leve, longo, de acidez delicada, toques de pessego, limão siciliano e um final quente. Corpo médio, elegante e quase europeu.

 

Max Reserva Pinot Noir 2012 (13,5% de álcool U$43,90) Boa cor. Aromas de fruta vermelhas levemente cozidas ou maduras demais. Boca leve, boa acidez, corpo fresco e suculento. Facil de beber.

 

Syrah Aconcagua Costa 2012 (13,5%) Este syrah de um solo de xisto passa 14 meses em barrica francesa usada. Tem cor densa rubi, aromas de especiarias, cânfora e algo animal. No palato é nervoso, tanino vivo, grande acidez, persistência e corpo medios, suculento e levemente frutado.

 

The Blend Collection Red 2008 (40% carmenere,  25% syrah, 14% petit verdot, 13% mourvedre, 8% cabernet  franc, 14,5% de álcool, passa 16 meses por  barrica francesa  60% novas,  U$69,90) Boa cor e um halo marron revelando sua maturidade. Nariz potente traz baunilha, chocolate, notas de  madeira e tostado. Na boca é elegante, potente e de boa estrutura. Completa com boa acidez. Um vinho suculento  e no seu ponto ideal.

 

Todo ano o corte do Blend Collecion muda para buscar a expressão máxima da colheita. A versão 2011 é um blend mediterraneo .

 

The Blend Collection Red 2011 (55% grenache,  28% mourvedre,  10% syrah,  5% carignan, 2% marsanne,14% de álcool, passa 16 meses por barricas francesas novas, U$69,90). Um vinho de cor densa e potente aroma de fruta fresca. No paladar é suculento, leve, frutado, de boa acidez, tanino elegante,  gastronômico. Não se sente a madeira sobressair e é facílimo de beber. Pode evoluir muito.

 

Don Maximiniano Founder’s Reserve 2009 (80% cabernet sauvignon, 10% carmenére, 5% petit verdot, 5% cabernet franc, 14,5%  de álcool, passa 22 meses em  barricas francesas novas,  U$189). Sua cor densa e fechada já promete a potência que o nariz reforça. Rico em fruta madura, balsâmico, tabaco e mentol. No paladar é estruturado, encorpado, tem tanino potente, carnudo e persistente. Sua acidez é ok e tem grande capacidade de evolução.

 

A prova de Caliterra trouxe o Tributo Sauvignon Blanc 2012 do Sul do Vale de Leyda. Um branco erbáceo com toques de maracujá, leve, floral, mineral, salino, com boca cremosa e acidez  delicada. Bom corpo e sem madeira. Muito agradavel.

 

Tributo Carmenere 2011, (14,5% de álcool, 91% carmenere, 6% cabernet franc, 3% syrah) O vinhedo fica no meio do vale de Colchagua, sobre um trecho de argila negra. Tem cor rubi transparente, nariz de especiarias, paladar picante, sápido e de corpo médio. Taninos bons, acidez idem. Muita fruta negra e sensação quente.

 

Tributo Cabernet Sauvignon 2011( 14,2% de álcool, 91% cabernet sauvignon, 6% petit verdot, 3% cabernet franc, R$88). Originário de um vinhedo numa colina com exposição norte, sua cor tem densidade média, traz um agradável nariz de chocolate, pimenta preta, frutas negras e caixa de charuto. Na boca tem muita fruta, taninos macios, acidez boa e  leve toque animal.

 

A interessante proposta da série Caliterra Edición Limitada traz tres cortes: A de andino, M de mediterráneo e B de bordalês. Todos com 14,5% de álcool.

 

Edición Limitada A 2010  (65% carmenère, 32% malbec, 3% petit verdot, R$ 162).

2010 foi um ano frio, o que ajudou no frescor dos vinhos. Nariz de especiarias, frutas negras, café e  tabaco. Na boca é macio, encorpado,  quente, rico de fruta negra, fez bem a malolática, tem a madeira presente. Longo e alcool explosivo.

 

Edición Limitada M  2010 ( 91% syrah, 6% viogner, 3% petit verdot). Escuro púrpura denso. Nariz potente de fruta madura, leve floral. Peca pelo excesso de álcoool, mas os taninos largos e o uso dosado de madeira nova, compensam. Promete.

 

Edición Limitada B 2011 ( 74% cabernet sauvignon, 9% merlot, 4% cabernet franc ). Cor rubi densa e borda violácea, tem um nariz cheio de especiarias e fruta vermelha. Na boca é macio e fácil. Taninos e acidez bem equilibrados com uma madeira bem integrada. Evoluirá muito bem e superará bons Bordeuax pelo caminho. O meu preferido da série.

 

Baixo um clipe de Necesito una Canción, de NaNo Stern. A música fala de renovação, de velho e novo, de transformação.  Chadwick ajudou a transformar o vinho chileno.

 

 

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Masterclass é um termo algo desgastado entre aqueles que acompanham os movimentos do vinho no Brasil. Toda semana, parece que há uma nova dessas sessões sobre um assunto qualquer. Nem sempre foi assim. Lembro-me de umas das primeiras a que assisti e que, sim, fizeram a diferença sobre como aprecio e entendo os vinhos. Foi a primeira vez em que Pedro Parra, o geólogo chileno especialista em terroir, apresentou-se por estas bandas. Ele abriu meus horizontes no quesito importância do solo para o vinho. Vieram outras masterclasses. Algumas bem interessantes, outras mais ou menos.
Recentemente, contudo, o termo adquiriu um novo vigor. A Wines Of Argentina proporcionou mais que uma degustação, um verdadeiro aprofundamento no pensamento atual da enologia do novo mundo. Ouvir Alejandro Vigil falar de suas descobertas, Daniel Pi descrever vinhos premiados e Sebastian Zuccardi mostrar seu entusiasmo com o futuro dos vinhos argentinos foi uma oportunidade rica e prazerosa.
É ótimo saber que o gradiente de temperatura de Gaultallary é semelhante ao da Borgonha, puxando mais para o frio. Que Agrello lembra mais Bordeaux e Napa em seu clima temperado. E que Lulunta emula a Côte du Rhône, mais quente.
Alejandro Vigil comentou sobre as 2 mil microvinificações-teste em andamento na Catena e explorou as possibilidades de chardonnay e cabernet franc. Deixou claro que a Argentina ainda tem muito tempo de malbec pela frente, mas não deve se ater somente a esta cepa. O momento é de descobrir mais a geografia e outros fatores. Dado positivo, outros winemakers pensam igual. Há muito o que fazer.
Nesta busca, elegeram a altitude, entusiasmados com o gradiente de temperatura, mas descobriram que a insolação UV é um fator mais importante. A combinação de temperatura X solo X altitude X rendimento cria possibilidades ótimas para a chardonnay, por exemplo.
Para provar suas teses, Vigil mostrou três brancos de três alturas distintas que usam a mesma vinificação e a mesma madeira. Mudam apenas as datas de colheita, em busca de um grau alcoólico máximo de 13,5%. Ainda não engarrafados, foram trazidos especialmente para a ocasião. O primeiro, de solo calcáreo cultivado a 1.450m, é mineral, seco, fresco e com cara de limonada. Tem um leve floral. O segundo, de solo pedregoso a 1.100m, sofre stress hídrico e é mais gordo. O terceiro vem de solo argiloso profundo, a 800m. Tem mais tostado, é mais amargo e pesado, com aroma frutado.
Completou a demonstração com quatro cabernet franc 2010 que trouxe de gualtallary (1500m) de solos diferentes, mas muito próximos (60m de distância). Todos foram vinificados em barris novos e colocados seis meses em fudres velhos.

A diversidade do terreno se mostrou assim:
Vinho 1. De solo argiloso profundo e boa umidade. Tem aroma de fruta, pimenta (piracina), na boca taninos  firmes, acidez clara e agradável.
O segundo, de terreno com pedras aluvionais e calcáreo, tem nariz mineral e na boca muita fruta, taninos macios e acidez ok.
O terceiro, de solo pouco profundo, com apenas  25 cm (uma capa de pedra impede a raiz de passar), apresenta nariz de chocolate, floral, rico, parece ter mais madeira e lembra algo do loire. A boca traz  tanino doce, acidez ok.
O quarto, de solo calcáreo, exibia café no aroma. Na boca é sápido e de boa acidez, com corpo médio.Foi uma aula de diversidade. Vinhos tão diferentes, feitos com a mesma uva, da mesma maneira e de vinhedos tão próximos, comportam-se diferentemente e com altíssimo nível.

Sebastian Zuccardi, por sua vez, tratou com autoridade do tema da latitude. Ele defende que os argentinos são vinhos de montanha, pois clima, solo e água dependem da cordilheira. Mendoza é um deserto em altura. Pouca água e muita luz. Dos terroirs de Mendoza, só 3% são cultiváveis, pois falta água. Sebastian trouxe bonardas e malbecs de várias regiões para demonstrar as diferenças de latitude. Esses vinhos não vão para o mercado da forma como os provamos. São usados em cortes da Zuccardi. Portanto, uma oportunidade única de comparar as regiões de Mendoza.
Partindo de vinificações iguais, em tanques de cimento sem revestimento de epoxi (safra 2013), usando  boa parte das uvas com razimos inteiros pra trazer taninos, Sebastian empregou apenas barrica de terceiro e quarto usos. Seu desafio, sabiamente, é diminuir dulçor.  Aqui, bem resumidamente, descrevo as diferenças.
Bonardas
Santa Rosa.  650m, solo mais profundo, sem pedras, 13,5% de álcool. No nariz mais fruta, na boca sobressai o álcool e o tanino é potente.
Altamira. 1.100m, solos aluvionais, muitas pedras com carbonato de cálcio, 13% de álcool. Nariz tem tostado e na boca, bom corpo e fruta potente
San Jose. 1.400m, solo aluvional, pedras menores, sem carbonato, 12,5% de álcool. Nariz elegante e palato com boa acidez, fruta e leveza
Malbec
La Consulta 2013. 900m. Cor intensa, nariz elegante, complexo, floral, mineral, frutas negras. Macio na boca, taninos doces, acidez ótima, corpo médio, persistente, muito potencial.
Vista Flores 2013. 1.100m. De terreno pedregoso. Cor intensa. Aroma floral, de fruta negra, mineral, especiaria, rosa e no palato é macio, com tanino doce, ótima acidez, equilibrado e longo.
Altamira 2013. Sul do vale de Uco, num terreno com muito carbonato. Nariz potente e rico, tanino macio, doce e bom corpo.
Gualtallary 2013. Norte de Uco, região também com muito carbonato. Sebastian exibiu fotos onde se vê que a raiz da videira abraça  a pedra de uma forma interessante. Aromas de tomate, taninos doces, acidez limpa e agradável, clara, corpo leve, fresco e mais curto que os outros.
Em um próximo post, comento a degustação dos vinhos do Argentina Premium Tasting.

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O Chile é um dos dois países sul-americanos que não têm fronteira com o Brasil. Nem por isso deixa de ser a origem de uma parcela enorme dos vinhos que bebemos por aqui. Na verdade, exporta quase o dobro do segundo player, a Argentina. No primeiro semestre de 2014, registrou 48% de participação em volume e 40% em valor.

A tradição vitivinícola chilena é centenária e diversa. Iniciada pelos conquistadores espanhóis, mais tarde ganhou enorme influência francesa. Na fase heróica da expansão internacional do vinho chileno, a cabernet sauvignon foi a estrela. Seus vinhos potentes, frutados, com muita madeira e toque de pimentão, marcaram época. Depois veio a descoberta da carmenère e a tentativa de tranformá-la, através de estratégia de marketing, na sua casta-ícone, como a malbec na Argentina. Mas temos visto ultimamente que o Chile é muito mais do que isso.

A Wines of Chile, que há alguns anos organiza um encontro com palestras e degustações no Brasil, trouxe para esta edição 2014 o sommelier chileno Héctor Riquelme, que conduziu a masterclass “Os Extremos do Chile”.

Foram dez vinhos apresentados no painel. Todos oriundos de fora dos tradicionais vales da região mais central do país. Alguns praticamente no deserto de Atacama, ao norte, como o Tara Red Wine 1 Pinot Noir 2012, produzido no vale de Huasco pelo grupo Ventisquero. Outros, no extremo sul, em regiões frias e chuvosas, como o Lago Ranco Sauvignon Blanc 2013, da Casa Silva, provavelmente o vinho mais austral já produzido em escala comercial, diz o enólogo Mario Geisse.

A masterclass comprovou a incrível variedade geográfica, cobrindo mais de 1000 km de norte a sul, e trouxe grandes surpresas. Uma delas foi a presença de cinco vinhos do vale de Itata, ao sul. Esta região, palco de séculos de guerra entre os conquistadores europeus e os nativos mapuche, cultiva a videira há 500 anos. Sem um histórico de vinhos de grande qualidade, vem sendo, porém, redescoberta pelos especialistas.

São de lá, por exemplo, o Outer Limits Old Roots Cinsault 2013 da Viña Montes, um vinho opulento e saboroso. Aqui, a Cinsault tem um toque de 15% de mourvédre para encorpar. Apesar do corte típico do sul da França, este Outer Limits tem um caráter totalmente distinto. Nada do sol mediterrânico. Tem o calor e a intimidade das lareiras.

A gigante vinícola São Pedro fez em Itata uma experiência radical. Produziu apenas 300 garrafas de um vinho da uva país, uma cepa crioula, típica do Chile. O resultado é algo selvagem, com taninos de certa rusticidade. Mas de boa acidez, frutado, longo. Interessante e provavelmente grande companhia para um cozido de carnes típico da região.

A ótima De Martino trouxe o Gallardía del Itata Cinsault 2013. A curiosidade é a boa acidez, não muito típica desta uva, resultante do clima chuvoso e da colheita antecipada. Encontramos um vinho agradável, fácil, elegante e leve. Os taninos são finos e a nota carbônica dá uma vivacidade surpreendente. Um vinho nervoso, mas facílimo de beber.

Mais por curiosidade, vale citar El Insolente Carignan 2010 da Rogue Vine, um vinho de garagem, sem aditivos e com leveduras nativas. São 807 garrafas vinificadas de uvas carignan oriundas de um vinhedo de 60 anos. No nariz, lembrou um francês com fruta madura e toque mineral. Na boca me trouxe à memória alguns vinhos do norte da Espanha. Vinhos com tensão, acidez, tanino potente, com especiarias, fresco e levemente adocicado.

E para fechar temos o Los Patricios Chardonnay 2010, da Pandolfi Price. Esta jovem bodega tem a consultoria de François Massoc, dos premiados vinhos Aristos e Clos de Fou. Los Patricios é um chardonnay feito com leveduras selvagens, proveniente de um solo vulcânico assentado sobre materiais argilosos glaciais. Tem um aroma interessantíssimo, complexo, frutado e mineral. Um pouco de flores brancas também se mostra aqui. No palato é vivo, profundo, elegante e persistente. Um toque cremoso e a boa acidez apontam para futuro de guarda promissor. Muito diferente dos chardonnays típicos do novo mundo. Tem um caráter próprio. Sem a pretensão de ser um Borgonha.

Ao final de uma degustação como esta, com dez taças na frente, é normal voltar a provar cada vinho para checar a evolução no copo. Em nove entre dez provas, o aroma dos restos de copo dos tintos traz um toque de café, caramelo ou algum tostado. Em geral, proveniente de uso de madeira. Não é defeito. É um sinal. E às vezes até bem agradável. Mas muito comum.

Chamou-me a atenção que neste painel nenhuma taça evoluiu para estas características. Prova do pouco ou quase nulo uso de barricas para corrigir, mascarar ou empetecar os vinhos. Os que declaram o uso mencionam apenas barricas de terceiro e até quinto usos. Isto é, que não aportam mais aquelas características de baunilha, café, chocolate, etc., típicas de carvalho novo.

São vinhos sinceros. Retratos do terreno e do clima. Sem imitações ou busca de agradar um consumidor imaginário.

Esta é a marca deste outro Chile que está sendo descoberto e que encanta.

E aqui uma amostra de um outro Chile musical. O clipe, road movie da canção“Lo Que Quieras” do Duo Denver mostra várias das paisagens produtoras de vinho. Aviso aos mais sensíveis: tem um pouco de violência.

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