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Degustação Ventisquero

Degustação Ventisquero

Criada em 1998 e comandada por uma equipe enológica jovem e talentosa, a chilena Viña Ventisquero tem se destacado pela criatividade agressiva de seus rótulos. A cara e “o” cara da Ventisqueiro é Felipe Tosso, um bem-humorado líder de equipe que, com simpatia e humildade, vem perpetrando ano após ano vinhos cada vez mais interessantes.

Pude provar recentemente 15 rótulos que só confirmam minha admiração.

Aqui vão minhas notas para alguns dos vinhos (*):

Queulat Sauvignon Blanc 2014
Leyda, Viñedo Las Terrazas
O Palha, reflexos amarelos.
N Leve cítrico, mato verde.
B Bem cítrico, bem seco, vegetal. Acidez alta, ótima estrutura.
Obs: solo argiloso de Casablanca.
Pts 90
Grey GCM 2014
Apalta
50% garnacha, 30% cariñeña, 20% mataro (monastrell ou mourvedre).
O Rubi com muitas lágrimas e borda translúcida.
N Fruta e chá.
B Frutado, especiado, longo e elegante.
Obs: solo diferente do resto de Apalta, com pedra e argila. Vinhedos de 10 anos.
Pts 91
Enclave 2011
Pique, Alto Maipo.
86% cabernet sauvignon, 7% petit verdot, 5% carmenere, 2% cabernet franc.
O Vermelho medianamente denso, borda rubi.
N Tabaco, chocolate, couro, tostado.
B Acidez elevada, muita fruta, boca viva e  ótima estrutura.
Obs: feito em parceria com o australiano John Duval, 50% do vinho usa leveduras naturais e passa por 22 meses em barrica de várias idades.
Pts 90
Tara Branco 2013
Vale de Huasco, Deserto de Atacama
100% chardonnay.
O Amarelo turvo quase marfim.
N Leve cítrico, fruta exótica.
B Untuoso, rico, suculento, bem cítrico, bem seco, vegetal. Acidez alta, ótima estrutura.
Obs: do clima extremo do deserto, num solo extremamente salino e com uma camada de apenas 10cm de argila, a uva se esforça entre a neblina matinal, o vento da tarde que enverga as parreiras e o frio da noite para produzir heróicos 300 ou 400 g de fruta por pé. O vinho passou dois anos em barrica de seis anos de uso. Nada de leveduras selecionadas e sem filtragem. Um vinho mágico.
Pts 91
Heru 2013
Casablanca, Viñedo Tapihue,
100% pinot noir
O Rubi translúcido.
N Morango.
B Corpo médio, acidez ótima, muita fruta. Agradabilíssimo.
Obs: solo de Casablanca com muita pedra.
Pts 93
(*)
= olho, aspecto visual.
= nariz, aspecto aromático.
= boca, paladar.

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Ao provar, recentemente, os vinhos chilenos de Errazuriz e Caliterra pudemos notar a força das ideias de um homem. Além de elegantes, gastronômicos e cheios de personalidade, trazem o nome de Eduardo Chadwick, o visionário proprietário das duas vinícolas, embutido nos seus rótulos.

 

Idealizador da Cata de Berlin, onde comparou às cegas seus vinhos com os que haviam sido ranqueados 100 pontos por Parker, como Margaux, Lafite e Latour da colheita 2000, Sassicaia, Solaia, Tignanello. Foi uma surpresa para os críticos eleger como os melhores os seus Chadwick 2000 e Seña 2001, este concebido em parceira com Robert Mondavi.

 

Herdeiro da tradicional Bodega Errazuriz, Eduardo lidera uma guinada na enologia chilena. Incluindo terroir, tecnologia e sustentabilidade na pauta chilena, vem transformando os vinhos e nossa percepção a respeito deles.

 

Fundada em 1870, a Errazuriz saiu da mão da família para ser retomada em 1983. Hoje possui uma bodega nova que funciona por gravidade. A mais jovem Caliterra produz seus tintos em 1850 hectares de Colchagua, abarcando vários solos e várias exposições solares. Os brancos vem de Leyda no litoral, fresco e com influência oceânica. Provei sete vinhos Errazuriz e seis da Caliterra, todos muito interessantes. Aqui vão as minhas impressões:

 

Max reserva sauvignon blanc 2013, Aconcagua. Tem 13% de álcool e passa 3 meses nas borras (U$43,90). Cor amarelo palha, nariz delicado de frutas brancas se abre em cítrico. Na boca é cremoso, delicado, seco, mineral e  tem acidez elegante.

 

Meu preferido foi o Chardonnay Aconcagua Costa 2013. (13,5% de álcool, 12 meses de madeira usada) Cor palha e aroma floral, silvestre. Leve, longo, de acidez delicada, toques de pessego, limão siciliano e um final quente. Corpo médio, elegante e quase europeu.

 

Max Reserva Pinot Noir 2012 (13,5% de álcool U$43,90) Boa cor. Aromas de fruta vermelhas levemente cozidas ou maduras demais. Boca leve, boa acidez, corpo fresco e suculento. Facil de beber.

 

Syrah Aconcagua Costa 2012 (13,5%) Este syrah de um solo de xisto passa 14 meses em barrica francesa usada. Tem cor densa rubi, aromas de especiarias, cânfora e algo animal. No palato é nervoso, tanino vivo, grande acidez, persistência e corpo medios, suculento e levemente frutado.

 

The Blend Collection Red 2008 (40% carmenere,  25% syrah, 14% petit verdot, 13% mourvedre, 8% cabernet  franc, 14,5% de álcool, passa 16 meses por  barrica francesa  60% novas,  U$69,90) Boa cor e um halo marron revelando sua maturidade. Nariz potente traz baunilha, chocolate, notas de  madeira e tostado. Na boca é elegante, potente e de boa estrutura. Completa com boa acidez. Um vinho suculento  e no seu ponto ideal.

 

Todo ano o corte do Blend Collecion muda para buscar a expressão máxima da colheita. A versão 2011 é um blend mediterraneo .

 

The Blend Collection Red 2011 (55% grenache,  28% mourvedre,  10% syrah,  5% carignan, 2% marsanne,14% de álcool, passa 16 meses por barricas francesas novas, U$69,90). Um vinho de cor densa e potente aroma de fruta fresca. No paladar é suculento, leve, frutado, de boa acidez, tanino elegante,  gastronômico. Não se sente a madeira sobressair e é facílimo de beber. Pode evoluir muito.

 

Don Maximiniano Founder’s Reserve 2009 (80% cabernet sauvignon, 10% carmenére, 5% petit verdot, 5% cabernet franc, 14,5%  de álcool, passa 22 meses em  barricas francesas novas,  U$189). Sua cor densa e fechada já promete a potência que o nariz reforça. Rico em fruta madura, balsâmico, tabaco e mentol. No paladar é estruturado, encorpado, tem tanino potente, carnudo e persistente. Sua acidez é ok e tem grande capacidade de evolução.

 

A prova de Caliterra trouxe o Tributo Sauvignon Blanc 2012 do Sul do Vale de Leyda. Um branco erbáceo com toques de maracujá, leve, floral, mineral, salino, com boca cremosa e acidez  delicada. Bom corpo e sem madeira. Muito agradavel.

 

Tributo Carmenere 2011, (14,5% de álcool, 91% carmenere, 6% cabernet franc, 3% syrah) O vinhedo fica no meio do vale de Colchagua, sobre um trecho de argila negra. Tem cor rubi transparente, nariz de especiarias, paladar picante, sápido e de corpo médio. Taninos bons, acidez idem. Muita fruta negra e sensação quente.

 

Tributo Cabernet Sauvignon 2011( 14,2% de álcool, 91% cabernet sauvignon, 6% petit verdot, 3% cabernet franc, R$88). Originário de um vinhedo numa colina com exposição norte, sua cor tem densidade média, traz um agradável nariz de chocolate, pimenta preta, frutas negras e caixa de charuto. Na boca tem muita fruta, taninos macios, acidez boa e  leve toque animal.

 

A interessante proposta da série Caliterra Edición Limitada traz tres cortes: A de andino, M de mediterráneo e B de bordalês. Todos com 14,5% de álcool.

 

Edición Limitada A 2010  (65% carmenère, 32% malbec, 3% petit verdot, R$ 162).

2010 foi um ano frio, o que ajudou no frescor dos vinhos. Nariz de especiarias, frutas negras, café e  tabaco. Na boca é macio, encorpado,  quente, rico de fruta negra, fez bem a malolática, tem a madeira presente. Longo e alcool explosivo.

 

Edición Limitada M  2010 ( 91% syrah, 6% viogner, 3% petit verdot). Escuro púrpura denso. Nariz potente de fruta madura, leve floral. Peca pelo excesso de álcoool, mas os taninos largos e o uso dosado de madeira nova, compensam. Promete.

 

Edición Limitada B 2011 ( 74% cabernet sauvignon, 9% merlot, 4% cabernet franc ). Cor rubi densa e borda violácea, tem um nariz cheio de especiarias e fruta vermelha. Na boca é macio e fácil. Taninos e acidez bem equilibrados com uma madeira bem integrada. Evoluirá muito bem e superará bons Bordeuax pelo caminho. O meu preferido da série.

 

Baixo um clipe de Necesito una Canción, de NaNo Stern. A música fala de renovação, de velho e novo, de transformação.  Chadwick ajudou a transformar o vinho chileno.

 

 

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O Chile é um dos dois países sul-americanos que não têm fronteira com o Brasil. Nem por isso deixa de ser a origem de uma parcela enorme dos vinhos que bebemos por aqui. Na verdade, exporta quase o dobro do segundo player, a Argentina. No primeiro semestre de 2014, registrou 48% de participação em volume e 40% em valor.

A tradição vitivinícola chilena é centenária e diversa. Iniciada pelos conquistadores espanhóis, mais tarde ganhou enorme influência francesa. Na fase heróica da expansão internacional do vinho chileno, a cabernet sauvignon foi a estrela. Seus vinhos potentes, frutados, com muita madeira e toque de pimentão, marcaram época. Depois veio a descoberta da carmenère e a tentativa de tranformá-la, através de estratégia de marketing, na sua casta-ícone, como a malbec na Argentina. Mas temos visto ultimamente que o Chile é muito mais do que isso.

A Wines of Chile, que há alguns anos organiza um encontro com palestras e degustações no Brasil, trouxe para esta edição 2014 o sommelier chileno Héctor Riquelme, que conduziu a masterclass “Os Extremos do Chile”.

Foram dez vinhos apresentados no painel. Todos oriundos de fora dos tradicionais vales da região mais central do país. Alguns praticamente no deserto de Atacama, ao norte, como o Tara Red Wine 1 Pinot Noir 2012, produzido no vale de Huasco pelo grupo Ventisquero. Outros, no extremo sul, em regiões frias e chuvosas, como o Lago Ranco Sauvignon Blanc 2013, da Casa Silva, provavelmente o vinho mais austral já produzido em escala comercial, diz o enólogo Mario Geisse.

A masterclass comprovou a incrível variedade geográfica, cobrindo mais de 1000 km de norte a sul, e trouxe grandes surpresas. Uma delas foi a presença de cinco vinhos do vale de Itata, ao sul. Esta região, palco de séculos de guerra entre os conquistadores europeus e os nativos mapuche, cultiva a videira há 500 anos. Sem um histórico de vinhos de grande qualidade, vem sendo, porém, redescoberta pelos especialistas.

São de lá, por exemplo, o Outer Limits Old Roots Cinsault 2013 da Viña Montes, um vinho opulento e saboroso. Aqui, a Cinsault tem um toque de 15% de mourvédre para encorpar. Apesar do corte típico do sul da França, este Outer Limits tem um caráter totalmente distinto. Nada do sol mediterrânico. Tem o calor e a intimidade das lareiras.

A gigante vinícola São Pedro fez em Itata uma experiência radical. Produziu apenas 300 garrafas de um vinho da uva país, uma cepa crioula, típica do Chile. O resultado é algo selvagem, com taninos de certa rusticidade. Mas de boa acidez, frutado, longo. Interessante e provavelmente grande companhia para um cozido de carnes típico da região.

A ótima De Martino trouxe o Gallardía del Itata Cinsault 2013. A curiosidade é a boa acidez, não muito típica desta uva, resultante do clima chuvoso e da colheita antecipada. Encontramos um vinho agradável, fácil, elegante e leve. Os taninos são finos e a nota carbônica dá uma vivacidade surpreendente. Um vinho nervoso, mas facílimo de beber.

Mais por curiosidade, vale citar El Insolente Carignan 2010 da Rogue Vine, um vinho de garagem, sem aditivos e com leveduras nativas. São 807 garrafas vinificadas de uvas carignan oriundas de um vinhedo de 60 anos. No nariz, lembrou um francês com fruta madura e toque mineral. Na boca me trouxe à memória alguns vinhos do norte da Espanha. Vinhos com tensão, acidez, tanino potente, com especiarias, fresco e levemente adocicado.

E para fechar temos o Los Patricios Chardonnay 2010, da Pandolfi Price. Esta jovem bodega tem a consultoria de François Massoc, dos premiados vinhos Aristos e Clos de Fou. Los Patricios é um chardonnay feito com leveduras selvagens, proveniente de um solo vulcânico assentado sobre materiais argilosos glaciais. Tem um aroma interessantíssimo, complexo, frutado e mineral. Um pouco de flores brancas também se mostra aqui. No palato é vivo, profundo, elegante e persistente. Um toque cremoso e a boa acidez apontam para futuro de guarda promissor. Muito diferente dos chardonnays típicos do novo mundo. Tem um caráter próprio. Sem a pretensão de ser um Borgonha.

Ao final de uma degustação como esta, com dez taças na frente, é normal voltar a provar cada vinho para checar a evolução no copo. Em nove entre dez provas, o aroma dos restos de copo dos tintos traz um toque de café, caramelo ou algum tostado. Em geral, proveniente de uso de madeira. Não é defeito. É um sinal. E às vezes até bem agradável. Mas muito comum.

Chamou-me a atenção que neste painel nenhuma taça evoluiu para estas características. Prova do pouco ou quase nulo uso de barricas para corrigir, mascarar ou empetecar os vinhos. Os que declaram o uso mencionam apenas barricas de terceiro e até quinto usos. Isto é, que não aportam mais aquelas características de baunilha, café, chocolate, etc., típicas de carvalho novo.

São vinhos sinceros. Retratos do terreno e do clima. Sem imitações ou busca de agradar um consumidor imaginário.

Esta é a marca deste outro Chile que está sendo descoberto e que encanta.

E aqui uma amostra de um outro Chile musical. O clipe, road movie da canção“Lo Que Quieras” do Duo Denver mostra várias das paisagens produtoras de vinho. Aviso aos mais sensíveis: tem um pouco de violência.

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